Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

 

 

1.

No princípio, o verbo quis,

em conjugações obscuras,

ser grão e depois raiz

do chão projectando alturas...

 

Desnudo, no paraíso,

o par de divina essência

cantava, no tom preciso,

o elogio da indolência.

 

Do seu cume imperativo

e projectando o perfil

pelas lonjuras de anil,

deus olhava o par cativo.

 

E, certo da tentação,

provocou a transgressão.

 

2.

Expulso do paraíso

no primeiro alvorecer,

era ainda um improviso

a vida que houve de ser.

 

Adão pesou, pensativo,

o gesto da divindade

e a condição de ex-cativo,

encontrada a liberdade.

 

E naquela antemanhã,

que mal podemos supor,

percebeu por que a maçã

tinha um estranho sabor:

 

o sabor da inteligência

acordando a consciência.

 

3.

Pródiga era a natureza!

Tudo dava, hospitaleira...

Viver era uma beleza,

sem transtorno nem canseira.

 

Sentia às vezes saudade

do paraíso perdido...

Mas fora a sua vontade:

assim tinha decidido.

 

Lá, tinha que obedecer,

ser aplicado no estudo

e ouvir e não rebater...

 

A liberdade era assim:

não se podia ter tudo

dentro ou fora do jardim...

 

4.

Sem armas e sem abrigos,

um ninho nos ramos altos,

prevenia os sobressaltos

dos mais diversos perigos.

 

Nessa arte da construção

imitou os primos símios,

que eram astutos e exímios,

arquitectos de eleição.

 

Gozando a paz absoluta,

descobriu ser bom pensar:

e concluiu que uma gruta

era o lar a conquistar,

 

por ser melhor tal intento

do que viver ao relento.

 

5.

Um dia, o par decidiu

o que há de mais natural:

Eva emprenhou e pariu

o pecado original...

 

E do seu cálido ninho,

recendendo a puridade,

foi descoberto o caminho

terrestre da humanidade.

 

E tudo assim sem alarde,

nem hosanas nem prebendas...

Não foi cedo nem foi tarde.

Depois vieram as lendas,

 

vestindo de cor e rito

o simbolismo do mito.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana + Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:13
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