Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
 

2005: PAZ NA INTERNET

Compreender, eis a questão!
Lizete Abrahão

    Não importam os meios, os recursos ou os fins; nem mesmo o objetivo mais importante tem algum valor quando o ser humano, nas suas buscas, seja pelo que for e como for, perde o controle sobre seus atos ou palavras.
Já vi e li, aqui na Internet (e em muitos outros lugares, por óbvio), pessoas falando e escrevendo sobre bondade, amizade, paz, amor e outros sentimentos puros, não raro, invocando o nome de deus e outras entidades místicas e, logo adiante, dizendo e escrevendo coisas chulas, numa verborragia virulenta, contagiando uns e outros que, por desaviso, pusilanimidade ou maldade, tomam o mesmo caminho, disseminando, em sua trajetória, a discórdia e o mal-estar. E o mal de todos os males é o fazerem, em nome de uma pretensa defesa de direitos de bens usurpados, tanto materiais quanto intelectuais, quando na verdade, no meu humilde entender, há apenas o aviltamento de valores maiores, a banalização de atos que deixam de ser nobres quando são cometidos.
O grande mal que grassa entre os humanos, na Internet e fora dela, gerando violência, geralmente gratuita, é a incompreensão. Porque será que é tão difícil compreender o outro? Sei que as intenções é que fazem a diferença, e dizem: "Respeitem as diferenças". Mas como é que alguém vai respeitar o que nem se deu ao trabalho de procurar saber? Quem vai respeitar ou mesmo aceitar aquilo que não conhece? E, então, eu pergunto: "Há, por acaso, interesse em as pessoas se conhecerem de fato?". Receio que eu não gostaria da resposta que até se prenuncia...
Se tantos dizem que buscam a Internet, para aprender, adquirir conhecimento, relacionar-se com outras pessoas, etc., por que há essa visão tão curta, entretanto, levando a discussões inócuas tão longas? Sinceramente, custa-me entender certos comportamentos. Aliás, está aí uma coisa que terei de aprender a compreender; nunca a aceitar, porque não aceito violência de espécie alguma.
Hoje em dia, jogam palavras, como punhais; ferem-se uns aos outros. Quando vejo, então, pretensos poetas, usando a palavra, em brigas quase insanas pelo que eles chamam "direitos autorais", chego à conclusão de que a poesia ainda está muito longe daquilo que ela verdadeiramente vale. De que adianta dizer-se poeta se a vaidade permite apenas que se alimentem os egos, que sirva de pasto para egoísmos, ciúme doentio, desavenças, desolando de tal forma o interior humano que nada mais resta, além de fugas alienantes. Onde a sensibilidade? A afetividade? O descobrimento de si e do outro? A conscientização?
Poeta resgata valores, através da poesia, e não a usa para jactar-se. Poeta leva, por ela, os mais nobres sentimentos e não a degradação das relações entre as pessoas. Ser poeta não é tarefa fácil, não é apenas sair fazendo versos; não é importar-se com o peso de outras personalidades e fazer comparações....É ser responsável por si e pelo mundo inteiro; é anunciar-se, a esse mesmo mundo, como mensageiro do BELO, através da linguagem afetiva, por mais feio que esse mundo possa parecer aos outros; é ter o direito de sofrer mais pela ausência de valores humanos do que por não o terem compreendido como poeta. Ser poeta é não fazer uso da palavra para destilar fel, purgar ódio e sentimentos nefastos a ela e aos outros que são "respingados" pelo seu amargor. Poeta destila, sim, mas não seu próprio fel, e, sim o do mundo, ele é o filtro do feio e do ruim e, guiado pelo sentido do BELO, asperge e estabelece, nesse mesmo mundo, a POESIA. Poeta é instrumento e não fim da poesia.
Compreender, sobretudo, que somos diferentes uns dos outros e, antes de tudo, compreender essas diferenças para, se não puder aceitá-las, pelo menos, respeitá-las. Para isso, basta ter a consciência de que há diferenças; saber que elas existem já é um grande avanço, um sinal de inteligência aguçada, mas não querer descobri-las, permanecer no próprio e obscuro "eu" , preferindo rechaçar e agredir o outro, é atitude de quem não tem capacidade nem mesmo de se descobrir...
Dizem-nos seres racionais, mas, anterior à racionalidade, somos seres lingüísticos. É esse fato que, estruturalmente, nos difere dos demais seres vivos, entretanto, o que nos classifica como humanos é a capacidade de sentir e transmitir emoções. Pois o bom ou mau uso de nossa competência lingüística e da falta ou degeneração das emoções dependem, somente então, do uso da razão, o verdadeiro comandante das ações conscientes.
Não há porque deixar de ter e expressar sentimentos fortes, de transbordar emoções, mas há que se fazer uso do consciente, para controlar exageros. Toda exacerbação, para mais ou para menos, coloca o ser humano em xeque. Creio, mesmo, que é a falta de visão poética da vida que conduz à essa petrificação de sentimentos.
Se a poesia não fosse tão aviltada e se os ditos Poetas, usando adequadamente sua competência lingüística, a parissem, não para diminuírem as diferenças, mas para fazerem os homem pensar, aproximar-se, provocando neles belas emoções, estou certa de que haveria bem menos violência, neste nosso mundinho.

Hoje, eu bem poderia ter escrito um poema...

Sê feliz!

Lizete Abrahão


publicado por Do-verbo às 14:17
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