Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

  

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus, não seja já!

 

Casimiro de Abreu, poeta brasileiro 

 

 

 

Senhor, não me deixaste

morrer na flor dos anos...

E assim me condenaste

à sanha dos tiranos...

 

Os ombros me vergaste

com o peso dos anos...

E assim me abandonaste,

sem fé, aos desenganos...

 

Quando o barro moldaste,

os meus sonhos criaste,

divinos e profanos...

 

Uniste a flor à haste!

Depois a desfolhaste

com a ira dos humanos! 

 

 

José-Augusto de Carvalho

In «vivo e desnudo», 1986, pag. 42



publicado por Do-verbo às 15:17
Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

 

1

Eram belas, no céu, as estrelas!

Vinha longe a manhã... e era dia!

Poder vê-las... poder merecê-las...

Que delírio de cor florescia!

 

Era amante a ternura do vento,

afagando a liberta raiz...

Era o tempo do pão e do alento,

a sagrar, na verdade, a matriz.

 

As crianças brincavam, na rua...

As mulheres choravam, felizes...

Esta terra era minha, era tua...

Das feridas, tão-só, cicatrizes.

 

De olhos torvos, querendo entender,

os mastins, sem poderem morder...

 

2

Espingardas e cravos florindo

garantiam a todos a paz...

"Nunca mais voltaremos atrás"

era o grito do sonho tão lindo!

 

O poder era o povo e crescia...

Era a vida cumprindo a promessa...

Era o tempo do tempo com pressa,

que corria, corria, corria...

 

Era o sangue escaldante, nas veias...

Era a sede de todas as fontes...

Eram vales, planícies e montes,

horizontes sem dor nem cadeias...

 

Eram cravos de sonho florindo...

O poema mais lindo... mais lindo!

 

3

Na candura, a nudez sem idade,

a cantar a ternura do enigma,

de si mesma se fez paradigma

da grandeza da luz-claridade.

 

Claridade de nós, de mãos dadas,

ser de todos o todo que temos,

da fartura do pão que comemos

às crianças de sonhos perladas.

 

Só que presa não rima com fera...

Só que vida não rima com morte...

Só que o verso de puro recorte

sempre o zoilo indecente lacera...

 

E novembro chegou, prussiano...

e gorou o sonhar lusitano.

 

 

José-Augusto de Carvalho

13, 14 e15 de novembro de 2003

Várzea, São Pedro do Sul, Portugal



publicado por Do-verbo às 14:59
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

 

 

 

Cidadão vulgar deste país,

tenho sonhos de Abril e pesadelos de Novembro.

 

Da noite sem estrelas nem luar,

guardo a tristeza da escuridão

e os sobressaltos do medo

de ser aqui a renúncia de mim.

 

Por caminhos de malandar,

gastei metade da vida...

De outros caminhos eu soube,

mas nunca os quis para mim.

 

Panteísta por desígnio da esperança,

sempre entrevi as flores silvestres

atapetando as estradas da vida...

 

Na madrugada de um Abril já distante,

soube da cidade a despertar

e do milagre das flores encravando os canos das espingardas

com aromas de fraternidade.

Maldesperto, vi o clarear do dia e acreditei...

Acreditei na primavera.

 

E, na Barca da Esperança, lá fui,

sobre as ondas da liberdade!

E quando ventava rijo,

a barca estremecia, mas ia...

 

Ah, mas uma noite,

os vigias de quarto não souberam ler o mar!...

E o homem do leme,

porque não quis ser mais do que ele,

temeu o mar e rendeu-se aos escolhos de Novembro.

 

Na noite do pesadelo,

quando o vento sopra rijo,

ainda se ouvem os gritos dos náufragos da Barca da Esperança...

 

 

José-Augusto de Carvalho

3 de Agosto de 2008.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 19:04
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
 
 
A Praça do Desplante está vazia.
Apenas o cansaço do pregão
do velho cauteleiro, que porfia
na venda da miragem da evasão...

Quem passa, afasta a sorte com um gesto.
O gesto de quem diz não vale a pena!
E o velho aceita o não sem um protesto
ou um esgar de continência obscena.

E vai, por entre as sombras, à deriva,
oferecendo a sorte, no vazio
sonâmbulo da Praça do Desplante...

Mas ninguém quer a grande, a grande esquiva!
E as sombras, num instante rodopio,
aguardam que outro Dante as saiba e cante...
 


José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2008
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 18:46
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

 

Hoje, um manto de nuvens cinzentas

anuncia o dilúvio aos gentios.

E sem barca, ai de nós!, que tormentas

no devir de fatais desvarios!...

 

E de pombas, no céu, nem sinal!

É de sombras a noite que cai!

Que profano juizo final

tão distante do Monte Sinai?

 

E esta fé, o que faço com ela,

se a distância que maladivinho

das cortinas da minha janela

só de nada atapeta o caminho?

 

Do delírio dos cravos em festa,

o que resta? O que resta? O que resta?

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Junho de 2008.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 18:38
Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
 
Aqui, na verdade de nós encontrada,
matámos a fome de maio maduro!
Aqui, na amargura da terra ultrajada,
aprendemos nunca ter medo de nada,
cantando horizontes sem grades nem muros!

 
Aqui, na verdade de nós perturbada,
sentimos o enleio mais terno e mais puro
da noite dos cravos parindo a alvorada!
Aqui, libertámos a vida adiada,
numa ânsia em delírio de ser e futuro!
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1975.


publicado por Do-verbo às 18:21
Domingo, 28 de Novembro de 2010

                                                                                                          Para Vasco Massapina

O espaço é o desafio.

A mão, trémula e suspensa,
é, no gesto, a forma densa
a esventrar o vazio.
 
Hirtos e determinados,
o esquadro, a régua, o compasso,
ansiando pelo traço
de esboços adivinhados.
 
A mente, num turbilhão,
aguardando o golpe de asa,
cresce, avassala e abrasa
e encandeia, num clarão.
 
O sonho o milagre tece...
Céus, e o homem acontece!


José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 22:07
Domingo, 28 de Novembro de 2010

  

 

Os corpos insepultos e os abutres...

Carnificina e horror de que te nutres!

Na escuridão do medo, ecoam gritos.
No cimo, errantes, tremeluzem astros.
No chão doído, informes, os detritos,
anúncio e precedência doutros rastros.
 
No céu, se evola, em mancha nebulosa,
suspensa sobre a lei da gravidade,
o magma, que na via dolorosa,
expia condição e claridade.
 
No circo, a turba exalta, em sangue, o trono.
César exibe a túnica escarlate. 
Na arena, em agonia e abandono,
as levas condenadas ao abate.



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 21:50
Domingo, 28 de Novembro de 2010

 

 

Vestiram-te de pedra, exímios, os cinzéis.

Assim se prolongou a carne, o sangue, a chama...

A plástica escultura, emoldurando anéis

Em torno do que foi, saudade agora e fama.

 

Saudade que terás deixado em quem te amou.

A gratidão plural prestando-te homenagem.

A força no poder que em pedra te exaltou.

Perpétua veleidade em gélida miragem.

 

Do meu amor não tenho o rosto empedernido...

Nenhum cinzel talhou as curvas do seu rosto...

Nem fama nem anéis, só um ferido olvido

de lágrimas e pedra esculpe o meu desgosto.

 

Não grito nem protesto, encontro a diferença

dos homens ante o fim. Somente a diferença...

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Novembro de 2002.

Porto Alegre * Rio Grande do Sul * Brasil.



publicado por Do-verbo às 21:40
Domingo, 28 de Novembro de 2010

 

 

A dúvida instalou-se

e o seu peso opressivo

consigo o fel me trouxe

dum perpétuo cativo.

 

Ser, não-ser, a questão

 que Hamlet angustiou

e é hoje esta prisão

a que me condenou.

 

Com a grilheta infame,

em chaga os tornozelos,

esta deriva arrasto

 

até que o fim me chame

e mate os pesadelos

do pó que quis ser astro.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1982



publicado por Do-verbo às 17:06
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