Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
A SANTÍSSIMA TRINDADE
José Augusto Carvalho
O cristianismo, em seu início, era bem diferente do catolicismo de hoje, em matéria de fé. Não se cogitava, nos primórdios da era cristã, da Santíssima Trindade, “mistério” que só mais de três séculos depois da morte de Cristo passou a fazer parte da religião católica.
Qual é a origem dessa crença?

Flavius Valerius Aurelius Claudius Constantinus, ou simplesmen-te, Constantino, o Grande, (nascido entre 280 e 288 e falecido em 337), às vésperas da batalha da ponte Mílvia, ocorrida em 28-X-312, teria visto no céu, de acordo com seu biógrafo Eusébio Pânfilo, uma cruz com dizeres em grego que a tradição manteve em latim: "In hoc signo vinces", isto é, "com este sinal vencerás". Constantino mandou pôr nos escudos de seus soldados essa frase, antes da batalha da Ponte Mílvia. De fato, Constantino venceu seu inimigo Maxêncio nessa batalha, mas foi só em 324, ao vencer Licínio, que Constantino se tornou senhor absoluto de todo o império romano, depois de ter garantido, pelo Edito de Milão (313), o cristianismo como religião oficial do Império. Vendo que Roma não era mais um bom lugar para sede do império romano, ele construiu no lugar em que se encontrava Bizâncio (hoje Istambul, na Turquia), a nova sede do governo, Constantinopla, a capital do império romano do Oriente, conhecido como "império bizantino". Foi durante o seu reinado que se construíram os primeiros monumentos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, a basílica do Vaticano e a igreja dos Santos Apóstolos, em Roma, entre outros.

Em 325, no primeiro Concílio de Niceia, sob o papado de Silvestre I, Constantino condenou as ideias e os seguidores do egípcio Arius, sacerdote de Alexandria, fundador do arianismo, que negava a igualdade de natureza entre o Pai e o Filho e não reconhecia divindade em Jesus Cristo. Foi durante esse Concílio, em que se estabeleceram os dogmas principais do catolicismo, que houve uma discussão: Jesus seria apenas mais um profeta, como entendiam os Judeus, além de Arius, ou seria um Deus? Fausta, filha de Maximiano, era casada com Constantino desde 307. Ela queria que Jesus fosse considerado Deus, apesar da relutância de Constantino. Mas ela lembrou-lhe o sinal que ele havia recebido e a vitória que ele acreditava ter sido o resultado de uma intervenção sobrenatural. Constantino concordou. Por votação, Cristo foi considerado Deus nesse primeiro Concílio de Niceia.

O Espírito Santo que era sugerido não como Deus, mas como manifestação de Deus para justificar a virgindade de Maria, tornou-se dogma de fé e o terceiro Deus católico, no Concílio de Constantinopla, em 381 (sob o papado de Damaso I). Esse concílio voltou a condenar as ideias de Arius.

Acredito que Jesus Cristo tenha recusado, implicitamente, ser considerado Deus. Em Mt. 24:34-36, lê-se: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai.” A onisciência é um atributo de Deus e, portanto, tem valor absoluto. Ora, a onisciência é o saber absoluto sobre todas as coisas. Se o Filho não sabe algo que apenas o Pai sabe, então o Filho não é onisciente e, portanto, não é Deus.

Pensemos nisso.
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Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta,em 6 de Agosto de 2010.


publicado por Do-verbo às 08:00
POR UM NATAL CRISTÃO
José Augusto Carvalho
No início da década de 60, no século passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou um livreto de título sugestivo: O catolicismo ainda é cristão? Referia-se a uma Igreja latifundiária e rica, cuja ostentação era um acinte à pobreza da grande maioria dos seus fiéis.
Toda religião, em princípio, é santa, porque une os homens à divindade pelo caminho do bem e da paz de consciência. O problema é que todo líder religioso, além de transformar a fé num rol de proibições e toda alegria da vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo e a convencer os outros, por bem ou por mal, de que a sua religião é a melhor de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que “os homens jamais praticam o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”. O pior é que os religiosos, muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral e seus conceitos a quem não reza pela mesma cartilha. O divórcio, por exemplo, levou meio século para instituir-se no Brasil, graças à imposição de pregadores religiosos, que, absurdamente, toleravam o desquite, que era uma situação ainda pior que o divórcio, sob todos os pontos de vista, por permitir a mancebia e impedir novo enlace legal. O mal do século não é o estresse, não é o efeito estufa, não é o degelo polar. O grande mal do século ainda é a intolerância, o desrespeito às idéias alheias, à moral e à fé de quem pensa de maneira diferente.
No dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus, por uma especial concessão ao paganismo. Jesus teria nascido em março do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no ano de 525, para cristianizar as festas pagãs que se realizavam nessa época ao deus solar Mitra que, apesar de persa, era festejado em Roma, nas comemorações do solstício de inverno. Ainda por concessão ao paganismo se cultuam os “reis magos” que não eram reis, mas sacerdotes da religião persa, que tinham o nome de “magos” por serem sábios e considerados possuidores de dons divinos. Também por concessão ao paganismo a sede da Igreja Católica se chama Vaticano, nome do deus romano responsável pela fala dos homens, porque se acreditava que a primeira sílaba de seu nome era a primeira manifestação linguística oral de uma criança. Daí surgiu o verbo “vagir”, do latim “uagire”, que significa “fazer uá”.
Também concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade de imagens, a extensa polimorfia da figura da mãe de Jesus e do próprio Cristo e a gigantesca hagiolatria católica.
Apesar de tudo, ainda se considera que o catolicismo seja cristão...

O Natal deveria ser realmente não uma data, mas uma época de confraternização e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745): “Temos bastante religião para fazer-nos odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”

Por isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá que me dessem um presente útil a todos nós: que as religiões se respeitassem mutuamente, que nenhuma delas se considerasse a única verdadeira ou a melhor de todas e, finalmente, que o espírito do Natal prevalecesse todos os dias do ano, em todas as religiões.
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Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta, em 23 de Dezembro de 2007.


publicado por Do-verbo às 07:50
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