Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

 

 

 

Cidadão vulgar deste país,

tenho sonhos de Abril e pesadelos de Novembro.

 

Da noite sem estrelas nem luar,

guardo a tristeza da escuridão

e os sobressaltos do medo

de ser aqui a renúncia de mim.

 

Por caminhos de malandar,

gastei metade da vida...

De outros caminhos eu soube,

mas nunca os quis para mim.

 

Panteísta por desígnio da esperança,

sempre entrevi as flores silvestres

atapetando as estradas da vida...

 

Na madrugada de um Abril já distante,

soube da cidade a despertar

e do milagre das flores encravando os canos das espingardas

com aromas de fraternidade.

Maldesperto, vi o clarear do dia e acreditei...

Acreditei na primavera.

 

E, na Barca da Esperança, lá fui,

sobre as ondas da liberdade!

E quando ventava rijo,

a barca estremecia, mas ia...

 

Ah, mas uma noite,

os vigias de quarto não souberam ler o mar!...

E o homem do leme,

porque não quis ser mais do que ele,

temeu o mar e rendeu-se aos escolhos de Novembro.

 

Na noite do pesadelo,

quando o vento sopra rijo,

ainda se ouvem os gritos dos náufragos da Barca da Esperança...

 

 

José-Augusto de Carvalho

3 de Agosto de 2008.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 19:04
 
 
A Praça do Desplante está vazia.
Apenas o cansaço do pregão
do velho cauteleiro, que porfia
na venda da miragem da evasão...

Quem passa, afasta a sorte com um gesto.
O gesto de quem diz não vale a pena!
E o velho aceita o não sem um protesto
ou um esgar de continência obscena.

E vai, por entre as sombras, à deriva,
oferecendo a sorte, no vazio
sonâmbulo da Praça do Desplante...

Mas ninguém quer a grande, a grande esquiva!
E as sombras, num instante rodopio,
aguardam que outro Dante as saiba e cante...
 


José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2008
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 18:46

 

Hoje, um manto de nuvens cinzentas

anuncia o dilúvio aos gentios.

E sem barca, ai de nós!, que tormentas

no devir de fatais desvarios!...

 

E de pombas, no céu, nem sinal!

É de sombras a noite que cai!

Que profano juizo final

tão distante do Monte Sinai?

 

E esta fé, o que faço com ela,

se a distância que maladivinho

das cortinas da minha janela

só de nada atapeta o caminho?

 

Do delírio dos cravos em festa,

o que resta? O que resta? O que resta?

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Junho de 2008.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 18:38
 
Aqui, na verdade de nós encontrada,
matámos a fome de maio maduro!
Aqui, na amargura da terra ultrajada,
aprendemos nunca ter medo de nada,
cantando horizontes sem grades nem muros!

 
Aqui, na verdade de nós perturbada,
sentimos o enleio mais terno e mais puro
da noite dos cravos parindo a alvorada!
Aqui, libertámos a vida adiada,
numa ânsia em delírio de ser e futuro!
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1975.


publicado por Do-verbo às 18:21
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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