Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010
 
 *
Saudade, Mãe, que saudade
do teu regaço-meu ninho!
Eu fui, na tua verdade,
vertigem doutro caminho...

*
De olor e cor, fui a flor
mais linda do teu jardim...
Nem o génio de um pintor
criou uma flor assim...
***
Só na fragrância
do  meu altar de saudade
a minha infância
vive na tua verdade…

*
Ousando a Vida,
hoje, sozinho, caminho,
sem a guarida
já perdida do meu ninho.
*
*
José-Augusto de Carvalho
25 de Junho de 2006.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
Música de Maria Luísa Serpa


publicado por Do-verbo às 07:06
Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

 

Os longes da memória --- o tempo e o modo

renascem, inventados, água e lodo.

 

Rasgando a treva, a chama dum farol.

Por montes, vales, plainos surge o trilho.

O múrmuro trinar do rouxinol

pousou no choro brando do teu filho.

 

E, de montante, o rio rumoreja,

espreguiçando a doce melodia.

P'los campos, o olivedo que esbraceja,

candeia que há-de ser já anuncia.

 

Na calma santa e mítica de luz,

a vida sonha e quer-se imaginário.

O tudo e o nada, o todo se reduz

ao berço do infinito planetário.

 

José-Augusto de Carvalho

In «tempos do verbo», 1990.


publicado por Do-verbo às 03:18
Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010
*
Da colheita de Maio Maduro,
quanto baste de alento e de alvura.
Mitigar minha sede procuro
na cisterna de chuva-água pura.
*
Na farinha e na chuva que amasso,
minha fome modela o sustento.
É de Terra e de Céu o que faço
quando em mim me transcendo e me invento.
*
Tudo em mim é a soma do todo,
que é de pó e que é de água – este lodo,
num pedaço de céu que me acena…
*
E assim vou, perseguindo este rastro
que lucila a saudade de um astro,
nesta cósmica angústia terrena…
*
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Dezembro de 2010.


publicado por Do-verbo às 08:03
Domingo, 12 de Dezembro de 2010
[Noticia en 4 idiomas] La censura jordana acusa al gran poeta Ibrahim Nasrallah de haberse atrevido a tratar un tema tabú: Ofender al Estado jordano y las fuerzas armadas, de levantar conflictos...


                              Versos lejanos                                     
 
                                                     Para Ibrahim Nasrallah


Hay alas de libertad
con penas de terciopelo
y sangre de soledad
en los azules del cielo.

Viejos miedos sín edad,
asombros malos del vuelo.
No matarán la verdad
que, herida, irrumpe del suelo!

Mis ojos miran las flores
que nacen en tu jardín,
en una alba de colores.

Ay, el viento es un clarín,
anuncio de los albores
de mañanas de carmín...
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julio de 2006.

    *


Poetas
                                                         
                                                                             Para José-Augusto de Carvalho

En esa ciudad buena y distante
 
En un patio colmado de hierba
 
Todas las cosas cantan
 
Y todos bailan
 
Él dijo: Anda e invita a bailar  a esa bella muchacha
 
Yo era tímido
 
Él dijo: si los poetas pierden
 
El mundo no ganará
 


15.Julio.2006
Ibrahim Nasrallah


publicado por Do-verbo às 04:02
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
A SANTÍSSIMA TRINDADE
José Augusto Carvalho
O cristianismo, em seu início, era bem diferente do catolicismo de hoje, em matéria de fé. Não se cogitava, nos primórdios da era cristã, da Santíssima Trindade, “mistério” que só mais de três séculos depois da morte de Cristo passou a fazer parte da religião católica.
Qual é a origem dessa crença?

Flavius Valerius Aurelius Claudius Constantinus, ou simplesmen-te, Constantino, o Grande, (nascido entre 280 e 288 e falecido em 337), às vésperas da batalha da ponte Mílvia, ocorrida em 28-X-312, teria visto no céu, de acordo com seu biógrafo Eusébio Pânfilo, uma cruz com dizeres em grego que a tradição manteve em latim: "In hoc signo vinces", isto é, "com este sinal vencerás". Constantino mandou pôr nos escudos de seus soldados essa frase, antes da batalha da Ponte Mílvia. De fato, Constantino venceu seu inimigo Maxêncio nessa batalha, mas foi só em 324, ao vencer Licínio, que Constantino se tornou senhor absoluto de todo o império romano, depois de ter garantido, pelo Edito de Milão (313), o cristianismo como religião oficial do Império. Vendo que Roma não era mais um bom lugar para sede do império romano, ele construiu no lugar em que se encontrava Bizâncio (hoje Istambul, na Turquia), a nova sede do governo, Constantinopla, a capital do império romano do Oriente, conhecido como "império bizantino". Foi durante o seu reinado que se construíram os primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, a basílica do Vaticano e a igreja dos Santos Apóstolos, em Roma, entre outros.

Em 325, no primeiro Concílio de Niceia, sob o papado de Silvestre I, Constantino condenou as ideias e os seguidores do egípcio Arius, sacerdote de Alexandria, fundador do arianismo, que negava a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho e não reconhecia divindade em Jesus Cristo. Foi durante esse Concílio, em que se estabeleceram os dogmas principais do catolicismo, que houve uma discussão: Jesus seria apenas mais um profeta, como entendiam os Judeus, além de Arius, ou seria um Deus? Fausta, filha de Maximiano, era casada com Constantino desde 307. Ela queria que Jesus fosse considerado Deus, apesar da relutância de Constantino. Mas ela lembrou-lhe o sinal que ele havia recebido e a vitória que ele acreditava ter sido o resultado de uma intervenção sobrenatural. Constantino concordou. Por votação, Cristo foi considerado Deus nesse primeiro Concílio de Niceia.

O Espírito Santo que era sugerido não como Deus, mas como manifestação de Deus para justificar a virgindade de Maria, tornou-se dogma de fé e o terceiro Deus católico, no Concílio de Constantinopla, em 381 (sob o papado de Damaso I). Esse concílio voltou a condenar as ideias de Arius.

Acredito que Jesus Cristo tenha recusado, implicitamente, ser considerado Deus. Em Mt. 24:34-36, lê-se: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai.” A onisciência é um atributo de Deus e, portanto, tem valor absoluto. Ora, a onisciência é o saber absoluto sobre todas as coisas. Se o Filho não sabe algo que apenas o Pai sabe, então o Filho não é onisciente e, portanto, não é Deus.

Pensemos nisso.
.

Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta,em 6 de Agosto de 2010.


publicado por Do-verbo às 08:00
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
POR UM NATAL CRISTÃO
José Augusto Carvalho
No início da década de 60, no século passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou um livreto de título sugestivo: O catolicismo ainda é cristão? Referia-se a uma Igreja latifundiária e rica, cuja ostentação era um acinte à pobreza da grande maioria dos seus fiéis.
Toda religião, em princípio, é santa, porque une os homens à divindade pelo caminho do bem e da paz de consciência. O problema é que todo líder religioso, além de transformar a fé num rol de proibições e toda alegria da vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo e a convencer os outros, por bem ou por mal, de que a sua religião é a melhor de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que “os homens jamais praticam o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”. O pior é que os religiosos, muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral e seus conceitos a quem não reza pela mesma cartilha. O divórcio, por exemplo, levou meio século para instituir-se no Brasil, graças à imposição de pregadores religiosos, que, absurdamente, toleravam o desquite, que era uma situação ainda pior que o divórcio, sob todos os pontos de vista, por permitir a mancebia e impedir novo enlace legal. O mal do século não é o estresse, não é o efeito estufa, não é o degelo polar. O grande mal do século ainda é a intolerância, o desrespeito às idéias alheias, à moral e à fé de quem pensa de maneira diferente.
No dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus, por uma especial concessão ao paganismo. Jesus teria nascido em março do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no ano de 525, para cristianizar as festas pagãs que se realizavam nessa época ao deus solar Mitra que, apesar de persa, era festejado em Roma, nas comemorações do solstício de inverno. Ainda por concessão ao paganismo se cultuam os “reis magos” que não eram reis, mas sacerdotes da religião persa, que tinham o nome de “magos” por serem sábios e considerados possuidores de dons divinos. Também por concessão ao paganismo a sede da Igreja Católica se chama Vaticano, nome do deus romano responsável pela fala dos homens, porque se acreditava que a primeira sílaba de seu nome era a primeira manifestação linguística oral de uma criança. Daí surgiu o verbo “vagir”, do latim “uagire”, que significa “fazer uá”.
Também concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade de imagens, a extensa polimorfia da figura da mãe de Jesus e do próprio Cristo e a gigantesca hagiolatria católica.
Apesar de tudo, ainda se considera que o catolicismo seja cristão...

O Natal deveria ser realmente não uma data, mas uma época de confraternização e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745): “Temos bastante religião para fazer-nos odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”

Por isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá que me dessem um presente útil a todos nós: que as religiões se respeitassem mutuamente, que nenhuma delas se considerasse a única verdadeira ou a melhor de todas e, finalmente, que o espírito do Natal prevalecesse todos os dias do ano, em todas as religiões.
.
Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta, em 23 de Dezembro de 2007.


publicado por Do-verbo às 07:50
Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2010
 
 

 

 
 
Volando, las golondrinas
llegan con la primavera…

 

 
 
Hay una sonrisa dulce
que danza en tus labios rojos…

 

 
 
Hay amapolas de sangre
en las huellas que florecen
en los caminos de ahora…

 

 
 
Señora de los milagros,
concédeme tener alas
para llegar hasta el cielo!

 

 
 
Señora de los milagros,
dejad que un día me muera
en ésos tus labios rojos!

 

 
 
Señora de los milagros,
dejad que florezca en sangre
en todas las carreteras
en un tapiz de amapolas!

 

 
 
José-Augusto de Carvalho
25/11/2008.
Viana * Évora * Portugal

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publicado por Do-verbo às 14:36
Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2010
Rio Guadiana, o pulo do lobo
 
 
 
 
Uma mancha de arvoredo.
Treme o caminho de medo.
 
Um grito de raiva corta
o silêncio do montado.
Quem, na noite, mal suporta
o seu sossego assombrado?

 
Numa janela da aldeia,
tremeluz uma candeia.

 
Que sombra furtiva passa,
tragada p'la escuridão?
No silêncio de mordaça
pesa mais a solidão.

 
Andam malteses a monte
nas terras sem horizonte...

 
Soam secos estalidos
de facas de ponta e mola
e baques malpressentidos 
de passos que a lama atola...

 
Andam malteses a monte
nas terras sem horizonte...

 
Homens de pele trigueira,
curtida pelo relento,
aventuras de fronteira
e mulheres de momento...

 
Cicatrizes purpurinas
das balas das carabinas...

 
Nos beijos livres da noite,
bem ajustado o bornal,
há quem na sombra se acoite
maltês ou guarda fiscal!

 
O medo o medo guardando,
liberdade e contrabando...

 
Malteses matando a fome,
altivos como senhores!
Quem sois vós, homens sem nome,
 temidos p'los lavradores?

 
Quem impõe a lei da fome,
 muitas insónias consome!...
 
Quem vem lá, entre dois guardas,
a caminho da cadeia,
indefeso entre espingardas
que a lei da fome alardeia?

 
Um maltês acabrunhado
maldiz o dia azarado!...

 
Caiu um numa emboscada...
Outros em paz intranquila,
de noite, rondam a vila,
p'ra soltar o camarada...

 
Uma mancha de arvoredo...
Treme o caminho de medo!...

José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 5 de Setembro de 1996.
Viana, 8 de Dezembro de 2010


publicado por Do-verbo às 10:55
Quarta-feira, 08 de Dezembro de 2010



 

 

 

As ruelas de terra batida

ocultaram a minha partida.

 

 

O negrume da noite tragou-me,

numa cúmplice fuga.

Uma sombra furtiva e sem nome

que do rosta uma lágrima enxuga.

 

 

Em redor, o silêncio pesado

dos malteses de medo e de espanto...

E os rafeiros rosnando ao cajado

que à distância sustém o levanto.

 

 

Chego, enfim, à estrada deserta.

Doravante, o caminho é obscuro...

E assim vou, de sentidos alerta...

E assim ando esventrando o Futuro...

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 18 de Março de 1997


publicado por Do-verbo às 12:15
Domingo, 05 de Dezembro de 2010
 

Os dias que assinala o calendário!
Dos dias por haver,
no nosso imaginário,
aos dias já havidos,
vividos ou tão mal apercebidos
no seu acontecer!

 
De cada dia a mais, um dia a menos!
Corrente que se afasta,
em seus tem-tens serenos,
da cálida nascente.
E vai, em seu alor iconoclasta,
ousando e desbravando o rumo incerto,
no vale, na planura,
no inóspito deserto,
no anelo de chegar
ao termo da aventura:
o caos da sua génese -- o ignoto mar.

 
Consigo leva, doces, as lembranças
da infância e do candor.
Consigo, leva a mágica pujança
do adolescente, em hinos de verdor.
Consigo leva, adulto, a segurança
que enfrenta sem temor seja o que for.
E vai, sonhando ser, de novo, alada,
a nuvem que do caos do mar se ausente
e logo, condensada,
seja outra vez nascente.


 
José-Augusto de Carvalho
16 de Setembro de 2010.
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 09:19
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