Sábado, 21 de Junho de 2014

 O MENINO É  PAI DO HOMEM

(26-XI-13)

 

José Augusto Carvalho

 

Uma frase de Machado de Assis, que serviu de título a um capítulo de um de seus romances, acho que Memórias Póstumas de Brás Cubas, elimina, a meu ver, a responsabilidade do ser humano pelos seus atos e o livra de todos os pecados: “O menino é  pai do homem”.

            Não me lembro do conteúdo desse capítulo. Citei o título de memória. Mas, analisando a frase em si, isolada do romance, imagino que, por essa ideia, se uma tara é genética, não cabe ao tarado a culpa de seus malfeitos; se a má índole é adquirida, é no meio ambiente, na família ou na desagregação social que se deve pôr a culpa. A frase de Machado de Assis significa, salvo melhor juízo,  que o que se faz a uma criança hoje se reflete depois no adulto que ela se tornará. O que o menino suporta, enfrenta ou recebe hoje é que vai decidir o caráter do adulto.

            Se isso é verdade, então não existe o pecado, não existe responsabilidade, não existe o livre-arbítrio. Presume-se a incompetência ou a impossibilidade do indivíduo em vencer as forças negativas, em superar seus traumas ou em decidir seu próprio destino.

            O livre-arbítrio não existe, certamente, para quem crê num deus. Como o destino de uma pessoa está previamente traçado ou já é inteiramente conhecido por esse deus, não importa o esforço que ele faça para melhorar. O que quer que ele pretenda fazer já está previamente decidido por esse deus, se for um deus onisciente... Em outras palavras, que chances teria Pedro de não negar a Cristo por três vezes, antes que o galo cantasse, se o próprio Cristo previra essa traição dele? Cristo teria sido charlatão ou mentiroso, se a profecia dele não se tivesse realizado. O mesmo se diga da traição de Judas, já prevista também. Como poderia um homem fugir do destino ingrato que lhe estava reservado, independentemente de sua vontade? O papel de Judas era necessário aos desígnios da divindade. Para que se realizassem as profecias, para que Jesus morresse pelos homens, Judas teria de fazer o que fez, ainda que não quisesse, ainda que pudesse negar-se a fazer um papel que a humanidade condenaria como traição,  mas que a humanidade deveria agradecer por ter sido seu beijo pretensamente traidor a base  de uma Igreja ou o fundamento de uma religião. Judas não traiu ninguém. Judas foi a chave que abriu uma porta e nem sequer tinha consciência da grandeza de seu papel.

             Mas eu creio no livre-arbítrio, porque não acredito em divindades. Creio na responsabilidade do homem pelos seus atos e no seu poder de escolher seus próprios caminhos.

              Se Machado de Assis tivesse razão, não teria sido um escritor, mas um revoltado contra a humanidade, por ter ficado órfão cedo, por ter sido pobre, ou por ter sido descendente de escravos.

             Machado de Assis enganou-se. O menino que fui não é o pai do homem que sou. Afinal, não tenho nenhuma divindade a espionar o que faço entre quatro paredes ou a decidir o destino de que  sou o único dono e responsável. Eu é que decido o que faço e escolho meus próprios caminhos. Deus, segundo a Bíblia, fez o mundo em seis dias. Como ninguém é de ferro, resolveu descansar no sétimo dia. E nunca mais fez nada, a não ser traçar o destino dos que nele creem. E acabar com o livre-arbítrio.

 

Cidade de Vitória, ES-Brasil



publicado por Do-verbo às 20:19

TRISTEZA DE SER VELHO

 

 

José Augusto Carvalho

 

 

            Acho que foi em Terra dos Homens que Saint-Exupéry escreveu uma bela página a respeito da idade do homem. A idade representa segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas de permanente exercício de aprendizagem de vivências únicas, de alegria, de tristeza, de dor, de encantamento. A idade do homem (homem, aqui, no sentido de ser humano, que inclui também a mulher) é um mistifório de emoções, de pensamentos e de experiências acumulados ao longo dos anos.

            Mas chega um momento em que a idade pesa mais do que podem suportar os ombros ou uma cabeça de mente lúcida e aberta, a contradizer a frase de um pensador da Antiguidade, talvez Hipócrates, para quem a juventude é, não uma fase da existência, mas um estado de espírito, na ideia poética, talvez falsa, de que o que faz a juventude é o ideal.

            Na verdade, ainda que tenha ideais ou a ânsia de viver e de ser útil, o homem (homem aqui novamente em sentido genérico) enfrenta com a idade problemas que não se resolvem nem com vontade nem com bom senso: a carne é fraca, ainda que seja forte o espírito. E por fraqueza da carne entenda-se aquilo que o “acidente de Senectus” produz , no dizer de Augusto dos Anjos: “a miséria anatômica da ruga”. E não me refiro à ruga como a carquilha que estria o corpo e tortura a mente, mas como um símbolo de destruição e de aniquilamento, como uma sanguessuga que leva à degeneração dos tecidos, ao enfraquecimento dos órgãos, ao surgimento de dores, de artrites, de problemas geriátricos inevitáveis.

            Disse eu uma vez, comentando as queixas do contista Manoel Lobato a respeito da própria velhice, que o triste não é envelhecer, mas não saber envelhecer. Perdoe-me o leitor a palinódia: o triste é envelhecer mesmo. “Melhor idade” para designar a velhice é bobagem ou conversa para boi dormir. A melhor idade é a da juventude, entre os 15 e os 30 anos. E “terceira idade” é outra bobagem ou um contrassenso, porque acredito que só haja duas idades: a do jovem e a do velho. Rendo-me não aos argumentos de Manoel Lobato, porque ele não me contestou, mas aos argumentos da própria vida.

            O poeta maranhense Alfredo de Assis, num soneto chamado “Pranto e riso”, diz com acerto, embora com crueldade: “No pranto da criança não diviso / mágoa nenhuma: é todo luz e encanto. / Tem, nuns restos de sol e paraíso, / toda a ternura matinal de um canto. // Mas de um velho, num rápido sorriso, / mágoas profundas eu percebo entanto./ No pranto da criança há quase riso. / No sorriso do velho há quase pranto.// Um velho ri: é um pôr do sol que chora. / Chora a criança: é como se uma aurora / num chuveiro de pétala se abrisse.// E tem muito mais luz, mais esperança, / a lágrima, nos olhos da criança, / que um sorriso, nos lábios da velhice.”

            Fiquemos com a ironia lúcida de um aparente nonsense de Bernard Shaw: a juventude é uma coisa bonita demais para ser desperdiçada com os jovens.

            A velhice é triste. A velhice é muito triste. A velhice é tristíssima.

 

Cidade de Vitória, ES-Brasil



publicado por Do-verbo às 12:05
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