Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

 

 

O tempo que me coube são as horas

marcadas no relógio do teu peito,

exactas, sem angústias nem demoras,

suaves nesse altar de amor perfeito.

 

No tempo, sejam horas ou desoras,

teus braços são o ninho em que me deito,

teus olhos são as rútilas auroras

que inundam de manhãs o nosso leito.

 

São estas horas certas que entreteces,

determinando o tempo singular,

que dão à vida a plena dimensão.

 

Ah, tempo, que de vida me esmaeces!

Consente que os meus anos, no passar,

sublimem este mel no coração.

 

 

José-Augusto de Carvalho

12 de Setembro de 2004.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 22:39

 

 

Poeta, quem és tu, que tanto delicias

a bela poesia, em êxtases extremos?

És tu, Orfeu, a quem nós todos devemos,

que regressaste à vida em cantos de magia?

 

Eurídice morreu. A barca de Caronte

ao Hades a levou. Deixou-nos o seu mito.

Não queiras mais sofrer. Teu lancinante grito

rasgou a treva e dói nos longes do horizonte.

 

O teu amor, na dor da perda nos perdeu.

O desencontro impôs só os caminhos tristes.

Não mais, depois de ti, o dia amanheceu.

 

Resigna-te ao teu fim. Orfeu, por que resistes

ao frio do não-ser na paz que te acolheu?

Por ti, sofremos nós! Em todos nós existes!

 

José-Augusto de Carvalho

Setembro de 2002.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 22:25

 

 

Etérea, a sua voz afaga os meus sentidos.

Silêncios de emoção perfumam as carícias

das noites estivais, sulcando, diluídos,

as flores dos jardins suspensos das delícias.

 

São olhos-de-água e sede as pérolas brotando,

multímodas na cor, murmúrios de oração...

Suspiram madrigais as pétalas arfando,

sortílego rubor de encanto e sedução...

 

Em manto verde e fofo, a erva se espreguiça,

do chão, olhando o céu, num êxtase absoluto...

A rima beija o verso e toda se derriça

no manso baloiçar de apetitoso fruto...

 

Meus olhos semicerro e as lágrimas, caindo,

escrevem no meu rosto este poema lindo...

 

 

José-Augusto de Carvalho

10 de Novembro de 2003.

Várzea, S. Pedro do Sul, Portugal



publicado por Do-verbo às 22:14

 

 

 

Naqueles tempos incertos,
vieram as grandes fomes,
agudizando a paixão
de séculos de calvário.
 
 
As notícias que chegavam,
traziam, de longe, o sangue
e os escombros amassados
de dor, metralha e desgraça.
 
 
Para cá dos Pirenéus,
a mordaça dos tiranos
impunha o silêncio e a paz
de grades e cemitérios.
 
 
A cobiça dos Senhores
alardeava as vitórias
de assassinos e verdugos
de um império de mil anos.
 
 
E o medo gerava o medo...
E os passos da delação
silenciavam as bocas
uivantes dos deserdados...
 
 
Daqueles tempos incertos
há ainda os estertores...
Quem não viveu esses tempos,
mantenha-se em guarda e evite
perversas ressurreições!...
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 2 de Setembro de 1996.


publicado por Do-verbo às 18:52

 

De mar em mar, as quilhas temerárias

vergaram medos, mitos e procelas!

E os novos mundos, ao sabor das velas,

ao sonho deram dimensões lendárias.

 

E cada nau rumava mais distante,

num transe de aventura e de miragem!

Em cada vela, o símbolo e a mensagem

do verbo feito carne, agonizante...

 

Um povo que se erguia e transcendia,

cumprindo, por missão e por vontade,

o voto de rasgar da vista as vendas...

 

Chegou ao longe mais além que havia!

Nas pedras esculpiu a claridade:

padrões que deram vida a novas lendas!

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 19 de Março de 1996.



publicado por Do-verbo às 18:20

 

 

1.

No princípio, o verbo quis,

em conjugações obscuras,

ser grão e depois raiz

do chão projectando alturas...

 

Desnudo, no paraíso,

o par de divina essência

cantava, no tom preciso,

o elogio da indolência.

 

Do seu cume imperativo

e projectando o perfil

pelas lonjuras de anil,

deus olhava o par cativo.

 

E, certo da tentação,

provocou a transgressão.

 

2.

Expulso do paraíso

no primeiro alvorecer,

era ainda um improviso

a vida que houve de ser.

 

Adão pesou, pensativo,

o gesto da divindade

e a condição de ex-cativo,

encontrada a liberdade.

 

E naquela antemanhã,

que mal podemos supor,

percebeu por que a maçã

tinha um estranho sabor:

 

o sabor da inteligência

acordando a consciência.

 

3.

Pródiga era a natureza!

Tudo dava, hospitaleira...

Viver era uma beleza,

sem transtorno nem canseira.

 

Sentia às vezes saudade

do paraíso perdido...

Mas fora a sua vontade:

assim tinha decidido.

 

Lá, tinha que obedecer,

ser aplicado no estudo

e ouvir e não rebater...

 

A liberdade era assim:

não se podia ter tudo

dentro ou fora do jardim...

 

4.

Sem armas e sem abrigos,

um ninho nos ramos altos,

prevenia os sobressaltos

dos mais diversos perigos.

 

Nessa arte da construção

imitou os primos símios,

que eram astutos e exímios,

arquitectos de eleição.

 

Gozando a paz absoluta,

descobriu ser bom pensar:

e concluiu que uma gruta

era o lar a conquistar,

 

por ser melhor tal intento

do que viver ao relento.

 

5.

Um dia, o par decidiu

o que há de mais natural:

Eva emprenhou e pariu

o pecado original...

 

E do seu cálido ninho,

recendendo a puridade,

foi descoberto o caminho

terrestre da humanidade.

 

E tudo assim sem alarde,

nem hosanas nem prebendas...

Não foi cedo nem foi tarde.

Depois vieram as lendas,

 

vestindo de cor e rito

o simbolismo do mito.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana + Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:13

 

 

 

Não mais o tempo em mim contou as horas.

O tempo-convenção é a medida

dos ritmos, das angústias, das demoras

caindo nas valetas, sem guarida.

 

O tempo sem medida, o tempo todo,

raiado de matizes de infinito,

acima está da náusea deste lodo,

lá onde o gosto a fel é interdito.

 

Descer ao tempo ignaro, ao ventre escuro,

de escórias prenhe, é reduzir o ser

ao magma informe e frio de um monturo,

representar a farsa do não-ser...

 

Meu tempo, que sem portas e sem horas,

em mim, noivado lírio, livre moras...

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:02

 

 

Os Pirenéus são a fronteira natural.

Aquém se estende a Ibéria...

...deslumbrando-se nos poentes incendiados

donde lhe acena o Novo Mundo!

...encantando-se nos mistérios do Meio-dia,

onde adivinha maravilhas de ébano

e rotas salgadas de pimenta e canela!

 

Lê nas estrelas o destino da largada!

O pátrio solo ibérico apenas é o cais,

o cais determinando a partida inevitável

para o mundo ignoto que chama, chama, chama!...

 

É a predestinação!

 

E vai, sobre as ondas lavadas de aventura e liberdade,

abraçar o longe, que mora além do medo e da renúncia!

 

E deixa para trás as terras de Espanha

e as areias de Portugal!

 

No cais da largada,

ficam as viúvas do medo acenando o adeus soluçante,

que será ou não o adeus de nunca mais!

 

Os lenhos singram ligeiros nas rotas da tontura!

Os mastros gemem, gemem... mas não quebram!

As velas, prenhes de longe e de evasão,

voam na distância, mais e mais!

 

E os lenhos enfrentam o Cabo Não!

E dobram o Cabo Não!

E vão até ao Fim do Mundo!

 

Além dos Pirenéus, expectante,

 um mundo outro que escolhera ficar,

assumindo a separação definitiva.

 

 

José-Augusto de Carvalho

5 de Agosto de 2008.

Viana do Alentejo *Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:12

 

 

 

 

O músculo cardíaco bombeia.

Num tique-taque, a morna melopeia...

  

Nas têmporas, palpita o sangue vivo,

correndo o corpo todo numa ronda.

Sustenta, aquece, alaga e atento sonda,

instante, num vaivém imperativo.

 

Não pára o seu labor e não reclama

por horas de descanso ou regalias.

Só quando eu ajo contra mim me chama,

vergando perigosas ousadias.

 

Num dia por haver, quando será?,

exausto do labor ou agredido,

meu tempo de existir silenciará

e nada, além de mim, fará sentido...

 

 

José-Augusto de Carvalho

23 de Outubro de 2005.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 15:49

 

 

 

 

 

 

Ressoam, no meu peito, ausências e amarguras.

Os ecos do teu livro em mágoas e de mágoas...

Em cada pôr de sol. há mágoas e eu alago-as

com águas a brotar das fontes das rupturas.

 

As nuvens, ágeis, vão velozes, em tropel...

As árvores, erguendo os braços, querem tê-las,

numa ânsia de matar a sede e de trazê-las

para os abismos onde as águas são de fel.

 

Sinto na boca o gosto amargo da mentira.

E a náusea de existir, encarcerada em lama,

da mágoa deste chão, teu corpo ainda inflama.

E eu quero-me imolar numa sagrada pira.

 

Ah, Flor da minha terra, habita, Bela, em nós!

Nos nossos ais, ressoa e vive a tua voz!

 

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana * Évora * Portugal

*** 

Florbela de Alma da Conceição Espanca nasceu no Alentejo,

em Vila Viçosa, distrito de Évora, no dia 8 de Dezembro de 1894,

e morreu, em Matosinhos, em 1930, na madrugada do seu 36º. aniversário.

A sua primeira obra, «Livro de Mágoas», foi publicado na cidade do Porto, em 1919.



publicado por Do-verbo às 15:29

  

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus, não seja já!

 

Casimiro de Abreu, poeta brasileiro 

 

 

 

Senhor, não me deixaste

morrer na flor dos anos...

E assim me condenaste

à sanha dos tiranos...

 

Os ombros me vergaste

com o peso dos anos...

E assim me abandonaste,

sem fé, aos desenganos...

 

Quando o barro moldaste,

os meus sonhos criaste,

divinos e profanos...

 

Uniste a flor à haste!

Depois a desfolhaste

com a ira dos humanos! 

 

 

José-Augusto de Carvalho

In «vivo e desnudo», 1986, pag. 42



publicado por Do-verbo às 15:17

 

1

Eram belas, no céu, as estrelas!

Vinha longe a manhã... e era dia!

Poder vê-las... poder merecê-las...

Que delírio de cor florescia!

 

Era amante a ternura do vento,

afagando a liberta raiz...

Era o tempo do pão e do alento,

a sagrar, na verdade, a matriz.

 

As crianças brincavam, na rua...

As mulheres choravam, felizes...

Esta terra era minha, era tua...

Das feridas, tão-só, cicatrizes.

 

De olhos torvos, querendo entender,

os mastins, sem poderem morder...

 

2

Espingardas e cravos florindo

garantiam a todos a paz...

"Nunca mais voltaremos atrás"

era o grito do sonho tão lindo!

 

O poder era o povo e crescia...

Era a vida cumprindo a promessa...

Era o tempo do tempo com pressa,

que corria, corria, corria...

 

Era o sangue escaldante, nas veias...

Era a sede de todas as fontes...

Eram vales, planícies e montes,

horizontes sem dor nem cadeias...

 

Eram cravos de sonho florindo...

O poema mais lindo... mais lindo!

 

3

Na candura, a nudez sem idade,

a cantar a ternura do enigma,

de si mesma se fez paradigma

da grandeza da luz-claridade.

 

Claridade de nós, de mãos dadas,

ser de todos o todo que temos,

da fartura do pão que comemos

às crianças de sonhos perladas.

 

Só que presa não rima com fera...

Só que vida não rima com morte...

Só que o verso de puro recorte

sempre o zoilo indecente lacera...

 

E novembro chegou, prussiano...

e gorou o sonhar lusitano.

 

 

José-Augusto de Carvalho

13, 14 e15 de novembro de 2003

Várzea, São Pedro do Sul, Portugal



publicado por Do-verbo às 14:59
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