Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

HAICAIS III

 

 

José Augusto Carvalho

 

 

 

Minha angústia é exemplar:

Eu me perdi de mim mesmo,

Quando tentei me encontrar.

 

Se Cristo voltasse ao povo,

Os evangélicos iriam

Crucificá-Lo de novo.

 

E “depois deste desterro”

Talvez eu faço por onde

Não ir ao meu próprio enterro.

  

 

Eis a implicação dos ateus:

Se Deus fez tudo do nada,

O nada é a essência de Deus.

 

Só pela honra o homem se mede.

É por isso que o político

É só um animal que fede.

 

 

Tenho horror a políticos, confesso.

Estou cansado de pagar impostos

Pra sustentar pilantras do Congresso.

 

Perdão a mim mesmo rogo:

Matei em mim a criança

Na ânsia de crescer logo.

 

Esta verdade salta aos olhos meus:

Se Deus tem o poder de vida e morte,

O menor, no Brasil, então é Deus.

   

Da religião foi o diabo o inventor

Para que o homem ingenuamente o sirva

Mas na ilusão de que serve ao Senhor.

 

Perdoe-me se sou assim,

Mas eu me tornei o resto

Do que soçobrou de mim

 

Se Deus é onipresente, além de eterno,

E se o inferno é algum lugar que existe,

Deus certamente está também no inferno.

 

O mundo que eu sonho rui,

E resta só a saudade

Daquilo que eu nunca fui.

 

Criado o mundo, Deus, com a alma cansada,

Quis descansar, espreguiçou, dormiu,

E desde então não quis fazer mais nada.

 

Capitu... Diadorim...

O melhor já foi criado!

Não sobrou nada pra mim!...

 

Cansado de não ter uma plateia

Deus fez o homem pra ser adorado

E ainda não viu burrice nessa ideia.

 

Eu da vida nada espero.

Na escala de zero a dez,

Fiquei abaixo do zero.

 

O velho já não sabe o que fazer:

É covarde demais para matar-se

Mas lhe falta coragem de viver.

 

Não sou bom, não sou mau. Eu sou assim:      

Perdi a infância e a adolescência, e tanto

Que me tornei o que sobrou de mim.

 

Ideal que me proponho:

Sonhar a vida que levo,

Levando a vida que eu sonho.

 

Quando eu morrer, um fã devotado

Me inventará um milagre

Para eu ser canonizado.

 

Nascer, viver, morrer... a vida é assim.

Quando se morre, a morte é para sempre,

E nada recomeça após o fim.

 

Se o mal te atinge, pondera:

Pois, por mais que dure o inverno,

Sempre chega a primavera.

 

Pus no atril a partitura

E executei sem compassos

Os dós da minha amargura.

 

A criança que há em mim desponta

E eu invento a minha vida

Num mundo do faz de conta.

 

Já não há  mais quem aguente:

Políticos são prova viva

De que Deus odeia a gente.

 

Uma verdade sem graça:

A gente morre um pouquinho

A cada dia que passa.

 

O sexo engorda – dizias.

Então vou passar o tempo

Te enchendo de calorias.

 

Melhor idade? – Tolice.

Melhor idade é a do jovem.

Por que não dizer “velhice”? 



publicado por Do-verbo às 17:55
Segunda-feira, 16 de Junho de 2014

O SONHO E OS MITOS

 

 

José Augusto Carvalho

 

O sonho, esse conjunto de sons e  imagens quase sempre surrealistas que nos vem durante o sono, mesmo contra a nossa vontade, batizou estranhamente o ideal por que lutamos e que constitui, às vezes, o objetivo principal da vida.  Como uma fantasia absurda que temos durante o sono pôde também designar, em sentido figurado,  o que nos humaniza e dá um simulacro de sentido à vida?

Dizem que o sonho, no sentido próprio,  é manifestação do subconsciente ou uma prova de que o cérebro está sempre funcionando. Não sei por quê, o sonho nos homens é em preto e branco, mas, nas mulheres – dizem os entendidos –,  o sonho é colorido. Por ser fantasioso e incoerente, o sonho não pode ser interpretado racionalmente.  A ciência já comprovou que não existe sonho premonitório, a não ser na ficção. A história de José do Egito que decifrou os sonhos do faraó e lhe conquistou as graças (Gen. 40 e 41) é apenas mais uma das divertidas invenções de Moisés, o autor dos primeiros livros da Bíblia e de outros  mitos bíblicos, como o dilúvio ou a história fantasiosa de uma serpente a tentar a segunda mulher de Adão (Gen. 3, 1-6.) A primeira foi Lilith; Eva foi sua sucessora.  Se alguém disser que houve um tempo em que os animais falavam, está aí esse capítulo do primeiro livro da Bíblia a mostrar que pelo menos as cobras falavam, embora se saiba que a serpente seja apenas um dos disfarces do mitológico deus do mal... O mais curioso desses mitos lembra a Medusa, que transformava em pedra as pessoas que a olhassem de frente:  o da mulher de Ló que virou estátua de sal ao olhar para trás para ver  a destruição de Sodoma e Gomorra (Gen. 19, 26.). Aliás, o Noé e sua família lembram a versão mitológica de Deucalião e Pirra, que repovoaram o mundo depois do dilúvio. Se bem me lembram as leituras adolescentes dos romances de José de Alencar, em O Guarani, no final do romance,  há uma  versão indígena do dilúvio em que Ceci e Peri representam o casal destinado à perpetuação da espécie. Os mitos se repetem em todas as religiões. Já por isso,  Lévi-Strauss, no estudo em que propõe as unidades constitutivas dos mitos, ou “mitemas”, dizia que os mitos, “aparentemente arbitrários, se reproduzem com os mesmos caracteres e segundo os mesmos detalhes, nas diversas regiões do mundo” (LÉVI-STRAUSS, Claude. A estrutura dos mitos. In: ---. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, p.  239).

Acho que foi Luís Fernando Veríssimo que se manifestou, numa crônica, sobre o sonho, amaldiçoando-o por ser algo que nos chega sem  ser  desejado, independente de nossa vontade. Acho, no entanto, que o sonho é uma forma de nos mantermos vivos quando perdemos parte de nossa vida a dormir. Um homem de 75 anos passou  25 anos dormindo. Sonhar é diminuir um pouco essa perda significativa do nosso tempo de vida, desde que nos esforcemos para que o sonho não seja esquecido quando acordamos. Afinal, dizem os entendidos, todos nós sonhamos sempre que estamos dormindo. Mas pensamos que não sonhamos porque nos esquecemos do sonho quando acordamos. E, por mais longo que o sonho possa parecer, é sempre curto e quase sempre precede os instantes finais do sono, quando estamos prestes a acordar.

Acho que é pelo que há de fantasioso e suprarreal que os sonhos são sempre maravilhosos, ainda que se manifestem como pesadelos. Quem sabe se acreditar numa vida depois da morte não seja também uma suprarrealidade que as religiões acalentam? Bendigamos os sonhos, no próprio e no figurado. São uma prova de que estamos vivos.

 

(Suplemento Pensar do jornal A Gazeta, cidade de Vitória, ES-Brasil,  14-06-14)



publicado por Do-verbo às 12:34
Sábado, 06 de Julho de 2013

Haicais II

 

José Augusto Carvalho

 

 

Eis a implicação dos ateus:

Se Deus fez tudo do nada,

O nada é a essência de Deus.

 

Algodão entre cristais,

A minha vida parada

Passa depressa demais.

 

Nascer, morrer – ida e chegada...

O homem é uma frágil ponte

Ligando um nada a outro nada.

 

O poder corrompe, a fama embriaga,

O amor constrói, Deus é fiel...

Todo chavão é praga.

 

Na disfarçada idolatria

A Igreja  inventa seus santos

E a eterna virgindade de Maria.

 

Desminto meus alfarrábios:

O amor existe e  há de estar

Na doçura dos teus lábios.

 

A saudade aprisionada:

Na caixa, a trança e uma foto

De uma filha assassinada.

 

Tem dois lados toda fama:

O sopro que aviva a brasa

Apaga também a chama.

 

O que mais dói no meu ser:

As coisas que não fiz bem

E as que não pude fazer.

 

Ir ao topo é uma ambição:

Quanto mais alto subimos,

Melhor é a nossa visão.

 

 

Cidade de Vitória, ES - Brasil



publicado por Do-verbo às 16:02
Sábado, 22 de Junho de 2013

HAI-KAIS IRREVERENTES

 

José Augusto Carvalho

 

 

Não tenho do verso a ciência,

Mas gosto de pôr à prova

Minha própria incompetência.

O meu ser é carcomido

De tanto ser e não ser

Na dor de nunca ter sido.

 *

Aproxima-se o meu fim.

Quando eu morrer,

O que serei de mim?

 *

Estou banhado em suor.

Bátegas caem sobre o pão.

Seu sabor será melhor?

 *

Quando chegar minha hora

Talvez eu ache um jeitinho

De não ir embora.

 *

O sentido da vida consiste

Em procurar para ela

Um sentido que inexiste.

 *

Os meus hai-kais,

Se vêm da fé,

São imorais.

A pedra cai na água fria,

E as ondas que faz se espalham

Na minha mente vazia.

 *

Eis um poeta da gema:

O vento que agita as ramas

Segreda um longo poema.

 *

Minha crença é esta, em suma:

Deus, antes de criar tudo,

Não tinha idade nenhuma.

 *
Cidade de Vitória - ES - Brasil


publicado por Do-verbo às 16:29
Sábado, 10 de Novembro de 2012
A NECESSIDADE DA POESIA
José Augusto Carvalho


Quem escreve – ainda que um simples bilhete – tenta afastar-se do falar cotidiano, tenta usar uma linguagem diferente da que está habituado a usar. E escrever poemas é distanciar-se ainda mais da fala do dia a dia. É trabalhar a língua, é subverter a sintaxe, é falar à alma. Por isso, as primeiras manifestações literárias de um povo costumam ser em versos. Quando não havia escrita, as histórias se contavam em poemas, porque as rimas ajudavam no processo de memorização e facilitavam a transmissão da cultura, de geração a geração. A perpetuação da ficção da comunidade ágrafa e da sua cultura – essa terá sido a primeira função da poesia.
Penso nisso agora, ao reler o artigo que (pasmem!), um poeta escreveu no caderno Mais!, de 26-01-97, na Folha de São Paulo. Refiro-me ao artigo “A necessidade atual da inútil poesia”, de Régis Bonvicino, em que ele diz, entre outras coisas:
“A poesia não tem, propriamente, uma função. Ela é inútil (...). Sua inutilidade atravessa regimes políticos diversos, bem como Economias (...). Talvez a poesia tenha uma função no quadro das artes e da cultura: a de ser manifestação inútil (“Teoria do inutensílio”, de Paulo Leminski), sem presença no dia a dia das pessoas, o que lhe confere liberdade e arbitrariedade. (...). A poesia está – hoje – dissociada da evolução das línguas. Não tem, assim, nem mesmo sua antiga função de estimular uma língua (sic!) – papel desempenhado pela televisão, pelo rádio, pelos jornais e um pouco pelo cinema. Há um esvaziamento da poesia neste final de século e de milênio.”
E por aí vai. A citação é longa, mas vale para mostrar que o primeiro grande equívoco do articulista foi confundir a poesia (o conteúdo) com o poema (a forma). A poesia existe em toda parte, em todo lugar, em todos os momentos. Compete ao poeta captá-la e transpô-la para o livro, ou para o filme, ou para a televisão, ou para a música, ou para a dança, ou para o rádio... O poeta é o que vê poesia onde o comum dos mortais não vê nada, além do trivial. Baudelaire viu-a no escatológico; Augusto dos Anjos, num escarro de sangue; Castro Alves, na ânsia de liberdade e de igualdade entre os homens. Gérard de Nerval viu na borboleta um traço de união entre a flor e o passarinho, e a borboleta ficou mais bonita para quem passou a ver nela isso também. Como seria a História do Brasil sem os poemas de Castro Alves, contra a escravidão? Como seria a História do Mundo sem os versos da “Chanson d’automne”, de Paulo Verlaine, que serviram de código para informar a resistência sobre a invasão aliada, na II Guerra Mundial? Ou sem os acordes iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven, que, casualmente, reproduzem a letra V de Vitória, segundo o código Morse (três notas breves e uma longa) e que, por isso, também serviram de aviso aos aliados?
O poeta vê o que nós não vemos, e revela-nos a beleza que existe no mundo que nos cerca, tornando-o melhor e mais habitável. Essa beleza escondida é a poesia revelada. Poesia é a visão bonita que Orestes Barbosa, na canção Chão de estrelas, nos transmite da lua que fura o telhado de zinco do barraco pobre e salpica de estrelas o chão que a morena pisa distraidamente. Poesia é a beleza que Vittorio de Sicca revela na cena final do seu filme Ladrões de bicicleta, ao mostrar o rosto endurecido da criança, subitamente transformada em adulto, a conduzir pela mão o pai desesperado e envergonhado por ter sido flagrado pela multidão quando roubava uma bicicleta para trabalhar. Poesia é o drama, mostrado pela televisão, em novembro de 1985, da menininha colombiana Omaira Sanchez, de apenas 13 anos, vítima da erupção do Nevado del Ruiz, ao morrer de hipotermia, soterrada num buraco cheio de lama e de pedras, acenando com esperança de vida para as câmeras que a focalizavam para o mundo inteiro.
A poesia é necessária, porque nos revela, como as lentes dos óculos de quem tem problemas visuais, um mundo de maravilhas que não saberíamos ver sem ela. Além disso, escrever poemas, vale dizer, tentar revelar a poesia do mundo aos outros, é uma forma também de terapia ocupacional, hoje adotada por psicólogos, por psiquiatras e por todos os que se dedicam aos ortopedismos da mente humana. E, posto que não tivesse função pragmática, a poesia seria necessária, porque não haveria sentido nenhum numa vida que se fechasse ao Belo.
Que me desculpe o pobre poeta articulista Régis Bonvicino, mas a poesia é tão importante e necessária que os homens se matam, a si e aos outros, quando não conseguem vê-la ou descobri-la.
Como eu.


José Augusto Carvalho: Escritor, tradutor, jornalista e professor universitário, José Augusto Carvalho é mineiro de nascimento e capixaba por adoção. Um dos principais lingüistas do Brasil.Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Lingüística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz desde a década de 1970 textos do francês, inglês e italiano. Possui uma extensa obra publicada tendo também realizado traduções para as principais editoras do País.


publicado por Do-verbo às 12:12
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
A SANTÍSSIMA TRINDADE
José Augusto Carvalho
O cristianismo, em seu início, era bem diferente do catolicismo de hoje, em matéria de fé. Não se cogitava, nos primórdios da era cristã, da Santíssima Trindade, “mistério” que só mais de três séculos depois da morte de Cristo passou a fazer parte da religião católica.
Qual é a origem dessa crença?

Flavius Valerius Aurelius Claudius Constantinus, ou simplesmen-te, Constantino, o Grande, (nascido entre 280 e 288 e falecido em 337), às vésperas da batalha da ponte Mílvia, ocorrida em 28-X-312, teria visto no céu, de acordo com seu biógrafo Eusébio Pânfilo, uma cruz com dizeres em grego que a tradição manteve em latim: "In hoc signo vinces", isto é, "com este sinal vencerás". Constantino mandou pôr nos escudos de seus soldados essa frase, antes da batalha da Ponte Mílvia. De fato, Constantino venceu seu inimigo Maxêncio nessa batalha, mas foi só em 324, ao vencer Licínio, que Constantino se tornou senhor absoluto de todo o império romano, depois de ter garantido, pelo Edito de Milão (313), o cristianismo como religião oficial do Império. Vendo que Roma não era mais um bom lugar para sede do império romano, ele construiu no lugar em que se encontrava Bizâncio (hoje Istambul, na Turquia), a nova sede do governo, Constantinopla, a capital do império romano do Oriente, conhecido como "império bizantino". Foi durante o seu reinado que se construíram os primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, a basílica do Vaticano e a igreja dos Santos Apóstolos, em Roma, entre outros.

Em 325, no primeiro Concílio de Niceia, sob o papado de Silvestre I, Constantino condenou as ideias e os seguidores do egípcio Arius, sacerdote de Alexandria, fundador do arianismo, que negava a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho e não reconhecia divindade em Jesus Cristo. Foi durante esse Concílio, em que se estabeleceram os dogmas principais do catolicismo, que houve uma discussão: Jesus seria apenas mais um profeta, como entendiam os Judeus, além de Arius, ou seria um Deus? Fausta, filha de Maximiano, era casada com Constantino desde 307. Ela queria que Jesus fosse considerado Deus, apesar da relutância de Constantino. Mas ela lembrou-lhe o sinal que ele havia recebido e a vitória que ele acreditava ter sido o resultado de uma intervenção sobrenatural. Constantino concordou. Por votação, Cristo foi considerado Deus nesse primeiro Concílio de Niceia.

O Espírito Santo que era sugerido não como Deus, mas como manifestação de Deus para justificar a virgindade de Maria, tornou-se dogma de fé e o terceiro Deus católico, no Concílio de Constantinopla, em 381 (sob o papado de Damaso I). Esse concílio voltou a condenar as ideias de Arius.

Acredito que Jesus Cristo tenha recusado, implicitamente, ser considerado Deus. Em Mt. 24:34-36, lê-se: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai.” A onisciência é um atributo de Deus e, portanto, tem valor absoluto. Ora, a onisciência é o saber absoluto sobre todas as coisas. Se o Filho não sabe algo que apenas o Pai sabe, então o Filho não é onisciente e, portanto, não é Deus.

Pensemos nisso.
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Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta,em 6 de Agosto de 2010.


publicado por Do-verbo às 08:00
POR UM NATAL CRISTÃO
José Augusto Carvalho
No início da década de 60, no século passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou um livreto de título sugestivo: O catolicismo ainda é cristão? Referia-se a uma Igreja latifundiária e rica, cuja ostentação era um acinte à pobreza da grande maioria dos seus fiéis.
Toda religião, em princípio, é santa, porque une os homens à divindade pelo caminho do bem e da paz de consciência. O problema é que todo líder religioso, além de transformar a fé num rol de proibições e toda alegria da vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo e a convencer os outros, por bem ou por mal, de que a sua religião é a melhor de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que “os homens jamais praticam o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”. O pior é que os religiosos, muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral e seus conceitos a quem não reza pela mesma cartilha. O divórcio, por exemplo, levou meio século para instituir-se no Brasil, graças à imposição de pregadores religiosos, que, absurdamente, toleravam o desquite, que era uma situação ainda pior que o divórcio, sob todos os pontos de vista, por permitir a mancebia e impedir novo enlace legal. O mal do século não é o estresse, não é o efeito estufa, não é o degelo polar. O grande mal do século ainda é a intolerância, o desrespeito às idéias alheias, à moral e à fé de quem pensa de maneira diferente.
No dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus, por uma especial concessão ao paganismo. Jesus teria nascido em março do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no ano de 525, para cristianizar as festas pagãs que se realizavam nessa época ao deus solar Mitra que, apesar de persa, era festejado em Roma, nas comemorações do solstício de inverno. Ainda por concessão ao paganismo se cultuam os “reis magos” que não eram reis, mas sacerdotes da religião persa, que tinham o nome de “magos” por serem sábios e considerados possuidores de dons divinos. Também por concessão ao paganismo a sede da Igreja Católica se chama Vaticano, nome do deus romano responsável pela fala dos homens, porque se acreditava que a primeira sílaba de seu nome era a primeira manifestação linguística oral de uma criança. Daí surgiu o verbo “vagir”, do latim “uagire”, que significa “fazer uá”.
Também concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade de imagens, a extensa polimorfia da figura da mãe de Jesus e do próprio Cristo e a gigantesca hagiolatria católica.
Apesar de tudo, ainda se considera que o catolicismo seja cristão...

O Natal deveria ser realmente não uma data, mas uma época de confraternização e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745): “Temos bastante religião para fazer-nos odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”

Por isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá que me dessem um presente útil a todos nós: que as religiões se respeitassem mutuamente, que nenhuma delas se considerasse a única verdadeira ou a melhor de todas e, finalmente, que o espírito do Natal prevalecesse todos os dias do ano, em todas as religiões.
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Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta, em 23 de Dezembro de 2007.


publicado por Do-verbo às 07:50
Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
A ORIGEM DOS NOMES DOS DIAS DA SEMANA
José Augusto Carvalho
Qual é a origem dos nomes dos dias da semana nas línguas ocidentais mais conhecidas?

Foi o meu sábio e grande mestre Isaac Nicolau Salum que, em sua tese de doutoramento A contribuição lingüística do Cristianismo na România antiga (São Paulo: USP, 1954), e na tese seguinte, A semana astrológica e a judeo-cristã: introdução à problemática da nomenclatura semanal românica (São Paulo: USP, 1967), me ensinou como se deram, a partir do número quatro, os nomes dos dias da semana nas línguas conhecidas. Baseio-me parcialmente aqui em seu estudo.
O quatro representava o mundo com suas coisas terrenas. Quatro são as divisões da Terra, quatro são os evangelistas, quatro são os ventos, quatro são as estações do ano, as pontas da cruz, as semanas do mês, as fases da lua, os pontos cardeais, as letras do nome de Deus (o tetragrama IHWH, de Iahweh) e do primeiro homem, na mitologia judaico-cristã (Adão). Quatro simboliza o sólido, o tangível. Quatro são os elementos (fogo, terra, ar e água). Quatro são as proposições aristotélicas (duas negativas, E, O, e duas afirmativas, A,I).
Os discípulos de Pitágoras faziam da tétrade (conjunto de quatro grãos (micrósporos) de pólen que se originam da célula-mãe mediante meiose) a chave de um simbolismo numérico que pôde dar um quadro à ordem do mundo. O quadrado era o símbolo da perfeição, por ser sempre igual de qualquer lado por que é visto. O número quatro é considerado um dos mais cabalísticos. Todo o sistema de pensamento jungiano, por exemplo, se fundamenta na importância fundamental do número quatro, já que a quaternidade representa para ele o fundamento arquetípico da psique humana.
Os planetas conhecidos, por ordem decrescente da distância da Terra, eram os seguintes, na época do império romano: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio. Se terminarmos a contagem pela Lua e pusermos o Sol no centro do sistema, teremos a seguinte ordem astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.
Com relação aos nomes dos dias da semana, o quatro exerce um papel fundamental: se contarmos até quatro, a partir de Saturno, inclusive, chegaremos ao Sol, e teremos o primeiro dia (Sunday); a partir do Sol, inclusive, contamos até quatro e chegamos à Lua (Monday, lunes, lundi, lunedi); a partir da Lua, inclusive, contamos quatro até Marte, portanto: mardi, martes, martedi. E assim por diante. Assim, o domingo é o dia do Sol; segunda-feira, o da Lua; terça-feira, o de Marte; quarta, o de Mercúrio; quinta, o de Júpiter (jeudi, jueves, giovedi); sexta, o de Vênus (vendredi, viernes, venerdi). Sábado é o dia de Saturno (Saturday).
Em inglês, Marte foi substituído por Tyw, o deus maneta da força e da guerra na mitologia nórdica (Tuesday). O dia de Mercúrio em inglês foi consagrado a Odin ou Wedin (na mitologia escandinava) ou Wotan, equivalente a Zeus, entre os germanos (Wednesday). O dia de Júpiter, quinta-feira, foi substituído por Thor, filho de Odin, na mitologia escandinava, ou o deus do trovão (que se traduz por Donner, donde Donnerstag, em alemão, para a quinta-feira). Assim Thursday significa “dia de Thor”, em inglês. A sexta-feira era destinada à deusa Freya, esposa de Odin, deusa da juventude, do amor e da morte, na mitologia nórdica (daí o Freitag alemão ou o Friday inglês). Tag, em alemão, é dia.
O nome sábado vem do hebraico Shabbath, que significa “repouso”. Para os hebreus, sábado é o sétimo dia da semana (que começa, portanto, no domingo). Para os cristãos, o último dia da semana é o domingo (de dies Dominica ou dia do Senhor). Senhor é traduzido por dominus (o senior latino, que deu senhor, significa “o mais velho”, donde “senado”, isto é, conselho de anciãos). De dominus temos dominar, dom, dona, donzela (de dominicella, senhorita, que deu origem ao “demoiselle” francês).
Os nomes em português têm outra origem. Vêm da feira que faziam os agricultores medievais que se reuniam no adro das igrejas a cada domingo (a primeira feira). É da expressão filius ecclesiae (filho da Igreja, da Assembléia) que se originou o nome “freguesia”, inicialmente de cunho apenas religioso (ainda em voga, quando se diz “freguesia de Santa Rita”, “baixar noutra freguesia”, etc.). O dia seguinte ao domingo era o da xepa, o da segunda-feira… E feira ficou sendo o nome dos outros dias.
Essa é a origem dos nomes dos dias da semana.


Cidade de Vitória * Estado de Espírito Santo * Brasil

Migrando para este novo espaço.


publicado por Do-verbo às 07:53
VERDADES SOBRE O NATAL
José Augusto Carvalho
Dionysius Exiguus, isto é, Dionísio, o Pequeno, foi um monge cita ou armênio que nasceu no final do séc. V e morreu por volta de 540 da nossa era. Estudioso da vida de Cristo, Dionísio, o Pequeno, propôs que o ano do nascimento de Jesus fosse o do início da era cristã. Mas verificou-se depois que, por um erro de cálculo, o ano I da nossa era, proposto pelo monge cita, não coincidia com o ano de nascimento de Jesus Cristo. Segundo o capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, Herodes Magno foi o responsável pelo massacre de inocentes e pela fuga da Sagrada Família para o Egito. Ora, Herodes Magno morreu no ano 4 antes de Cristo. Isso significa que Jesus Cristo deve ter nascido no mínimo quatro anos antes de Cristo… por mais absurdo que isso possa parecer.
O dia 25 de dezembro era o de uma festa pagã. Era um dia consagrado ao Sol, porque é nesse dia que começa o retorno do Sol ao seu zênite. Os egípcios celebravam o dia 25 de dezembro como a festa máxima de seu deus Osíris. Os persas festejavam nesse dia, nas comemorações da entrada do solstício de inverno, o nascimento de Mitra, um deus persa popular entre os romanos da época. Aliás, os magos, de que nos fala Mateus no citado capítulo 2 e que foram adorar o menino Jesus, eram na verdade sacerdotes persas e não reis. O sacerdote persa era chamado de “mago”. O deus Mitra, diga-se de passagem, era representado pela figura de um menino.
A Igreja aproveitou essas festas para incluir nelas também a do nascimento do seu Deus feito homem, embora haja evidências de que Jesus Cristo teria nascido no mês de março (signo de peixes). Como os cristãos da época já tivessem aceitado a data, o Papa Silvestre I oficializou-a, na reforma da liturgia católica. O reinado espiritual de Silvestre I ocorreu entre 314 e 335, sob o reinado temporal do Imperador Constantino I, o Grande, que instituiu o cristianismo como religião oficial do Império Romano.
Na Grécia católica, a partir do séc. III, o Natal era celebrado no dia 6 de janeiro. Graças à reforma de Silvestre I, unificou-se a celebração do Natal no dia 25 de dezembro, mas o dia 6 manteve suas festividades, na comemoração da visita dos magos à gruta de Belém. A construção dos presépios, celebrando o mistério da Natividade, foi introduzida nos festejos de Natal por São Francisco de Assis (circa 1182-circa 1226), possivelmente em 1220, quando voltou à Itália depois de sua estada no Marrocos (1213) e no Egito (1219).
Com relação a Papai Noel, sua vulgarização no Brasil é posterior a 1930. Sua origem está na lenda que cerca a vida de S. Nicolau, bispo de Mira, que viveu no séc. IV, patrono da Rússia e dos escolares. S. Nicolau teria fornecido bolsas de ouro a três moças pobres e ressuscitado três crianças. Os alemães é que teriam sido os grandes divulgadores tanto do Papai Noel quanto da árvore-de-natal (Tannenbaum). A figura do velhinho com roupa e capuz vermelhos e bota negra surgiu de uma descrição de um poema de 1822 do professor Clement Clarcke Moore institulado “The night before Christmas”. Com base na descrição desse poema, Thomas Nast (1840-1902), fez um desenho, mas em preto e branco, que publicou na revista Harper’s Weekly, de Nova Iorque, em 1863. A cor vermelha tornou-se oficial em 1931, quando Haddon Sundblom criou uma campanha publicitária para a Coca-Cola. A figura anterior do Papai Noel representava-se com um hábito talar, uma carapuça cônica e uma barba em ponta.
A tradição de se iluminar a árvore-de-natal se deve a Martim Lutero (1483-1546), por volta de 1525, após o seu casamento. A árvore-de-natal só chegou ao Brasil no início do séc. XX, por volta de 1909.
O relacionamento estreito entre a religião católica e o paganismo está presente até mesmo no nome da sede da Igreja Católica: Vaticano era o deus dos romanos que fazia profecias (o nome “Vaticano” se relaciona semanticamente com “vate” e “vaticínio”) e presidia os primeiros gritos dos meninos. Era representado sob a forma de uma criança gritando. O verbo latino uagio (cujo infinitivo é uagire ou vagire) é uma formação expressiva (“fazer uá”) para designar o grito das criancinhas, por isso, não raro, o nome Vaticano era confundido com “Vagicano”.
De qualquer forma, ainda que fruto de equívocos, o Natal não é uma data apenas restrita ao dia 25 de dezembro, mas uma época, um período de tempo que vai de meados de novembro até o dia 6 de janeiro, uma época em que as pessoas põem em prática seu espírito cristão de fraternidade e de paz e se iluminam na fé que as ajuda a viver e lhes dá alimento à alma…



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publicado por Do-verbo às 07:49
POR QUE DAR BAIXA E DAR ALTA?
José Augusto Carvalho
Por que se diz dar baixa, quando se sai do Exército, e ter alta, quando se sai do hospital?
Baixa e baixar sempre foram expressões designativas de exteriorização, de expedição, de movimento para fora ou para baixo, de diminuição. Por isso, baixar um decreto é expedi-lo; baixar os autos ao tribunal é retirá-los de onde estavam e devolvê-los ao juízo inferior, de origem. Dar baixa, portanto, é sair, como na expressão militar. Mas por que dar baixa em hospital tem o sentido oposto, de entrar?
Em alta, há a convergência de dois nomes de origem distinta: um é a forma latina alta-, do adjetivo de primeira classe altus, -a, -um; o outro é a interjeição alemã Halt!, do verbo halten, que significa parar.
A rigor, os dicionários deveriam dar três entradas para alto e duas para alta: há o alto!, comando militar que significa pare!, oriundo do alemão Halt!; há o alto, adjetivo, como em homem alto, de origem latina, e há alto, adjetivo ou substantivo, oriundo do italiano, de uso na música, para designar o som agudo da voz masculina ou o som grave da voz feminina. Alta, feminino substantivado de alto, seria a primeira entrada no dicionário, designando dança, parte do palco, no teatro, ou a alta sociedade; a segunda entrada deveria consignar todos os sentidos de origem militar do substantivo alta: ordem ou nota para sair do hospital; ato de voltar ao serviço militar depois de um período de licença ou de doença; parada de uma força que estava em marcha. Nesse sentido, o Grande e novíssimo dicionário de língua portuguesa, de Laudelino Freire, está corretíssimo. O Aurélio e o dicionário dos seus herdeiros, no entanto, registram duas vezes o verbete alta, ambas como adjetivo substantivado. Trata-se, portanto, da mesma palavra, o que não justifica as duas entradas no dicionário. Em contrapartida, o Aurélio e o dicionário dos seus herdeiros registram adequadamente alto em três verbetes, segundo as origens latina, italiana e alemã. O dicionário de Caldas Aulete registra alta em dois verbetes, mas inclui no primeiro significados de origem militar que são do segundo, e erra no étimo alemão, grafado alte (que significa “velha”) e não Halt (que significa “pare”). No verbete Alto! (o terceiro, sem numeração), o étimo alemão está corretamente grafado.
Assim, ter alta num hospital tem origem militar. Vem do alemão halten, que significa parar. O médico declara a cessação da doença. Portanto, permite que o paciente saia. Já dar baixa tem o sentido vernáculo, normal, de exteriorização.
A expressão dar baixa no hospital, com o sentido de entrar, opondo-se a dar baixa no Exército, com o sentido de sair, formou-se posteriormente na língua por analogia com alta (de halten), na ignorância do significado original, por confusão com a forma vernácula, de origem latina.
Em resumo: baixa, de origem latina, formou a expressão dar baixa, com o sentido de sair; baixa, de formação vernácula posterior, a partir da forma alta, de origem alemã, formou equivocadamente a expressão dar baixa, com o sentido de entrar (não registrado no Aurélio nem no dicionário dos seus herdeiros, mas presente nos dicionários de Laudelino Freire e Caldas Aulete.
São caprichos do falante, que acabam por refletir-se na língua, fazendo dela um samba do crioulo doido.
A moral dessa história toda é que nossos dicionários de língua estão a quilômetros de distância do rigor científico de um Littré, por exemplo. Falta-lhes a data de inclusão do item lexical na língua; falta-lhes a data da primeira atestação, pelo menos; falta-lhes, em síntese, uma orientação eficaz, adequada e científica para o consulente, no mínimo para que ele possa entender os pretensos paradoxos ou as pretensas incoerências da sua língua.
Assim, por exemplo, os dicionários deveriam ter outra entrada para baixa, além da que já neles existe, dando conta do neologismo baixa, formado a partir da palavra alta, de origem alemã, e em oposição a ela.
O melhor dicionário brasileiro feito criteriosamente, dentro dos princípios científicos da lexicografia, com data de inserção no léxico e atestação documentada é o Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, de Antônio Geraldo da Cunha (São Paulo: Melhoramentos, 1978). Infelizmente, seu universo, como o próprio título indica, é restrito.
Pena que A. G. Cunha tenha falecido, em 1999, antes de ter feito um dicionário da língua portuguesa. Seria, sem dúvida, o melhor de todos.


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publicado por Do-verbo às 07:43
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