Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

          

          

          

             Sempre no meu peito,
          aroma da flor,
          meu amor-perfeito,
          meu perfeito amor.
 
          E sempre, na cor,
          o perfeito encanto
          da graça da flor
          que encantado canto!

          Nesta condição
          de querer-te tanto,
          quero ser o chão
          onde, em mim, te planto!
 
          Medra no meu chão,
          minha flor de encanto,
          e o meu coração
          envolve em teu manto!
 
          E quando eu me for,
          que ainda em meu peito,
          vicejes, em flor,
          meu amor-perfeito!

 
José-Augusto de Carvalho 

26 de Março de 2009.
Viana de Fochem * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 22:15

 

Vim chorar

a raiz arrancada

do meu nada

a sangrar...

Verificar

que quanto alegre ou doa

é asa que não voa

no céu vazio

e frio,

cego a contemplar...

              

 

José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1986


publicado por Do-verbo às 22:06

 

 

 

Cumprida a rotação,
marcava mais um dia o calendário.
E sempre este fadário
de versos na tristeza da canção.

 

É noite, agora? Ou dia? Quem o sabe?
Dolentes guitarradas
gemem desesperadas
no tempo do silêncio que lhes cabe.

 

A voz se solta rouca e chora o canto
fatal do sofrimento,
enquanto o xaile negro, em negro manto,
enluta o desespero do lamento.

 

E assim, no desencontro da existência,
monótona se cumpre a rotação,
sofrida no fadário da cadência
que marca o calendário da canção.

 
 
 

 

José-Augusto de Carvalho
6 de Março de 2009.
Viana * Évora * Portugal
Quadro «O Fado», do pintor José Malhoa
*
José Vital Branco Malhoa
(Caldas da Rainha, 28 de Abril de 1855 – Figueiró dos Vinhos, 26 de Outubro de 1933),
Pintor, desenhista e professor português.

 



publicado por Do-verbo às 21:49

 

 

 

Chegado ao fim da estrada,
a paz que desce, fria,
apenas pressagia
antemanhãs de nada.

Agora, o dia a dia
duma espera nevada
vestiu-se, resignada,
de ocasos de invernia.

Na pernas, o cansaço.
Nos olhos, o sem fim
esculpe, no marfim,
o impossível que abraço;

e o testemunho passo
aos outros eus de mim...

 


José-Augusto de Carvalho
18 de Abril de 2009.
Viana*Évora*Portugal



publicado por Do-verbo às 21:38
  


 

 

 

A palavra suspensa balouça   

ao sabor dos afagos da brisa

    e, num vago murmúrio, precisa

    proibidos anseios de moça...

 

    É o fruto em promessa da flor,

    suculento, a sonhar-se maduro.

    Ai, anelos do tempo futuro

    de ousadias de estios de ardor!

 

    E a palavra é mulher e fascina!

    E o feitiço entontece e cativa!

    E o poema, nas formas a haver,

 

    encandeia-se na tremulina

    que, gaiata, se dá e se esquiva,

    balouçando entre o ser e o não-ser...

 

 

José-Augusto de Carvalho

21 de Março de 2009.

Viana de Fochem*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 21:29
 

Saudade, Mãe, que saudade
do teu regaço-meu ninho!
Eu fui, na tua verdade,
vertigem doutro caminho...

De olor e cor, fui a flor
mais linda do teu jardim...
Nem o génio de um pintor
criou uma flor assim...

Só na fragrância
do  meu altar de saudade
a minha infância
vive na tua verdade…

Ousando a Vida,
hoje, sozinho, caminho,
sem a guarida
já perdida do meu ninho.



José-Augusto de Carvalho

25 de Junho de 2006.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
Música de Maria Luísa Serpa



publicado por Do-verbo às 16:50

  

 

Neste poço há uma nora

de alcatruzes de saudade,

onde ainda o tempo chora

o candor de Sherazade...

 

A princesa muçulmana

sobrevive enfeitiçada

nestas terras de Viana,

numa nora abandonada...

 

Numa nora abandonada,

nestas terras de Viana,

sobrevive enfeitiçada

a princesa muçulmana...

 

É quando o vento suão

até à sombra assa canas,

que dói mais a solidão

nas terras alentejanas

 

 

José-Augusto de Carvalho

6 de Abril de 2006.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:05

 

Já estava no meu posto

quando o dia mal rompia…

E, o patrão, a contragosto,

ao sol-pôr, findava o dia…

 

Para além de água e de pão,

tive sede e tive fome,

que também se bebe e come

quer Justeza, quer Razão…

 

De Justeza e de Razão,

que também se bebe e come,

tive sede e tive fome

e não só de água e de pão…

 

Engelhado de cansaço,

hoje, sou esta memória…

Se na vida apenas passo,

que não passe a minha história…

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Abril de 2006.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 15:57

  

 

Na torre batem as horas.

Nem viv'alma pelas ruas.

Amor, por que te demoras

e esta saudade acentuas?

 

No meu peito, dói a espera.

Um nó me aperta a garganta.

Não pode haver primavera

se o passarinho não canta.

 

Se o passarinho não canta,

não pode haver primavera,

Um nó me aperta a garganta.

No meu peito, dói a espera.

 

Nos campos não há trigais...

E sem trigo não há pão!

Meu amor, não tardes mais,

que morro de solidão!

 

 

José-Augusto de Carvalho

10 de Março de 2006.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal

Música de Maria Luísa Serpa Escrito



publicado por Do-verbo às 15:49

  

De Viana trago o canto
dos encantos do Alentejo,
desde o pão sofrido e santo
às açordas de poejo…
 
Trago o sol que doura a vinha
no calor do mês de Agosto
e o sabor que se adivinha
quase vinho, ainda mosto…
 
Quase vinho, ainda mosto…
Que sabor que se adivinha,
ao calor do mês de Agosto,
quando o sol nos doura a vinha!

Nas ribeiras há pardelhas;
Nas barragens, achegãs.
Estas terras, de vermelhas,
sangram todas as manhãs!...

 



José-Augusto de Carvalho
13 de Março de 2006.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
Música de Maria Luísa Serpa



publicado por Do-verbo às 15:42

  

 

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Na caixa postal agora criada, será arquivado todo o correio recebido e expedido.
Espero e desejo que este espaço seja de reflexão, na verdade de nós, e de afirmação, na certeza de nós.
Este blog pretende ser um cais de partida e de chegada; um espaço de encontros e de desencontros; um lugar de aceitação e de recusa.
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Até sempre!


publicado por Do-verbo às 14:52
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