Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

peonza.jpg

 

Que o tempo de hoje se situe e seja o desafio!

Que a folha desprendida ensaie o rodopio!

 

Que as dores das origens

se evadam nas manhãs

e sangrem as vertigens

nos outonais delíquios das romãs!

 

Que após o longo tempo em gestação,

das húmidas entranhas brotem lanças!

Lanças subindo,  raio acima, a tentação

da luz  que vem do céu no olhar duma criança.

 

Que venha, num sinal tão manso de evangelho,

anunciar o pão,

o pão da fome, o pão do menino e do velho

que, ali no largo, jogam ao pião!

 

 

José-Augusto de Carvalho

13 de Novembro de 2014.

Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 11:01
Sexta-feira, 07 de Novembro de 2014

Portugal_Democrático.jpeg

 

Mais um Inverno frio nos deixava…

Mais uma Primavera prometia…

E sempre uma esperança pontilhava

de estrelas este céu que se fechava

ao rútilo esplendor dum claro dia!

 

E sempre esta esperança que morria

em cada frustração que nos matava!

E sempre o desespero arremetia

na força renovada que nos dava

a Fénix que das cinzas renascia!

 

Ai, tanto se morria e renascia!

E sempre esta esperança acalentava.

Que fértil terra de húmus e porfia

a força dava à força que faltava

nas horas em que a vida mais doía?

 

De sangue e desespero se amassava

o pão que noite adentro se comia!

De sol a sol, o corpo tudo dava

a troco duma jorna que minguava

enquanto o desespero mais crescia.

 

Ah, mas, na sombra, a noite murmurava

enleios, numa terna melodia!

E antes de adormecer, já madrugava

nos versos da canção que prometia

livre e fraterna a terra que chegava!

 

Chegava a Liberdade que cantava

lusíada, em feliz polifonia,

o fim do pesadelo que matava

no dia todo em luz que despertava

a vida que chorava de alegria!

 

O pátrio povo em armas devolvia

o berço que das trevas libertava

ao povo que sem armas acudia.

E um povo todo irmão se estremecia

no imenso e terno abraço que se dava.

 

Navegar é preciso, prometia,

agora que o viver se precisava!

Nos braços embalada, a pátria ouvia!

E quanto mais ouvia mais se dava

ao sonho que se ousava e florescia.

 

 

José-Augusto de Carvalho

27 de Outubro de 2014.

Viana*Évora*Portugal



publicado por Do-verbo às 22:27
Domingo, 12 de Outubro de 2014

Ontem, 11 de Outubro de 2014, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Aguiar, município de Viana do Alentejo, ocorreu o lançamento do livro «Pátria Transtagana», do qual sou autor, com prefácio do Coronel João Andrade da Silva e posfácio da Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia pela Universidade de Évora.


                      
 
 
Na mesa, da nossa esquerda para a direita: Rosa Barros, minha amiga e Professora de Filosofia do Ensino Secundário; Professora Doutora Maria do Céu Pires; Presidente da Junta de Freguesia de Aguiar; Coronel Andrade da Silva; e eu, José-Augusto de Carvalho.
 
 


Seguidamente, divulgo o texto da minha intervenção:



Boa tarde, Vila de Aguiar!

Boa tarde a todas as pessoas que puderam e quiseram vir assistir ao lançamento do livro «Pátria Transtagana»!

1.

Talvez eu esteja violando normas ao ser o primeiro a usar da palavra.

Evidentemente que muitas normas terão, como todos os ovos, o destino último de ser quebrados. Será este o caso? Quisera que sim.

Não é por inconsideração que me imponho na abertura desta sessão de lançamento do livro «Pátria Transtagana», mas sim porque é indispensável situar-me e situar este encontro.

Aguiar não é apenas uma das muitas localidades da Pátria Transtagana. É uma povoação que conheço desde menino. Aqui vinha com meu pai, num carro de varais, puxado por um possante muar. Mas esta razão que aduzo não poderia ser determinante para a minha preferência.

Determinante foi o convite que recebi, há meses, do Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar para vir ler, neste mesmo salão, alguns textos dos muitos que ando escrevendo desde quase o amanhecer da minha existência de escriba impenitente, já lá vão quase setenta anos.

Portanto, Aguiar soube de mim como autor e honrou-me com um convite. Convite que aceitei agradecido.

Ora porque «Pátria Transtagana» reclamava o seu lançamento no Alentejo, como poderia eu, agora, ignorá-la ou preteri-la?

Como poderia eu não vir felicitá-la nesta data e associar à sua festa o lançamento deste meu livro?

Festa em que a vila de Aguiar comemora mais um aniversário da sua condição de Freguesia de Abril.

Eu sei que, por solicitações familiares e afectivas, outras povoações do nosso pátrio Alentejo poderiam reclamar-me o lançamento deste livro: Viana, onde eu nasci e onde nasceram muitos dos meus antepassados de apelido Carvalho; Serpa, onde nasceu minha mãe; Alcácer do Sal, onde nasceu minha avó materna Rosa de Jesus; Alvito, onde nasceram meus bisavós José António e Catarina das Dores; de novo Alvito, onde nasceu também minha bisavó Margarida.

Com excepção de meu avô materno, que desceu da transmontana Chaves buscando a sua moira encantada de sempre, a minha avó Rosa, toda a minha memória é transtagana.

2.

Quanto a mim, que poderei eu dizer?

Não tenho títulos nem cargos públicos ou privados e nem honrarias a recomendar-me.

A recomendar-me tenho apenas a minha condição de alentejano.

Também terei a recomendar-me um trajecto cívico de amor e respeito, de exaltação e defesa da Pátria Transtagana e das suas gentes, das minhas gentes.

Como vêem, nada de relevante há a dizer de mim, porque amar a nossa terra e a nossa gente é um apelo do mais recôndito de nós e não um dever ou uma qualidade racionalmente considerada.

3.

E no nosso caso de alentejanos, mais se imporá a nossa terra e a nossa gente, porque desde os recuados tempos do alvor da nacionalidade portuguesa que é a nossa, a Terra Transtagana e as suas gentes foram maltratadas, menorizadas, desprezadas, mortas ou expulsas.

Aquando da Reconquista, apeado o poder muçulmano, ninguém aqui mereceu a confiança dos reconquistadores. Ninguém!

Nada tenho contra outras gentes que queiram viver connosco nesta nossa terra e decidam ou não integrar-se no todo das nossas gentes; mas tenho tudo quando nos recusam o legítimo direito de mandarmos na nossa casa.

Urge a regionalização, única possibilidade de legitimamente, e sempre no quadro constitucional da Pátria Portuguesa, aspirarmos ao direito de escolher a nossa vida e o nosso destino.

Verdade é também que as gentes transtaganas não estão isentas de responsabilidade:

-- no passado, quando, algumas vezes tiveram voz e poder para tentarem impor-se, cederam a valores e interesses que lesaram os seus;

-- e no presente, quando, tendo voz e poder relativo para se impor, escolheram a resignação ou mal escolheram quem os represente na superior condução do seu destino colectivo.

Longe estive do nosso Alentejo; agora no nosso Alentejo estou, definitivamente, assim espero. Nunca procurei os favores dos poderes públicos e privados. Nunca os procurei e nunca os tive. E nunca os terei. E não é por teimosia, mas por opção.

E quanto a direitos, apenas tenho os direitos que a Lei Constitucional me confere.

4.

Sabem muito bem os mais velhos, como eu, o que foi viver, malviver, digo eu, sob o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano.

Sabem os mais velhos, como eu, o que foi descobrir a Liberdade quando o Movimento dos Capitães nos devolveu a dignidade e a esperança numa Madrugada de Abril aureolada de cravos e de aromas de fraternidade e de paz.

Sabem os mais velhos, como eu, as dificuldades que logo surgiram, criadas pela resistência tenaz dos poderosos a quem não servia nem serve um povo adulto e livre.

Sabemos que esta terra e suas gentes lutaram desde a consolidação da independência de Portugal.

Estivemos sempre do lado certo da História e pagámos sempre o preço que nos foi exigido em bens, em sacrifícios, em sangue derramado.

No presente, resiste connosco a memória viva da Revolução dos Cravos e a vontade de transformarmos em realidade a sua promessa de finalmente haver e perdurar Abril em Portugal.

Aqui está, entre nós, um Capitão de Abril, um dos homens do Movimento das Forças Armadas que devolveu a todos nós a dignidade de mulheres e homens livres.

Um Capitão de Abril que conheceu palmo a palmo as terras transtaganas e as suas gentes.

Um capitão de Abril que nos ama e tudo arriscou por nós.

Um Capitão de Abril que está, também, nas páginas do livro que lançamos hoje.

Devemos-lhe tamanha distinção.

Bem-haja, Coronel Andrade da Silva!

E este bem-haja é extensivo aos seus camaradas de armas que nos ajudaram a entrever a esperança.

Com um segundo bem-haja relevo a Professora Maria do Céu Pires, Doutora em Filosofia, e gente da nossa gente, por ter aceitado ligar o seu nome e o seu amor ao Alentejo a este livro em lançamento.

E o meu terceiro bem-haja releva a querida Amiga Rosa Barros, professora de Filosofia do Ensino Secundário, uma filha dilecta dos Açores e já também alentejana do coração. Querida Amiga que empenhadamente me tem acompanhado neste meu percurso acidentado desde o meu regresso definitivo ao Alentejo.

5.

Na hora da gratidão, saúdo o Executivo da Junta de Freguesia de Aguiar pelo acolhimento e ao qual reitero a minha disponibilidade para colaborar em sessões culturais e cívicas, sempre que considerar oportuno e desde que para tanto eu esteja em condições de corresponder.

Nesta mesma hora da gratidão, saúdo também a gente da minha gente que está aqui e os familiares e Amigos naturais de outras regiões da Pátria Portuguesa que quiseram e puderam associar-se a este lançamento.

Finalmente, uma palavra de profundo pesar e de imperecível saudade para aqueles que partiram desta vida e exclusivamente por esse motivo não estão aqui também amparando o objectivo único deste livro: dignificar o Alentejo e por ele toda a Pátria Portuguesa.

Até sempre!



publicado por Do-verbo às 16:06
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

 

 

 



publicado por Do-verbo às 11:43

 

 

Salão da Junta de Freguesia de Aguiar

11 de Outubro de 2014, 15.30 horas


publicado por Do-verbo às 11:29
Quinta-feira, 04 de Setembro de 2014

 

Nesta transitoriedade em que vou, chegou o tempo de ponderar este espaço de «tempos do verbo».

Esta ponderação incidirá exclusivamente sobre os textos que subscrevo. Os demais são e sempre serão da responsabilidade dos seus autores.

Via de regra, escrevemos textos avulsos e textos que anunciarão (?)  colectânea(s) a publicar.

Exactamente por quanto antecede, serão excluídos deste espaço os textos já publicados em livro e as colectâneas em preparação arrumadas no espaço «Meus Tempos do Verbo».

Sem contradição, haverá uns poucos textos que permanecerão até ulterior ponderação.

Esta minha decisão não é determinada por interesses materiais, ainda que, em verdade, deva respeitar os interesses legítimos do editor. É determinada pela convicção de os textos editados em livro já terem cumprido o seu objectivo, devendo este espaço ficar reservado para os que pacientemente o almejam.

Além do mais, sustento que os meus textos são uma caminhada; logo os editados em livro já concluíram a jornada. Afinal, e parafraseando alguém, escrever será um constante glosar dos mesmos temas.

Espero a benevolência de quem me lê para esta minha decisão, decisão que considero acertada neste momento.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

 4 de Setembro de 2014.



publicado por Do-verbo às 12:09
Domingo, 24 de Agosto de 2014

TRISTEZA DE SER VELHO

(08-12-2012-Pensar)

 

José Augusto Carvalho

 

 

         Acho que foi em Terra dos Homens que Saint-Exupéry escreveu uma bela página a respeito da idade do homem. A idade representa segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas de permanente exercício de aprendizagem de vivências únicas, de alegria, de tristeza, de dor, de encantamento. A idade do homem (homem, aqui, no sentido de ser humano, que inclui também a mulher) é um mistifório de emoções, de pensamentos e de experiências acumulados ao longo dos anos.

         Mas chega um momento em que a idade pesa mais do que podem suportar os ombros ou uma cabeça de mente lúcida e aberta, a contradizer a frase de um pensador da Antiguidade, talvez Hipócrates, para quem a juventude é, não uma fase da existência, mas um estado de espírito, na ideia poética, talvez falsa, de que o que faz a juventude é o ideal.

         Na verdade, ainda que tenha ideais ou a ânsia de viver e de ser útil, o homem (homem aqui novamente em sentido genérico) enfrenta com a idade problemas que não se resolvem nem com vontade nem com bom senso: a carne é fraca, ainda que seja forte o espírito. E por fraqueza da carne entenda-se aquilo que o “acidente de Senectus” produz , no dizer de Augusto dos Anjos: “a miséria anatômica da ruga”. E não me refiro à ruga como a carquilha que estria o corpo e tortura a mente, mas como um símbolo de destruição e de aniquilamento, como uma sanguessuga que leva à degeneração dos tecidos, ao enfraquecimento dos órgãos, ao surgimento de dores, de artrites, de problemas geriátricos inevitáveis.

         Disse eu uma vez, comentando as queixas de Manoel Lobato a respeito da própria velhice, que o triste não é envelhecer, mas não saber envelhecer. Perdoe-me o leitor a palinódia: o triste é envelhecer mesmo. “Melhor idade” para designar a velhice é bobagem ou conversa para boi dormir. A melhor idade é a da juventude, entre os 15 e os 30 anos. E “terceira idade” é outra bobagem ou um contrassenso, porque acredito que só haja duas idades: a do jovem e a do velho. Rendo-me não aos argumentos de Manoel Lobato, porque ele não me contestou, mas aos argumentos da própria vida.

         O poeta maranhense Alfredo de Assis, num soneto chamado “Pranto e riso”, diz com acerto, embora com crueldade: “No pranto da criança não diviso / mágoa nenhuma: é todo luz e encanto. / Tem, nuns restos de sol e paraíso, / toda a ternura matinal de um canto. // Mas de um velho, num rápido sorriso, / mágoas profundas eu percebo entanto./ No pranto da criança há quase riso. / No sorriso do velho há quase pranto.// Um velho ri: é um pôr do sol que chora. / Chora a criança: é como se uma aurora / num chuveiro de pétala se abrisse.// E tem muito mais luz, mais esperança, / a lágrima, nos olhos da criança, / que um sorriso, nos lábios da velhice.”

         Fiquemos com a ironia lúcida de um aparente nonsense de Bernard Shaw: a juventude é uma coisa bonita demais para ser desperdiçada com os jovens.

         A velhice é triste. A velhice é muito triste. A velhice é tristíssima.

 

__

 

(Publicado inicialmente em 10-07-2002)

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:51

A VELHICE E A VIDA

(Pensar, 7-02-14)

 

 

 

José Augusto Carvalho

 

 

Eu gostaria de ter a minha idade, mas sou mais velho do que eu mesmo. Preocupa-me o avanço da velhice , e vivo como se tivesse alguns anos mais... Ninguém me avisou de que a velhice  dói.  Não me preparei para ela...

Acho que vem do francês as duas condicionais sem a desnecessária  conclusão:  “Se juventude soubesse... se velhice soubesse...”  Muitos velhos talvez quisessem voltar a ser jovens, pela nostalgia que sentem do vigor perdido. Mas talvez isso signifique abrir mão da experiência e do conhecimento acumulados. Querer voltar à juventude é  desejar cair nas mesmas armadilhas e trapaças da vida que calejam a alma e enriquecem a mente. Eu nunca desejaria passar por isso tudo de novo.

Uma frase atribuída a Hipócrates sugere que  a velhice é um estado de espírito, e que é o ideal que faz a pessoa sentir-se jovem. Há mentiras maiores do que essa. Não é o ideal que impede o avanço da fraqueza física nem os carunchos nos ossos.

Perdemos muito tempo dormindo. Se as pessoas dormem oito horas por noite, então dormem a terça parte de um dia, a terça parte de um ano, a terça parte da vida. Um homem de 75 anos passou no mínimo 25 anos dormindo. Um desperdício de tempo, que poderia ser aproveitado pelo menos durante a juventude para que pudéssemos curtir melhor a vida. Mas a natureza madrasta exige que a recuperação física pelo sono nos tome tanto tempo útil da vida...

No conto “O imortal”, do primeiro volume de Escritos avulsos, Machado de Assis, conta a história de Rui de Leão, um franciscano que recebeu do  seu sogro, o cacique Pirajuá , um elixir milagroso que lhe garantiria a imortalidade. Durante mais de duzentos  anos, nosso homem viveu sempre jovem, viajou por vários países, aprendeu inglês, latim, hebraico, francês, italiano, alemão, húngaro, conheceu muitas esposas, viu-as morrer a todas e aos filhos, netos, bisnetos, trinetos , tetranetos , pentanetos... Quando se cansou de viver, bebeu o resto do elixir que o cacique lhe dera  e morreu.  Não desejo a imortalidade, mas invejo o personagem machadiano por ter vivido sempre jovem e ter escolhido o momento de morrer.

Não sei se teria sentido a vida desse personagem. Mas isso não importa.  Talvez o sentido da vida consista em se procurar um sentido para ela. Vale dizer:  a vida não tem sentido nenhum.

De qualquer forma, esse personagem teria tido tempo de sobra para refletir sobre a vida e sobre si mesmo. Talvez ele tenha sentido na própria carne que a morte dói, quando foi condenado à guilhotina, durante a Revolução Francesa, mas a pena foi comutada porque a lâmina afiada lhe atravessava o pescoço sem conseguir matá-lo.

Não precisei ser guilhotinado para entender que a morte dói. Mas a velhice dói muito mais.

 

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:45

O LEITO SECO DE UM RIO

(08-01-14)

 

José Augusto Carvalho

 

 

Num de seus poemas – cito de memória – diz Hilário Soneghet, um dos maiores poetas capixabas que ombreia com Narciso Araújo ou Benjamin Silva em talento poético: “O velho é um traste que se põe de lado.”

Pôr de lado um traste é, de alguma forma, reparar nele. Mas o velho, às vezes, é um ser quase invisível que poucos notam e que muitos desprezam. Por exemplo: num ônibus cheio, os mais jovens, devidamente sentados, fingem dormir para não se sentirem na obrigação de ceder lugar a um idoso. Há sempre uma expectativa que as situações ensejam. Fingir dormir é uma forma de frustrar a expectativa de um comportamento socialmente desejável.

O desprezo pelo idoso é oficial: o salário do aposentado vai minguando a cada dia, embora as obrigações fiscais continuem as mesmas ou aumentem. E o pior é que é na aposentadoria que o idoso mais precisa de dinheiro para fazer face pelo menos aos problemas de saúde típicos da idade.  O governo petista, que protege bandidos como Cesare Battisti e defende os mensaleiros que minaram a reputação do Partido,  atacou os mais fracos, impondo a taxação dos aposentados, pretensamente para diminuir o déficit da Previdência. Mas esse déficit poderia acabar, sem  desrespeito ao direito adquirido dos velhinhos aposentados, evitando-se ou punindo-se a corrupção em casos flagrantes, como o denunciado pela Folha de São Paulo, edição de domingo, 20-10-2013:  “SUS paga 201 vezes, num único dia, o atendimento a um único cliente em uma clínica de Água Branca, no Piauí.”  Nossos congressistas são os mais caros do mundo. Por que não diminuir pelo menos os privilégios e as mordomias dos nossos parlamentares que podem aposentar-se com um único mandato de 4 anos, com direito a um plano de saúde integral o resto da vida? Sobraria dinheiro para os cofres da Previdência, e até se poderia suprimir a taxação dos aposentados, já que o julgamento do mensalão provou que muitas medidas do governo foram aprovadas graças à falta de caráter e de honestidade de parlamentares venais.

No dizer ainda de Hilário Soneghet, em outro poema que também cito de memória: “Ser velho é ter conselhos para dar. / É ter enfim o dom iluminado / de ensinar as vitórias do futuro / com as derrotas sofridas no passado.”

O problema é que, ainda que o velho tenha conselhos para dar, isso não significa que ele tenha a oportunidade de ser ouvido, nem que haja interesse nos mais jovens em aprender vitórias com as derrotas dele.

Dizia Rabindranath Tagore, poeta indiano, prêmio Nobel de literatura, em seu livro Pássaros Perdidos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, p. 18), em tradução de Abgar Renault:“Ninguém dá graças ao leito seco do rio pelo seu passado.”

O velho é um leito seco de um rio.

 

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:34
Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

AMOR MEDIEVAL

 

 

       José Augusto Carvalho

 

                                                                      

 

A cada quem seu destino...

 

            De mulher é pouco o falar muito, que todas são uma só, de diferentes rostros, mas a pran de igual felonia. E conto-vos per que faredes de mi gran juízo desto meu guisar de quedar-me solitário e pera mostrar que sandice maior non há que a de fazer-se creúdo da dereiteza de tôdalas mulheres.

             E foi do modo seguinte.

             Muito afazida com as coisas da casa e do lar diziam ser Dona Urraca, dama bem talhada, de muita fremosura e recato. Acaeceu, enton, que o marido, muito mal andante, enfermou de danoso mal que o achantou de vez em caixão de amesurado porte. Aguardei-me de declarar, sem aguça nem adiano, o meu amor de apaixonado sentir, per que non achava de aguisado proceder dizer-lhe que estava cobiçoso de ela, em per diante de tan recente enviudamento. Ao velório fui, muito acordado de morte tan desejada, mas enfingindo sofrença, e louvaminhando de passo calado a albergada dolorência que em mau ponto lhe tirara a ela o grado de viver.

            Non queria eu agravecê-la com o apoer mal prez ou contar que o marido era doneador, mui galanteador de outras damas, aquestas pouco adestradas, per serem desvergonhadas e se darem a tôdolos que lhes pagassem. A viúva semelhava muita desaventurança e careza de saúde, tantas eram as lágrimas doridas que trilhavam seu rostro de alvaiade. Muito desensinado seria de minha parte propor entendença nova de amores con viúva recém, que orava em perante o corpo do marido. Per esso de muito ser cavalheiro foi que só lhe disse, mentireiro, per delicado devotamento:

            — Senhora Dona, non sabedes vós desse marido con que vós agora non sodes mais, porende vos digo que duvidança non há que outro mais honesto en este mundo non acharedes, nem tam virtuoso de tôdalas virtudes de cavalheiro.

               E afirmei-lhe que tôdolos cabelos canos de minha cabeça eu cortaria per câmbio de vê-la viçosa a ela, sem mais doloroso pranto.

               E fui-me.

             Alguns meses quedei-me à sua porta per vê-la de negro vestida entrar da missa, muito desejoso de um olhar seu dela. Mas um dia albergou meu coração façanhuda coragem de achegar-me a ela e falar-lhe de meu sentir.

            — De mi non duvidedes, Senhora Dona, que muito vos amo de amor mais ancho que o mundo; que de tôdalas damas que conhoço, outra non há como vós, de aguisada dereiteza de dona bautizada e cristã. E acharedes en mi, pera correger vossa solitude e pobreza, em juntando casamento comigo, que sou um cavalheiro que non sabedes cujo é o passado, mas que acredita que tenhades en el um futuro aventurado.

              Desbulhei assi minha lazeira de amor, na querência de resposta esperançosa. E acalei-me, à espera do seu guisar, que non tardou, e que me fez trilhar de novo, mal treito, o chão da realidade treda: ela non havia queixume de mi, que me sabia homem de bom proceder, mas apenas aos domingos ela podia acordar-me dereitos de marido, per que em tôdolos outros dias da semana já outros cavalheiros a ocupavam com esses mesteres de cama, e que nem uma solitude sentia nem ouro lhe falecia, em desde que enterrara o esposo.

              Arar com lobos não é aguisado de uma dama que eu pensei de boa formação cristã e virtude numerosa. Muito sanhudo teria eu me quedado, mas faça quis cada quem seu mester pera o qual é nascido. E todo o meu amor per ela se foi, na tristura desso que escuitei de seus próprios lábios. E assi me quedo eu hoje, solitário e triste, per que outra dama nunca mais olhei, descreúdo de tôdalas outras. E nunca mais tornei a vê-la de novo, pera non acender a paixão que ainda teima em quedar-se nos perdudos da minha saudade.

 

 

 

 

 

 

 

 Cidade de Vitória, Estado de Espírito Santo - Brasil



publicado por Do-verbo às 16:55
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