Domingo, 29 de Novembro de 2009
 
 
 
 
Cultivo tantos eus no sacro chão de mim!
E, tantos, são um só, em êxtases dispersos…
Farpelas de burel ou mantos de cetim,
são peregrinos de alma os ecos dos meus versos.

A ventania açoita os caules indefesos…
Regela, em agressões, o tempo de invernia…
Meus ombros, de cansaço exaustos, sob os pesos
que escurecendo vão promessas de áureo dia…

O tempo da colheita é tempo sazonado.
Semente germinada, ousada na raiz,
incerto, o caule tenro em haste transformado,
abraça, sem pudor, as ervas dos adis.

No topo, assoma, verde e tímido, o botão…
Cumprido o ciclo, a flor perfumará meu chão?
 

José-Augusto de Carvalho
7 de agosto de 2004
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
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publicado por Do-verbo às 12:08
 
 

 

Às vezes sinto que a palavra apouca
o tanto que queria fosse dito…
É quando o desespero me abre a boca
e tudo se liberta num só grito.



 
Um grito que ressoa além de mim,
e vindo das angústias ancestrais,
abarca, do princípio até ao fim,
anseios tão de menos, tão de mais…



 
Não quero ser de mais, nem ser de menos.
Apenas eu, aqui, no tempo certo.
Saber que sermos grandes ou pequenos
é porque estamos mais ou menos perto.



 
É sempre a perspectiva do meu grito
que tolhe o que calei, o que foi dito…

 

 
 
 
José-Augusto de Carvalho
10 de maio de 2005.
Viana * Évora * Portugal
 
 
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publicado por Do-verbo às 12:02
 
 
 
As muralhas e a torre
de menagem…
O passado percorre,
assombrado, a paisagem…
 
Que relógio parado
este tempo lacera?
Que caminho assombrado
só esta angústia gera?
 
Que mentira projecta
o teu verbo no mito?
Que assombrado poeta,
sem asas de infinito,
fica olhando as estrelas
sem saber merecê-las?


 
José-Augusto de Carvalho
8 de Outubro de 1998.
Viana do Alentejo*Évora*Portugal
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publicado por Do-verbo às 11:56
 
 
 
 
Espaço e tempo, a dor e a sujeição
de ser, aqui e agora, em provação.

 

 
Espaço em si, limite que me tolhe,
angústia circular que me entontece,
um tempo onde o sem tempo se recolhe
e o sol não ilumina nem aquece.
 
Em derredor, as sombras são difusas.
E a noite veste luto carregado.
No povoado, as ruas são escusas;
e o uivo dos rafeiros, prolongado.


Caminho sem destino. As azinhagas,
rasgando os campos ermos, em pousio…
A fome e a sede, purulentas chagas…
Doendo o sem sentido, em desafio…
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
14 de Julho de 1998.
Viana * Évora * Portugal

 

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publicado por Do-verbo às 11:50
 
 

De sol a sol, a doer,
tudo dei ao pátrio chão,
para depois mal haver
a miséria por quinhão.

 
Vivi tempos proibidos.
Na prisão, a Liberdade.
A fome dos ofendidos
era de pão e verdade.

 
O assombro, a cada esquina,
fustigava, delator.
Os protestos, em surdina,
sufocados de amargor.

 
A tirania pesava.
E uma angústia tão doída
só a custo soletrava
uma promessa de vida!

 
O verbo era clandestino.
E, sobre a noite cerrada,
erguia a luz dum destino,
numa promessa jurada.

 
Falava de paz, na guerra…
De justiça, na opressão…
E da terra, nossa terra,
toda um milagre de pão!

 
Pão por todos repartido,
conforme a necessidade.
Conquistado e merecido
no suor da dignidade.

 
 


José-Augusto de Carvalho
27 de Fevereiro de 2000.
Viana * Évora * Portugal
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publicado por Do-verbo às 11:44
 
 

Nevado de anos, roxo de amargura,
do tempo sem memória me levanto.
Os séculos de treva e de clausura
de fel enrouqueceram o meu canto.
 
Sangrenta a crença, bárbaro o costume,
sofri as vergastadas do martírio.
Sem culpa nem perdão, em dor e lume,
morri perante as turbas em delírio.
 
Restou de mim tão pouco, um quase nada,
que vem gritar, do pó do esquecimento,
que a cinza do meu corpo dói, gelada,
à míngua do fulgor do pensamento.
 
Ampara-me o carinho que me chama
e lava a negação da minha lama.
 
 
José-Augusto de Carvalho
11 de Março de 2004.
Viana*Évora*Portugal
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publicado por Do-verbo às 11:36
 
 
 
Quem foi que sonhou comigo
gravar a sangue os perfis
de pesadelo e perigo
nos trigais e nos adis?

Quem foi que sonhou comigo
ser grão, semente e raiz
e juntar-se ao povo antigo,
sem pão, sem voz, sem país?

Quem foi que sonhou comigo
enfrentar medos e ardis
que em maldição e castigo
nos castravam nos redis?

Quem foi que sonhou comigo
e traiu o sonho antigo?
 
 

José-Augusto de Carvalho
3 de Fevereiro de 1999.
Viana*Évora*Portugal
 
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publicado por Do-verbo às 11:23
 

 
Um relógio parado
assinala
o sem tempo obstinado.
Um sem tempo que fala
duma espera,
no silêncio pesado
duma angústia severa.
 
Vai-se o dia,
vem a noite
e nenhuma ousadia
que perturbe ou açoite
o silêncio pesado
que macera,
nesta espera,
o sem tempo obstinado.
 
 

 
José-Augusto de Carvalho
27 de Outubro de 2005.
Viana*Évora*Portugal

 

 
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publicado por Do-verbo às 08:20
Desenho de José Dias Coelho
 
 

Protesto
contra as nuvens avaras
que negam às searas
a promessa da água…
 
Protesto
contra as terras incultas
onde jazem ocultas
as raízes da mágoa…
 
Protesto
contra o pão da desgraça
a sorrir a quem passa
oníricos festins…
 
Protesto
contra o céu nas alturas,
contra a terra às escuras,
contra todos os cains…
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Maio de 1997.
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publicado por Do-verbo às 07:43

 

 

 

Escravo da gleba no domínio de Fochem,

 

vagueia no nevoeiro do tempo,

 

assombrando as consciências

 

dos arautos da mentira e da infâmia…

 

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana*Évora*Portugal

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publicado por Do-verbo às 07:17

 

 

Minh’alma está ferida. A morte ronda perto.

Os homens firmam longe o curso de outros rios.

Nas horas da tragédia, erguida em calafrios,

a força noticia o mundo em tempo incerto.

 

Que sonhos de luar? Irrompem desvarios.

As portas do inferno assombram o deserto.

Os gumes dos punhais desfiam desafios…

Os homens já não são o Prometeu liberto.

 

No mundo, pereceu o sonho da criança.

Miragens de Aladim. As lendas da magia.

O tempo do sem tempo é a Mesopotâmia.

 

Os ídolos de antanho, em aras de matança,

exigem sangue, numa orgia de agonia…

Os homens já não são. Que carnaval de infâmia!

 

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Viana do Alentejo * Évora * Portugal

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publicado por Do-verbo às 06:53
 
Das cinzas do passado me levanta
quem sabe em mim o sonho e o paradigma.
Da minha terra, que é três vezes santa,
eu trouxe e nele sou instante enigma.

Eu fui e nele sou al Andalus,
o nome que então demos às Espanhas.
Al Andalus de plainos e montanhas,
de um céu que o sol doura ardendo em luz.

Eu fui e nele sou a fantasia
das mil e uma noites, de Aladim,
de génios e poetas e magia.

Eu fui e nele sou; e ele é em mim.
Se dois, nós somos um, numa alquimia
que a lei revoga do princípio e fim.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 26 de Novembro de 2007.
 
 
 
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publicado por Do-verbo às 06:46

 

 

O grito que ressoa acorda o sonho antigo.

As crinas dos corcéis ondulam anelantes.

Nas dunas do deserto em fogo onde me abrigo,

Os teus apelos de alma e coração distantes.

 

No tempo e no lugar, as sedes de outras fontes.

Em ti, o lago pleno, ocaso de afluentes.

Depois de ti, não pode haver mais horizontes.

Que mais, além de ti, se tudo em ti consentes!...

 

Escondes, sob o véu, os lábios purpurinos.

Sedentos de áurea lava, em tragos de ambrosia.

Prometes, no teu ventre, anseios levantinos.

 

Gemidos de luar de cálida estesia!

Teu grito, no meu grito, o grito definido...

Aurora recusando o tempo interrompido!

 

 

José-Augusto de Carvalho

Porto Alegre, 31.10.2002

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publicado por Do-verbo às 04:36

 

 

 

 

Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,

no sonho de Aladim, a flor da fantasia.

Sem noites de luar, o canto emudeceu

e um manto de tristeza o nada silencia.

 

O sol é um incêndio, um caos de idolatria,

que o tempo-amar-e-ser há muito corrompeu…

Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,

no sonho de Aladim, a flor da fantasia.

 

Ai, que assombrada voz meu sono escureceu!

Que pesadelo em mim só me anoitece o dia…

O dia que eu queria e nunca amanheceu!

Saudade do que fui! A flor da fantasia,

em terras do Alentejo, há muito emurcheceu…

 

 

 

José-Augusto e Carvalho

Viana*Évora*Portugal

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publicado por Do-verbo às 04:26
 

Na limpidez do céu, um infinito azul
envolve, no seu manto, a terra abandonada.
Assombros de passado acenam mais a sul…
Areias de ouro e sol de uma magia alada…

A voz de Sherazade enfeitiçando ainda
as noites de luar, em fios de alva renda…
Há cânticos de amor, num sonho que não finda…
Seu corpo, belo e nu, enleia a minha tenda…

A dádiva da vida, em sôfregos carinhos,
enlaça-me num todo anelos de pureza
e sinto crepitar o fogo em nossas veias…

As rotas do deserto, os múltiplos caminhos
que cruzo milenar em busca da riqueza
dos astros de outro céu que emerge das areias…

José-Augusto de Carvalho
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
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publicado por Do-verbo às 04:14
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