Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

 

 

 

 

No silêncio das cinzas, murmura,

insubmissa, a palavra.

Rasga a terra da chã sepultura

e os adis que a renúncia não lavra.

 

Clandestina, no arder do suão,

vem e queima estes barros de Beja!

E o Inferno que morre de inveja

por não ter tão dorida aflição!

 

Os caminhos levaram a vida

e a fatal deserção ultrajou

esta pátria p'lo sonho banida

porque os filhos, megera, enjeitou.

 

Que esperança de ultrajes exangue

se levanta, entre espasmos, enquanto,

nos adis empapados de sangue,

amaduram searas de espanto?

 

E na fome de pão

e na sede de vinho

esta força do não

a rasgar o caminho!...

 

 

José-Augusto de Carvalho

18/20 de Junho de 2009.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 18:22

 

 

Das cinzas do tempo, evadem-se os sinais...

 

Será Nero declamando os seus poemas medíocres

às chamas que devastam Apolo e Roma?

 

Será Petrónio burilando a elegância do verbo,

enquanto acaricia as veias que irá cortar?

 

Serão as sombras ignaras do pão e circo

expulsas pelo remorso dos tempos

do sossego do nada onde apodreceram?

 

Ou serei eu, aqui, a reinventar o pesadelo

do martírio intemporal dos impérios?

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Agosto de 2008.

Viana  * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:02

 

  

 

 

Eu tive muitos mestres.

Diversos no saber, com eles aprendi

do quanto apetecia ao quanto recusava.

 

Em tempo de escolher, apenas minha fiz

a parte por bastante --- o quanto apetecia.

O todo recusei.

 

A dívida de mim

é dar-me, por bastante,

apenas o que eu quero!

 

E eu quero ver a luz do sol e a tremulina!

Sentir o corpo quente e a vista encandeada!

 

A fome em que morri e de que renasci,

matá-la nos trigais,

ao lado dos pardais que pousam, atrevidos,

nos velhos espantalhos

que não receiam mais.

 

Eu quero ver a luz que logo p’la manhã

quer tudo incendiar

e disputar ao sol a sede duma gota

puríssima de orvalho!

 

Eu tive muitos mestres.

E a mestre não cheguei porque só quis saber

a parte por bastante,

o quanto apetecia…

 

 

José-Augusto de Carvalho

1996, Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:53
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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