Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

 

Provei, no meu baptismo, o símbolo do sal.

Provei e não gostei, decerto, do amargor.

Provei, bebé ainda, o gosto a Portugal.

Provei, sem crer no Fado, o fel do seu sabor.

 

O Bem fugaz provei no leite maternal.

O duradouro Mal depois se soube impor.

E nem no tempo vão do breve Carnaval

eu vi, de novo, o Bem, num cântico de amor.

 

Meu ânimo de bravo ousou o Bojador.

Ao Cabo Não gritei: arreda, o meu fanal

é mais além de ti e até do Adamastor!...

 

Às Índias arribei! Além do chão natal,

sofri, morri, sonhei, amei com tanto ardor,

que em todo o mundo existo ainda Portugal!

 

 

José-Augusto de Carvalho

 Lisboa, 9.X.2010.



publicado por Do-verbo às 19:15
Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

 

 

 

 

Primaveras floridas,
abrasados estios,
outonais recaídas.
invernias e frios.
 
É a minha bagagem,
o que tenho, não mais,
nesta instante viagem
sem retorno ao meu cais.
 
E caminho, largando,
pelas bermas da estrada,
porque inúteis, os lastros.
 
Chegarei desvendando
a vertigem alada
do delírio dos astros.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
23 de Novembro de 2010.
Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 00:36
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

 

 

 

 

No silêncio das cinzas, murmura,

insubmissa, a palavra.

Rasga a terra da chã sepultura

e os adis que a renúncia não lavra.

 

Clandestina, no arder do suão,

vem e queima estes barros de Beja!

E o Inferno que morre de inveja

por não ter tão dorida aflição!

 

Os caminhos levaram a vida

e a fatal deserção ultrajou

esta pátria p'lo sonho banida

porque os filhos, megera, enjeitou.

 

Que esperança de ultrajes exangue

se levanta, entre espasmos, enquanto,

nos adis empapados de sangue,

amaduram searas de espanto?

 

E na fome de pão

e na sede de vinho

esta força do não

a rasgar o caminho!...

 

 

José-Augusto de Carvalho

18/20 de Junho de 2009.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 18:22
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

 

 

Das cinzas do tempo, evadem-se os sinais...

 

Será Nero declamando os seus poemas medíocres

às chamas que devastam Apolo e Roma?

 

Será Petrónio burilando a elegância do verbo,

enquanto acaricia as veias que irá cortar?

 

Serão as sombras ignaras do pão e circo

expulsas pelo remorso dos tempos

do sossego do nada onde apodreceram?

 

Ou serei eu, aqui, a reinventar o pesadelo

do martírio intemporal dos impérios?

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Agosto de 2008.

Viana  * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:02
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

 

  

 

 

Eu tive muitos mestres.

Diversos no saber, com eles aprendi

do quanto apetecia ao quanto recusava.

 

Em tempo de escolher, apenas minha fiz

a parte por bastante --- o quanto apetecia.

O todo recusei.

 

A dívida de mim

é dar-me, por bastante,

apenas o que eu quero!

 

E eu quero ver a luz do sol e a tremulina!

Sentir o corpo quente e a vista encandeada!

 

A fome em que morri e de que renasci,

matá-la nos trigais,

ao lado dos pardais que pousam, atrevidos,

nos velhos espantalhos

que não receiam mais.

 

Eu quero ver a luz que logo p’la manhã

quer tudo incendiar

e disputar ao sol a sede duma gota

puríssima de orvalho!

 

Eu tive muitos mestres.

E a mestre não cheguei porque só quis saber

a parte por bastante,

o quanto apetecia…

 

 

José-Augusto de Carvalho

1996, Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:53
Segunda-feira, 01 de Novembro de 2010

 

 
 
 
 

 

 

 

No sossego da tarde, entardeço.

Uma brisa suave me afaga.

No desgosto da Vida do avesso,

cada ocaso parece uma chaga.

 

Na fogueira que o céu incendeia,

uma chaga doendo enquanto arde.

Passam horas e o tempo escasseia!

E esta chaga a doer... e é tão tarde!

 

Já no céu esmorece o clarão.

A fogueira é, agora, uma vela

que já mal tremeluz nas lonjuras!...

 

Sinto o sono no meu coração.

No silêncio em torpor que me vela,

fecho os olhos e fico às escuras.

 

 

José-Augusto de Carvalho

29 de Outubro de 2010.

Viana*Évora*Portugal



publicado por Do-verbo às 14:43
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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