Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
 



No te dieron el derecho de coger amapolas
en todos los caminos de tu tierra.
 
Para ellos,
el derecho que querias de vivir en paz
era el peligro de la luz sobre las tinieblas...
 
Ay, las tinieblas hijas de la muerte
y amantes de todos los asesinos!
 
Ya no llueve en Santiago!
El cielo ha secado todo su llanto!
Y los ecos de tus canciones se han perdido
en las alas heridas del cóndor
subyugado por los bandoleros.


 
José-Augusto de Carvalho
9.12.2007

Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 23:50

 

 

É quando as sombras descem sobre a luz

e a vida já não pode ser mais nada
que, em ânsia de infinito, tremeluz
a paz, por dor e lágrimas velada.
 
 
Aqui, por entre flores de saudade,
sublimo a perfumada nostalgia
do sonho que se quer eternidade,
em arrebois de amor e poesia.
 
 De ti, ficou, em nós, perene, o canto,
a parte que te coube da beleza
p'lo Céu doada a todos os poetas.
 
 
Em ti, ficou, de nós, doído, o pranto
que levas, por alturas de incerteza,
nas tuas asas livres e inquietas.

 
  
José-Augusto de Carvalho
24 de Fevereiro de 2006.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 23:44

 

 

Cuando los asesinos mataron al poeta,
el reloj señalaba la hora cero.

El poeta se muere siempre en la hora cero.

Cuando el tiempo queda yerto
y las palabras rechazan la melodía de la ternura
el poema es imposible.

Cuando el reloj señala la hora cero,
el poema es imposible.

Cuando el poema es imposible
ni paraíso ni infierno pueden existir.

Cuando el poema es impossible,
la sangre llora la nada.

La sangre del poeta asesinado lloró la nada
en mi corazón.



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 24 enero 2006.



publicado por Do-verbo às 23:39
 

Os deuses e os demónios querem sangue!
No mundo, ergueram, ímpios, os altares.
Um homem justo mais tombou exangue...
Irmão, mais um sinal p'ra meditares!

O tempo da discórdia trouxe as iras.
Quem nega, agora, a lei da causa-efeito?
Arautos de vergonhas e mentiras,
com agressões e bombas de ódio ao peito!

E as vítimas são sempre os inocentes,
as dores de um calvário que não cessa,
o vil metal das trocas indecentes.

Irmão, Amigo, Exemplo, tão depressa
te privam do amor das tuas gentes!
Contigo morre mais uma promessa.





José-Augusto de Carvalho
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 23:33

 

 

Tú miraste el carmín de las mañanas,

encendido en los pechos libertarios

de los hombres cargados de futuro!
 
Y viniste,
por los rumbos abiertos por la sangre,
en las noches oscuras
de mujeres sin hombres, 
de los hijos del miedo,
de los viejos que estan de màs para tener esperanzas.
 
Y viniste,
con tu sed adyacente, a sumergirte
altas olas
de la mar de ansiedad y de peligros.
 
Y viniste,
con la luz de la dádiva,
y caíste
en la tierra lejana que quisiste tuya.

 
José-Augusto de Carvalho
22 de Dezembro de 2007.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 19:14

 

 

 
 
 
 

 

 

 

O músculo cardíaco bombeia.

Num tique-taque, a morna melopeia...

 

Nas têmporas, palpita o sangue vivo,

correndo o corpo todo numa ronda.

Sustenta, aquece, alaga e atento sonda,

instante, num vaivém imperativo.

  

Não pára o seu labor e não reclama

por horas de descanso ou regalias.

Só quando eu ajo contra mim me chama,

vergando perigosas ousadias.

 

Num dia por haver, quando será?,

exausto do labor ou agredido,

meu tempo de existir silenciará

e nada, além de mim, fará sentido...

 

  

José-Augusto de Carvalho

23 de Outubro de 2005.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:46

 

 

 
 
 
 

 

 

 

Sempre no meu peito,

aroma da flor,

meu amor-perfeito,

meu perfeito amor.

 

E sempre, na cor,

o perfeito encanto

da graça da flor

que encantado canto!

 

Nesta condição

de querer-te tanto,

quero ser o chão

onde, em mim, te planto!

 

Medra no meu chão,

minha flor de encanto,

e o meu coração

envolve em teu manto!

 

E quando eu me for,

que ainda em meu peito,

vicejes, em flor,

meu amor-perfeito!

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

26 de Março de 2009.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:40

 

 

 

 

 

 

 

Cumprida a rotação,

marcava mais um dia o calendário.

E sempre este fadário

de versos na tristeza da canção.

 

É noite, agora? Ou dia? Quem o sabe?

Dolentes guitarradas

gemem desesperadas

no tempo do silêncio que lhes cabe.

 

A voz se solta rouca e chora o canto

fatal do sofrimento,

enquanto o xaile negro, em negro manto,

enluta o desespero do lamento.

 

E assim, no desencontro da existência,

monótona se cumpre a rotação,

sofrida no fadário da cadência

que marca o calendário da canção.

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

6 de Março de 2009.

Viana * Évora * Portugal

 

 

Quadro «O Fado», do pintor José Malhoa 

José Vital Branco Malhoa

(Caldas da Rainha, 28 de Abril de 1855 –Figueiró dos Vinhos, 26 de Outubro de 1933),

Pintor, desenhista e professor português.



publicado por Do-verbo às 17:29

 

 

 

Etérea, a sua voz afaga os meus sentidos.

Silêncios de emoção perfumam as carícias

das noites estivais, sulcando, diluídos,

as flores dos jardins suspensos das delícias.

 

São olhos-de-água e sede as pérolas brotando,

multímodas na cor, murmúrios de oração...

Suspiram madrigais as pétalas arfando,

sortílego rubor de encanto e sedução...

 

Em manto verde e fofo, a erva se espreguiça,

do chão, olhando o céu, num êxtase absoluto...

A rima beija o verso e toda se derriça

no manso baloiçar de apetitoso fruto...

 

Meus olhos semicerro e as lágrimas, caindo,

escrevem no meu rosto este poema lindo...

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

10 de Novembro de 2003.

Várzea, S. Pedro do Sul, Portugal



publicado por Do-verbo às 17:23

 

 

Poeta, quem és tu, que tanto delicias

a bela Poesia, em êxtases extremos?

És tu, Orfeu, a quem nós todos nos devemos,

que regressaste à vida em cantos de magia?

 

 

Eurídice morreu. A barca de Caronte

ao Hades a levou. Deixou-nos o seu mito.

Não queiras mais sofrer. Teu lancinante grito

rasgou a treva e dói nos longes do horizonte.

 

O teu amor, na dor da perda nos perdeu.

O desencontro impôs só os caminhos tristes.

Não mais, depois de ti, o dia amanheceu.

 

Resigna-te ao teu fim. Orfeu, por que resistes

ao frio do não-ser na paz que te acolheu?

Por ti, sofremos nós! E em todos nós existes!

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Setembro de 2002.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:01

 

 

 

 

 

O tempo que me coube são as horas

marcadas no relógio do teu peito,

exactas, sem angústias nem demoras,

suaves nesse altar de amor perfeito.

 

No tempo, sejam horas ou desoras,

teus braços são o ninho em que me deito,

teus olhos são as rútilas auroras

que inundam de manhãs o nosso leito.

 

São estas horas certas que entreteces,

determinando o tempo singular,

que dão à vida a plena dimensão.

 

Ah, tempo, que de vida me esmaeces!

Consente que os meus anos, no passar,

sublimem este mel no coração.

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

12 de Setembro de 2004.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:54

 

 

 

 
 
 
 

 

 

 

Não mais o tempo em mim contou as horas.

O tempo-convenção é a medida

dos ritmos, das angústias, das demoras

caindo nas valetas, sem guarida.

 

O tempo sem medida, o tempo todo,

raiado de matizes de infinito,

acima está da náusea deste lodo,

lá onde o gosto a fel é interdito.

 

Descer ao tempo ignaro, ao ventre escuro,

de escórias prenhe, é reduzir o ser

ao magma informe e frio de um monturo,

representar a farsa do não-ser...

 

Meu tempo, que sem portas e sem horas,

em mim, noivado lírio, livre moras...

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 16:46
Adão e Eva. Mabuse, Século XVI
 

 

1.
No princípio, o verbo quis,
em conjugações obscuras,
ser grão e depois raiz
do chão projectando alturas...

Desnudo, no paraíso,
o par de divina essência
cantava, no tom preciso,
o elogio da indolência.

Do seu cume imperativo
e projectando o perfil
pelas lonjuras de anil,
deus olhava o par cativo.

E, certo da tentação,
provocou a transgressão.


2.
Expulso do paraíso
no primeiro alvorecer,
era ainda um improviso
a vida que houve de ser.

Adão pesou, pensativo,
o gesto da divindade
e a condição de ex-cativo,
encontrada a liberdade.

E naquela antemanhã,
que mal podemos supor,
percebeu por que a maçã
tinha um estranho sabor:

o sabor da inteligência
acordando a consciência.


3.
Pródiga era a natureza!
Tudo dava, hospitaleira...
Viver era uma beleza,
sem transtorno nem canseira.

Sentia às vezes saudade
do paraíso perdido...
Mas fora a sua vontade:
assim tinha decidido.

Lá, tinha que obedecer,
ser aplicado no estudo
e ouvir e não rebater...
A liberdade era assim:

não se podia ter tudo
dentro ou fora do jardim...


4.
Sem armas e sem abrigos,
um ninho nos ramos altos,
prevenia os sobressaltos
dos mais diversos perigos.

Nessa arte da construção
imitou os primos símios,
que eram astutos e exímios,
arquitectos de eleição.

Gozando a paz absoluta,
descobriu ser bom pensar:
e concluiu que uma gruta
era o lar a conquistar,

por ser melhor tal intento
do que viver ao relento.


5.
Um dia, o par decidiu
o que há de mais natural:
Eva emprenhou e pariu
o pecado original...

E do seu cálido ninho,
recendendo a puridade,
foi descoberto o caminho
terrestre da humanidade.

E tudo assim sem alarde,
nem hosanas nem prebendas...
Não foi cedo nem foi tarde.
Depois vieram as lendas,

vestindo de cor e rito
o simbolismo do mito.

 

 


José-Augusto de Carvalho



publicado por Do-verbo às 16:40
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