Domingo, 28 de Novembro de 2010

                                                                                                          Para Vasco Massapina

O espaço é o desafio.

A mão, trémula e suspensa,
é, no gesto, a forma densa
a esventrar o vazio.
 
Hirtos e determinados,
o esquadro, a régua, o compasso,
ansiando pelo traço
de esboços adivinhados.
 
A mente, num turbilhão,
aguardando o golpe de asa,
cresce, avassala e abrasa
e encandeia, num clarão.
 
O sonho o milagre tece...
Céus, e o homem acontece!


José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 22:07

  

 

Os corpos insepultos e os abutres...

Carnificina e horror de que te nutres!

Na escuridão do medo, ecoam gritos.
No cimo, errantes, tremeluzem astros.
No chão doído, informes, os detritos,
anúncio e precedência doutros rastros.
 
No céu, se evola, em mancha nebulosa,
suspensa sobre a lei da gravidade,
o magma, que na via dolorosa,
expia condição e claridade.
 
No circo, a turba exalta, em sangue, o trono.
César exibe a túnica escarlate. 
Na arena, em agonia e abandono,
as levas condenadas ao abate.



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 21:50

 

 

Vestiram-te de pedra, exímios, os cinzéis.

Assim se prolongou a carne, o sangue, a chama...

A plástica escultura, emoldurando anéis

Em torno do que foi, saudade agora e fama.

 

Saudade que terás deixado em quem te amou.

A gratidão plural prestando-te homenagem.

A força no poder que em pedra te exaltou.

Perpétua veleidade em gélida miragem.

 

Do meu amor não tenho o rosto empedernido...

Nenhum cinzel talhou as curvas do seu rosto...

Nem fama nem anéis, só um ferido olvido

de lágrimas e pedra esculpe o meu desgosto.

 

Não grito nem protesto, encontro a diferença

dos homens ante o fim. Somente a diferença...

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Novembro de 2002.

Porto Alegre * Rio Grande do Sul * Brasil.



publicado por Do-verbo às 21:40

 

 

A dúvida instalou-se

e o seu peso opressivo

consigo o fel me trouxe

dum perpétuo cativo.

 

Ser, não-ser, a questão

 que Hamlet angustiou

e é hoje esta prisão

a que me condenou.

 

Com a grilheta infame,

em chaga os tornozelos,

esta deriva arrasto

 

até que o fim me chame

e mate os pesadelos

do pó que quis ser astro.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1982



publicado por Do-verbo às 17:06

 

O leite e o mel, as delícias

decantadas do Jardim...

As origens adventícias

e subvertidas de mim...

 

Sou e existo porque vim.

Quantas certezas fictícias,

esculpidas no marfim,

doem mais do que sevícias!

 

Mitologias propícias

ao meu delírio de mim,

porque não foram mas disse-as,

decantaram o Jardim!

 

Que doído encantamento

vivo e sou porque me invento!

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1980.



publicado por Do-verbo às 16:46

 

 

 

Nas asas das bordoletas,

há matizes deslumbrados

dos teus olhos evadidos...

 

Nas tuas mãos inquietas,

há gestos adivinhados

de bailados proibidos...

 

Quando o rouxinol poeta

deixa entrever a centelha

do seu talento encantado,

 

na tua boca vermelha,

uma promessa secreta

é um grito sufocado...

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1969



publicado por Do-verbo às 16:31

 

 

 

Mergulhamos na noite do tempo as raízes

do não-ser e do ser a florir cicatrizes.

 

Há no pó das estradas o sulco traçado

pelos pés caminheiros rumando o futuro...

Há batalhas perdidas do sonho adiado

que incendeiam o céu e que esventram o escuro...

 

Soam gritos nas trevas e a noite agoniza

empapada de sangue de fulvos matizes...

A manhã amanhece à hora precisa!

Projectamos no longe do tempo as raízes...

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1986.



publicado por Do-verbo às 16:20

  

 

 

Desce,

da neblina

da vertigem,

à origem.

E germina,

cresce

e floresce.

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana do Alentejo * Évora * Portugal

In «arestas vivas», 1980



publicado por Do-verbo às 12:48

 

 

  Casa do Alentejo

 

Lisboa, 27 de Junho de 2009.

 

   

Se lançar este meu livro nesta muito amada cidade de Lisboa já é um privilégio, duplo privilégio é estar sob estes tectos da Casa do Alentejo, marco incontornável da presença alentejana na capital do país.

Bem-hajas, Lisboa, minha amada cidade de acolhimento!

Bem-hajas, Casa do Alentejo, presença física do meu Alentejo pátrio!

Estas são as minhas primeiras palavras, naturalmente de sentida gratidão.

Também estas outras de agradecimento são para os poetas e editores Xavier Zarco e Paulo Afonso Ramos, por terem acreditado na edição de «Do Mar e de Nós»

Bem-hajam, Companheiros!

Neste livro, editado sob a chancela de Temas Originais, e, agora, apresentado pelo poeta Xavier Zarco, há a nostalgia do mar e dos nossos antepassados, que, intrepidamente, quiseram, puderam e souberam projectar a Pátria para muito além dos limites estreitos, geograficamente definidos nesta faixa ocidental da Ibéria. 

Desses homens grandes, nossos antepassados, disse Camões, lapidarmente, que da inexorável Lei da Morte se libertaram. E muito justamente, porque foram eles que ergueram uma Pátria que ganhou o respeito e a admiração do Mundo. E, como poucos, cumpriram-se como homens. 

Raramente os mereceram os governantes da época. E, menos ainda, os cortesãos, que, nos corredores do Paço, alimentando-se de sinecuras e de ócio, sempre se entretiveram com intrigas e invejas, anunciando a «apagada e vil tristeza» de que Camões também amarguradamente nos fala.

A esses governantes e validos remonta a mediocridade cinzenta e mesquinha que haveria de perdurar por séculos, para desgraça da Pátria e desgosto de quem tudo deu por ela.

As viúvas e os órfãos, com as suas lágrimas, mais salgaram ainda o salgado mar.

Os avisados Velhos do Restelo não foram ouvidos, mas nem os excessos nem os erros poderão empequenecer a glória de que muito nos orgulhamos.

Não há saudosismo em quanto digo, apenas, sim, há o desgosto de não mais termos conseguido fazer por merecer tamanha grandeza. E aqui me socorro de Fernando Pessoa que, na sua «Mensagem», apela a que busquemos, hoje, de novo, a distância. E cito de cor: «Do mar ou outra, mas que seja nossa!»

E se conquistarmos, hoje, uma outra distância, poderá ser um objectivo de realização deveras problemática, um outro, de mais exíguas proporções será o de contribuirmos para a possível preservação da presença pátria nos quatro cantos mundo, obtida que seja a devida autorização das autoridades governamentais dos países onde ainda nos perpetuamos.

Admito que sejam escassos os nossos recursos financeiros, mas não o serão os recursos humanos. Há muitos portugueses aposentados que de bom grado rumariam a essas pa-ragens e se ocupariam, quase sem custos acrescidos, do muito que há a fazer. Assim as autoridades pátrias o reclamem.

Como aposentado, digo: presente! E sei que não estou sozinho!

Finalizando:

 Não sei como será recebido este livro. Até poderá ser entendido como um malamanhado ramalhete de versos. Que seja! Não busco louros nem nunca enverguei a jactância de me considerar um talento das Letras pátrias.

Com este livro apenas cumpro um dever de gratidão. E esta minha atitude terá de ser respeitada. É pouco o que dou? Talvez seja pouco, muito pouco, mas dei o que pude. E se mais não dei foi porque não pude mais.

Ou dizendo de outra maneira, e parafraseando Camões: Se mais pudera, mais dera! 

 

Lisboa, 27 de Junho de 2009.

José-Augusto de Carvalho



publicado por Do-verbo às 11:54
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