Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
Qual será a Poesia possível para o século XXI, época flagrantemente sinalizada pelo desenvolvimento tecnológico, por profundas diferenças sociais e pelo pesadelo da violência cotidiana?

Que metáforas e sentimentos por palavras, em poemas e versos, podemos imaginar para o decorrer dos próximos cem anos?
Há mesmo algum lugar para a Poesia num tempo tão controverso?
E de que Poesia carece o homem, neste início de século?
Longe de quaisquer pretensões proféticas, o que se pode esperar é que muito provavelmente a Poesia irá de novo surpreender a história da literatura. Otimismo sugerido pelo que aconteceu no século XX, sem dúvida, um período de grandes poetas, ainda que as ocorrências históricas não tenham se mostrado tão poéticas.
A bem da verdade, todo o circo de horrores do Novecentos foi incapaz de impedir que o homem vivesse uma época tão rica para a Poesia.
Com certeza, embora nos dias de hoje se tome a Poesia como uma espécie de filha rejeitada do mundo das Letras, jamais ela esteve presente de modo tão realçado, na história da inteligência humana, como nos últimos cem anos. Jamais sua herança para o futuro foi tão vasta e influente.
Desde o seu início, o século que passou marca-se por esperanças e expressões incisivas da Poesia.
Aliás, já é com a Poesia que nas últimas décadas do século XIX se reivindica uma nova Literatura para os anos do Novecentos.
Instigado por essa preocupação é que o jovem poeta francês Arthur Rimbaud escreve ao futuro: “Il faut être absolutement moderne!” [“É preciso ser absolutamente moderno!”]

A PRESENÇA DAS VANGUARDAS


Modernidade que, nas primeiras décadas do século XX, as vanguardas literárias irão reivindicar dos escritores, sempre através da Poesia. Pois será com a Poesia que os futuristas, dadaístas, construtivistas, suprematistas, vorticistas, formalistas, cubistas e surrealistas irão exigir uma nova arquitetura mental, um ato renovador de energia e vontade para as Artes.
Modernidade guiada, seja pela regência do italiano Marinetti, ao pedir a presença da velocidade e da energia mecânica na Poesia. Seja pela voz forte do poeta russo Vladimir Maiakovski, ao formalizar que não há revolução na Poesia, assim como nas ruas, sem forma artística revolucionária:

“Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.”


Século XX em que se pretende – como determina e realiza o anglo-americano Ezra Pound - que o poeta, “antena da raça”, seja um gerador de cultura ao se revoltar contra a cultura, um estudioso universal, um artista versado em Homero e Catulo, em Dante e nos trovadores provençais, um conhecedor da importância do ideograma chinês e da centralidade da forma curta da poesia japonesa, o haicai. Enfim, um poeta senhor da tradição, que, ao se expressar e construir a transgressão, destrua o museu morto do passado à procura da poesia do futuro.
De resto, uma época de poéticas da liberdade, quando o poeta, portador de suas utopias para a Poesia, ao escrever tem no horizonte o que não quer, além do mar de suas possibilidades. Postura que, em resumo, bem definiu o brasileiro Manuel Bandeira: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”
Utopias com que se constrói a Poesia do século XX, ainda que seja um século mais trágico do que lírico, precisamente conforme sintetizou de modo magistral outro brasileiro, Carlos Drummond de Andrade:

“…………………………………………………………..
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”


Realidade que a poesia do século XX percebeu e enfrentou.
Assim testemunha T.S. Eliot, em seu vasto poema “A Terra Desolada”.
Século trágico que nem por isso esmoreceu seus poetas cientes da necessidade da lírica, de “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”, no dizer da poesia do chileno Pablo Neruda.
Afirmação da vida, que os poetas do século não ignoraram, como responde por todos um outro brasileiro, João Cabral de Melo Neto: “…não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/ vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida…”


TEMPO DE VERSO E REVERSO


Sem dúvida, é vasta a presença da Poesia do Novecentos como legado para o século XXI. Vasta e renovadora, sempre nos mais importantes ou nos mínimos instantes dos sentimentos humanos; nos gestos mais amplos ou mais particulares da existência.
Quem por acaso, nesses últimos cem anos, ousou passar a vida sem ao menos compor ou desejar compor um só verso de amor para a pessoa amada? O que também a grande Poesia do século tantas vezes fez, como testemunha vital de desesperadas paixões.
Vigoroso exemplo dessa lírica passional é o poema do andaluz Federico Garcia Lorca onde ele expressa sua dor e a dor de toda a Espanha num apaixonado lamento pela a morte em plena arena do jovem toureiro Ignácio Sánchez Mejías, “a las cinco de la tarde” : “Eu canto sem tardança teu perfil e tua graça”.
Assim se inscrevem, como expressões de plena grandeza na vasta biblioteca poética do século XX, múltiplos feitios, praticamente todos os temas, desde a leveza da poesia bucólica à consistência do poema social; desde a multiplicidade do verso metafísico à visibilidade da poesia de exaltação heróica; a exatidão do meta-poema à rapidez do poema mítico. Como, igualmente, se inscrevem investigações poéticas de diversos sentimentos étnicos que aproximam visões de mundo e mesclam o Ocidente com o Oriente no Poesia. E, não menos, se inscrevem meticulosas investigações lingüísticas.
No âmbito das possibilidades das formas poéticas, tudo se fez e tudo se refez e tudo se transformou, nos últimos cem anos. Mais que em todas as outras épocas da História da Literatura, a poesia dos Novecentos, além de investigar vastamente os significados das emoções, revigorou os significantes verbais, os traços e os sons do verbo, desde os caligramas de Guillaume Appolinaire às experiências concretistas, por sinal marcantes na poesia brasileira.
Certos poetas chegaram a multiplicar suas particularidades estilísticas.
Outros escreveram em vários idiomas. E de tal modo ocorreu essa pluralidade que, num balanço final, muito provavelmente o maior dos poetas do Novecentos talvez seja aquele que, na obscuridade de um quase ineditismo em vida, foi poeta por si mesmo e por vários outros poetas que tomou como heterônimos. Sem dúvida, Fernando Pessoa!
Autor(es) da língua portuguesa que com significativa presença foi igualmente grande poeta em inglês: “A verdade se ela existe,/Ver-se-á que só consiste/Na procura da verdade,/Porque a vida é só metade.”
Honrosa situação que confirma o Português como idioma de boa valia poética, justificando, inclusive, a existência de excelentes poetas brasileiros nos últimos cem anos, alguns, sem dúvida, entre os melhores do mundo.
E foram muitos os grande poetas dos últimos cem anos. Tantos que a Academia Nobel, se algumas vezes esqueceu de consagrar certos nomes da poesia mundial, não hesitou em incluir, entre os seus escritores premiados, vários poetas brilhantes tais como Rabindranath Tagore, William Butler Yates, Gabriela Mistral, T. S. Eliot, Boris Pasternak, Saint-John Perse, Nelly Sachs, Pablo Neruda, Odysseus Elytis, Wole Soyinka, Joseph Brodsky, Derek Walcott e Wislawa Szymborska. Por sinal, vale lembrar que a lista do Nobel de Literatura inicia-se em 1901 com um poeta, o francês Sully Prudhomme.


VASTAS INFLUÊNCIAS


No século XX, não menos vasta é a influência da Poesia nos outros gêneros literários. A começar pela própria prosa de ficção do Novecentos, que, sem dúvida, seria expressivamente menos significativa, caso não importasse para suas páginas, passagens, tramas e enredos, situações verbais evidentemente poéticas.
Os arranjos sonoros, as inquietações léxicas, as reconstruções lingüísticas dos contos e romances contemporâneos são devedores de modelos e técnicas do verso. Não fosse assim, jamais teríamos na bibliografia do século obras tais como “Finnegans Wake", de James Joyce, ou “Grande Sertão:Veredas”, do brasileiro Guimarães Rosa.
O mesmo se pode dizer a respeito da dívida da dramaturgia para com a poesia. Não fosse um expressivo poeta da língua alemã, Bertolt Brecht nunca teria sido um grande dramaturgo. Influências que chegaram ao cinema, como se percebe nos diálogos e nas tramas de Bergman, Fellini, Pasolini ou Glauber Rocha, entre outros cineastas.Marcas que vitalizaram a música popular do século, como se vê de imediato, em meio à longa lista de exemplos, nas letras dos Beatles, de Jim Morrison, ou do pleno poeta brasileiro Chico Buarque de Holanda.
Influências que alcançaram os discursos do jornalismo e da publicidade contemporâneos. E até mesmo inspiram com evidência certos feitios expressivos das melhores histórias em quadrinhos e de alguns "sites" da Web.
Sem dúvida, é amplo o legado da Poesia do século XX. Todo um legítimo conjunto de obras que exige muito dos poetas deste século XXI que se inicia agora, intrigados por saber que poética precisa o futuro.
Enigma que, segundo Jorge Luís Borges, talvez encontre resposta numa retomada da poesia épica, às vezes um tanto ausente nos últimos cem anos, se comparada à presença da lírica.
- Tivemos duas guerras mundiais, porém, delas não surgiu nenhuma épica! – reclamava o grande poeta argentino.
- De certo modo, as pessoas estão famintas de épica. Sinto que é uma das coisas que precisamos.
Quem sabe!?
Uma poesia menos subjetiva, que reconstrua os fatos e nos conte histórias da odisséia do Homem na estrada do século XXI.


José Arrabal
São Paulo – SP,Brasil

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publicado por Do-verbo às 15:38

Devo ao meu querido Amigo Vanderley Caixe ter, doravante, outro Amigo — José Arrabal, que me dá a honra de republicar neste espaço que detenho o seu importante trabalho A Poesia do XX ao XXI.

Quem é José Arrabal?


 JOSÉ ARRABAL é professor universitário, jornalista, escritor, tradutor, ensaísta, conferencista, poeta, autor de contos, novelas e romances. Lecionou por muito anos na PUC de São Paulo, na Universidade Metodista, na UNIP e na FAAP, ministrando aulas, conferências e oficinas de criação nas áreas de Letras e Comunicação Social. Jornalista, trabalhou em revistas, jornais e agências de notícias do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde exerceu atividades de redator, articulista e editor de Assuntos Internacionais, Crítico de Literatura e de Teatro, editor de Cultura e correspondente estrangeiro em países da América Latina. Traduziu obras literárias, coordenou coleções, analisou e preparou originais para muitas empresas editoriais paulistas. É autor de livros de ficção para crianças, jovens e adultos, assim como de ensaios, biografias, peças de teatro, poemas e roteiros para cd-rom, com cerca de 40 títulos publicados por editoras de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “A Princesa Raga-Si”, “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2” e “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado” (Editora Paulinas), “As Aventuras de El Cid Campeador” (Editora Paulus), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço”, “Demeter, A Senhora dos Trigais, “O Monstro e a Mata” e “O Nariz do Vladimir” (Editora FTD), “Arai, Pele de Tigre” (Editora do Brasil), “Candido” (Editora Scipione), “A Estrela de Rabo” e “Waldemar, O Rei do Mar” (Editora Nova Didática), “Histórias do Japão” (Editora Peirópolis) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora). Com o livro “A Princesa Raga-Si” (Editora Paulinas/1985), recebeu o prêmio de Melhor Autor do Ano, na categoria de Literatura para Crianças, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Por duas vezes foi indicado para o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Na recente Bienal do Livro/2005, no Rio de Janeiro, seu livro HISTÓRIAS DO JAPÃO foi premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Natural de Mimoso do Sul, Espírito Santo, vive há 30 anos em São Paulo.
.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

Viana do Alentejo * Évora * Portugal

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publicado por Do-verbo às 15:32

(Rhapsody para Allen Ginsberg)


Escrevem versos brancos como quem vai à Lua
e vão à lua cavar poemas ainda mais brancos.
Para o bem e para o mal, conhecem o mundo
até às Caraíbas e jamais o meu vizinho carpinteiro,
de nome Joaquim, que jura ter feito
um guarda-fatos em mogno para um milionário californiano.
De sonetos (incluindo ingleses) nunca ouviram falar;
sabem de sondagens, tácticas militares e de napalm,
de multinacionais e de petróleo.
Não são nunca culpados de coisa alguma:
chatearam-se em Pearl Harbour e vingaram-se em Hiroxima.
O Mayflower não levou todos os bandidos e prostitutas
europeus. Destes, a maioria já é autóctone. E isso vê-se
nas eleições políticas que realizam,
nas guerras que exportam, nas revoluções que inventam
e na leviandade com que dizem my god.
É verdade que há os Óscares, os Nobel
e as medalhas olímpicas, mas a verdadeira história
norte-americana é a de Bufalo Bill.
As fontes não revelam quantos milhões não têm abrigo
e não há notícia de Apaches nem de Cherokees
(eu sei, Allen, de Sacco e Vanzetti também)
mortos em nome do american way of life.
Borrados de medo em Hanoi, não conheceram Jonh Reed,
de quem muito aprenderiam sobre os outros.
Preferiram embebedar-se em Saigão, vomitar
no Mar da China a última ração de combate
e lamber o chão em Woodstock
Ninguém como os norte-americanos
soube dignificar de forma tão eloquente
o nome da sua moeda fiduciária,
dos seus heróis de banda-desenhada
e das suas histéricas lágrimas em Manhattan.

João de Sousa Teixeira

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publicado por Do-verbo às 15:19

 

Uma pétala de cravo ou uma urze?
A margem de um rio onde
eu te espero ou tu me esperas,
a que tempo a espera corresponde?

Se todo o tempo é habitado
e o tempo vazio não responde,
que eco tem a longínqua espera,
a que tempo a espera corresponde?

Teremos naufragado nesse rio?
Sucumbido a que maré ou onda?
Que tempo é o tempo ausente,
a que tempo a espera corresponde?

Por fim, a desmedida lágrima,
capaz de ser futuro rio, responde:
- basta de esperas passadas,
a que o tempo da espera corresponde!


João de Sousa Teixeira

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publicado por Do-verbo às 15:07
(versão não meteorológica)

I
No princípio, era um pequeno lago
com juncos e salgueiros nas orlas,
e também rãs, que, desde o início da primavera,
coaxavam noites inteiras em busca de sorte.
Aos domingos era a nossa piscina,
o nosso lugar de piquenique e de repouso,
perturbado apenas pelas moscas,
pelo seu abuso em provar o farnel exposto
e pela teimosia inata em poisar e voltar a poisar.
Havia também uma ponte muito velha
com gradeamentos igualmente velhos.
Não sei se por isso, já uma mulher tinha caído à água.
Outros diziam ter sido uma criança e outros ainda
que afinal fora um velho.
A sorte de quem quer que tenha sido
é tão confusa como a notícia.
No princípio, como disse, era um pequeno lago
com peixes e cobras de água
em permanente bailado subaquático.
Mergulhávamos naquelas águas durante toda a manhã
E um pouco à tarde, depois da digestão.
Já completamente exaustos, enxugávamos ao sol
- nossa toalha de banho –
Em suma, no desconhecimento absoluto do que faltava de mundo,
o pequeno lago foi o ideal de vida,
a única viagem de sonho a cada domingo de verão.
Entretanto crescemos.
Fizeram umas barracas de madeira
para venda de comidas e bebidas onde antes nos rebolávamos,
construíram uma nova ponte em betão,
mas permanecem os juncos e os salgueiros
e os batráquios também.
Disseram-me que estava tudo muito turístico.
A propósito: na verdade, o pequeno lago é um rio,
um pequeno rio, afluente do Tejo,
mas isso não tem importância nenhuma.

II
Um dia o meu pai queimou as costas
e foi uma tragédia.
Ele queria apenas aproveitar o sol,
que era uma dádiva de domingo.
De início foi apenas um escaldão
mas à noite é que foram elas:
Gemeu, contorceu-se com dores,
e ainda hoje tenho as minhas dúvidas
quanto ao suor que lhe ensopava o rosto:
ele não queria desvendar as lágrimas, e muito menos aos filhos,
mas penso que chorou e não foi pouco.
Durante uma semana tememos ficar sem pai,
(que nunca tínhamos visto acamado durante o dia)
mais pela presença diária do enfermeiro, que fazia o curativo,
que pela continuação dos queixumes.
Mas esta espécie de catástrofe familiar depressa foi debelada
e tudo voltou ao normal.
O esplendor do pequeno lago ou o rio, como mais tarde soubemos,
nunca foi beliscado.
Apesar de tudo, sempre nos lembrámos daquele lugar de salgueiros
e juncos, de rãs, de peixes e cobras de água dançarinos,
como um sítio aprazível e fresco, com águas transparentes
até onde havia pé,
como era impossível em qualquer outra parte do mundo.

III
Ainda não havia achigãs. Surgiram mais tarde
e em grande quantidade. Comiam tudo o que mexesse.
Pescavam-se bogas e barbos,
que mordiam o anzol atraídos por uma larva branca,
concebida de propósito,
e também ela condenada ao passatempo
dos pescadores de fim-de-semana.
Para estes, os nossos divertidos mergulhos ou mesmo as nossas chapinhadas
eram motivo de censura: assustavam os peixes,
afastavam-se e já não picavam.
A realidade é que havia espaço para todos:
a malta tomava banho e eles sempre filavam peixe.
O regresso a casa era à tardinha,
que é como quem diz, quando o sol mudava a cor
para aquele vermelhão escuro, que o fazia perder a força
para se suster lá no alto, e arrefecia como nós,
à custa duma brisa fresca, implacável, a anunciar o fim do dia.
Mas o pequeno rio não era esquecido:
dormia connosco essa noite e a seguinte e outra ainda,
e mesmo que o quiséssemos ignorar,
o latejar das peles quase pueris, os tufos de areia
nos bolsos e bainhas e o anseio pelo próximo domingo,
eram lembranças bastantes.
A água deste rio ainda hoje corre nos meus sonhos.

João de Sousa Teixeira
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publicado por Do-verbo às 15:03

Poeta, natural da cidade de Castelo Branco, capital da Beira Baixa, reside, há uns anos, em Viana do Alentejo. Companheiro e Amigo, junta-se a outros meus Amigos, neste espaço.
Bem-vindo, Poeta, Amigo e Companheiro!
José-Augusto de Carvalho

De João de Sousa Teixeira, aqui registo:

Actividade LiteráriaColaboração em várias publicações, algumas já extintas, de âmbito regional e nacional com poesia e crónicas, desde 1970. (Beira Baixa, Reconquista, Gazeta do Interior, O Século, Despertar de Coimbra, Novo Jornal, etc.)

Participação em colectâneas de poesia:
Vozes Nonas na Praça Velha (Castelo Branco) e Sirgo (Coimbra)

Desde a fundação, há 10 anos, mantém uma crónica mensal no Magazine Ensino, da RJV, editores.

Livros publicados:
Poesia:
Ro(s)tos do Meu País, ed. Aut. ,1972
Terra Alheia, ed. Aut., 1973
Ultrapassar os limites, ed. Aut., 1980
Poesia de Costumes, ed. Aut., 1982
Corpo de Poema, ed. Do Aut., 1985
Alegria Incompleta, ed. Vega, 1988, Fundo de Apoio a Autores Portugueses da APE, subsidiado pela Fundação C. Gulbenkian.
(En)cantos de Castelo Branco, ed. Câmara Municipal de Castelo Branco, 1991
Ficção:Mar de Pão, ed. Campo das Letras, 2003, com o patrocínio da Câmara Municipal de Viana do Alentejo

A editar em 2007:
PoesiaRebuçados, Caramelos e Sonetos

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publicado por Do-verbo às 14:49

 
Seu retrato na moldura
mais parece uma pintura,
é tão diferente de você, na realidade.
Seu retrato marca o tempo,
quem será o aquarelista?
Mas é foto, foi preciso um retratista.
Mas você, não, é de verdade!
No jardim cuida das flores, que linda!
Não as flores, falo de você, ainda!
Na cozinha, de avental, toda suja,
é sem jeito, você tem que concordar.
Mas, meu Deus, que cozinheira eu tenho!
Eu preciso acordar!
Seu retrato na moldura
mais parece uma pintura.
E ele anda pela casa,
faz faxina no banheiro,
tira pó dos móveis,
toma banho de chuveiro!
Seu retrato muda a roupa,
estica a perna na cama e veste a meia,
e, eu, que não sou retrato,
fico olhando esse seu ato
salivando, a boca cheia!
Seu retrato na moldura
não é você, meu bem!
Seu retrato hoje tem rugas,
já precisa de ginástica.
Mas eu olho esse retrato
e preciso confessar
o que jamais te disse,
porque não te conhecia
nesses anos do retrato.
Teria um namorado?
Seria sozinha?
Eu amo esse retrato,
porque desde que nascemos,
e em todos os dias de antes,
eu sempre fui seu,
e você sempre foi minha!


Ivan Carvalho de Siqueira

Macaé, primavera de 1996
RJ - Brasil
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publicado por Do-verbo às 14:34
Uma biografia não deveria nunca ser escrita por outra pessoa, toda biografia deveria ser uma auto-biografia. A razão, é que só você erra quando escreve sobre você, os biógrafos sempre acertam, mas escrever sobre mim é a única oportunidade que me é dada de me conhecer! Vi isto, agora, neste instante, quando sento ao computador para dizer, afinal, quem é você, Ivan?
Nasci no Brasil, na cidade de Macaé. É uma cidade de geografia privilegiada, fica entre o mar e a montanha, e tem um rio que corta a cidade e deságua no mar. Eu sou o resultado disto, nasci em frente ao rio desaguando no mar, e estou desaguando até hoje! Infância de jogar bola de gude, caçar passarinhos e pescar siri na lagoa. Todas as manhãs, na ida para a escola, com sete anos de idade, passava em frente a uma igreja católica, e pedia à benção ao padre. Acho que fui mesmo abençoado, cresci, me casei, e recebi da vida dois filhos a quem amo desesperadamente! Como foi bom ter encontrado com aquele padre! Aos quatorze anos de idade, fui a uma festa de aniversário, e lá conheci uma garota, e começamos a namorar ali. As visitas da festa se dividiam por entre os cômodos da casa, e eu e a garota ficamos em um quarto, juntos com várias outras pessoas, e, num canto entre um armário e a parede, meio escondidinhos, beijei a boca de uma mulher pela primeira vez na vida. Tudo indica que gostei! Nunca mais parei de beijar! Aos treze anos de idade, me iniciei na guitarra elétrica, formei uma banda de rock. Aos quinze anos, toquei em um canal de televisão. Aos dezoito anos servi à pátria, fui para as forças armadas, e lá eu tive duas funções distintas, fazia os cálculos matemáticos de balística e tinha uma banda de rock formada com outros soldados, animava as festas na caserna, uma espécie de Elvis Presley!(risos) Cumpri minha obrigação militar, e, aí, vieram os estudos. Estudei Ciências Econômicas, e trabalhei como economista em empresas públicas e privadas. Sou um economista filiado ao pensamento clássico reformador, isto inclui uma macroeconomia que utilize elementos conceituais do pensamento marxista , mas aplicados tecnicamente a uma dinâmica macroeconômica pós-marxista, de linhagem kaleckiana e até keynesiana reformadora. Não fazer confusão com neokeynesianismo, e, muito menos, com keynesianismo puro, essas correntes, não têm olhos ao social, à distribuição de renda igualitária, não servem como modelo para uma vida justa! Como trabalhador, estive no governo na área de previdência social, fui analista financeiro em empresas privadas, analista de investimentos e negócios empresariais. Hoje, desenvolvo softwares para economistas e empresas, usando a linguagem de programação Java, e dou treinamento profissional nesta área. Quando olho para essa vida aí atrás, sinto falta de falar do que mais fiz em toda a minha vida: tocar o violão. Esse instrumento me acompanha desde os treze anos de idade, nunca mais nos separamos. Gosto de tocar música clássica, samba, bossa nova, e, ao violão, componho minhas canções, e, se desejo me emocionar de verdade, fazer com que a alma se eleve para além do céu, sento na minha varanda, de frente para o mar, e canto uma canção que embalou minha infância, a “Casa Portuguêsa”, e, aí, não sei por que, sempre choro.
Ivan Carvalho de Siqueira
Macaé, 3 de maio de 2006.
RJ - Brasil
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publicado por Do-verbo às 14:30

Para mim, hoje é outro dia muito especial. Chegou a este espaço o meu querido Amigo Vanderley Caixe. Aqui deixo a sua apresentação por ele mesmo e um trabalho sobre ele, de rigorosa qualidade, subscrito pela nossa comum Amiga Sônia van Dijck.

Vanderley Caixe por ele mesmo:

1.---Nasci em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, Brasil. Sou advgado e jornalista e tenho pretensões a poeta. Fui preso político, por minha luta contra a ditadura militar. Foi no cárcere que ensaiei os meus primeiros poemas, publicados somente trinta anos depois («19 Poemas da Prisão e Um Canto da Terra»). Participei de várias antologias.
2.---Fui: jornalista na Tribuna da Imprensa, do Rio de JaneiroJ; coordenador jurídico da pastoral penal do Rio de Janeiro; assessor jurídico no escritório do Professor Sobral Pinto; criador, junto com D. José Maria Pires — Arcebispo da Paraíba — do primeiro Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Brasil (ainda na época da ditadura militar); coordenador por vinte anos o Centro de Defesa dos Direitos Humanos/AEP; secretário-geral da Associação Nacional de Advogados de Trabalhadores Rurais; “expert” para a América Latina do Instituto Interamericano dos Direitos; autor de centenas de artigos publicados na Imprensa brasileira e internacional.
3.---Sou: advogado de presos políticos da América Latina, com atuação junto à Corte Interamericana e da Comissão de Direitos Humanos da ONU; assessoro o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nas questões jurídicas.

Bem-vindo, Vanderley!
Grande abraço.
José-Augusto
***
Vanderley Caixe * MEMÓRIA DE LUTA


Sônia van Dijck
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tem oferecido várias publicações que falam da resistência à ditadura militar do século passado. Era um tempo em que se acreditava em liberdade e se defendia a democracia; as novas gerações devem saber que se viveu em busca de valores da nacionalidade e da cidadania. O tempo da utopia está encerrado, dele restando apenas o testemunho.
Infelizmente, não há eficiente divulgação e distribuição desses testemunhos da província, e, nem sempre, as edições são bem cuidadas, guardando mesmo falhas de revisão.
Entre os autores ribeirãopretanos, está Vanderley Caixe, com o seu 19 poemas da prisão e Um canto da terra (Ribeirão Preto: Villimpress; Rotary Clube de Ribeirão Preto; OAB-Rib. Preto; Associação dos Advogados de Rib. Preto; ACRIMESP, s. d.), relançado, em setembro de 2002, durante a 2ª Feira Nacional do Livro. Há depoimentos que devem ser repetidos, para que seja lembrada a coragem de enfrentar o arbítrio e a violência.
A primeira parte do livro traz 19 textos do tempo em que Vanderley esteve preso em Presidente Wenceslau (1972-1974). A segunda parte, “Um canto da terra. Dionila camponesa” tematiza a questão agrária no Brasil. As duas partes guardam profunda intimidade, apesar dos anos que separam a gênese de cada uma. A unidade está na coerência ideológica, no compromisso político, no exercício da militância, que perpassam poeticamente todos os textos, e se confirma em poema(s) e em canto.
Na poesia de Vanderley, revisitar as contingências do indivíduo, vítima da violência e do arbítrio, ou interiorizar a dor de uma coletividade são atos revolucionários. Admitir a dor, cantar a dor, é pronunciar “um sim, numa sala negativa” (para lembrar João Cabral…). Nada mais subversivo do que falar da dor, seja individual ou coletiva. Principalmente, com a contundência de Vanderley. O sem reservas de seu discurso poético traduz a dimensão da dor, que, em exercício de catarse e de proposta de comunhão, ganha a universalidade do canto, tornando radical a denúncia, não mais nos permitindo a doce comodidade do esquecimento ou da indiferença. Mantém viva a memória. Veementemente, o poeta recusa a barbárie.
Os textos traduzem dignidade, decisão de luta. A dor ganha significados novos, ao adotar a expressão literária, ao verbalizar a opção da militância. Combinando essas alternativas, faz-se depoimento, exemplo de opção de vida; torna-se poema(s) e canto da terra, canção de luta e de vida.
Vanderley faz nossas as dores da juventude utópica e da realista vida adulta e profissional.
Os poemas nos convocam à reflexão.
Nos 19 poemas, há privação da liberdade e sujeição à violência: “Encerrado nessas grades/ censurado vou fazendo”; “nas prisões, nós, os bandidos”. A noite, metáfora do cárcere, possível de ganhar tradução na solidão, é presença desde o primeiro poema: “Que sozinho nesta noite”. Mas, no paradigma da ansiedade ou do desejo de evasão, vê-se a construção isotópica da noite, enquanto tempo de engendramento do sonho e do espaço da liberdade: “E os guardas vigiam/ o sono fugitivo do preso./ A fuga no sono.”
Da realidade grosseira, a amada está distante. O eu poético cultiva sua sensibilidade e sua afetividade no resgate do encontro amoroso, mesmo acontecendo no palco da prisão: “… em dias como esse,/ eu a tive em meus braços, em meus beijos,”. Na dor, experimenta a ternura: impõe-se humano, revivendo seus sentimentos – vejam-se “Lembrança de você” e “Lembrança de você II”.
Em alguns momentos, o sujeito da enunciação prefere a posição de observador do absurdo, como em “Hoje, dia X” e em “Hora do almoço”. Fala do sofrimento do outro, como se guardasse uma posição de fora. Pudor, para se dizer vítima da mesma estupidez? Impossível não verificar que o sujeito da enunciação é o do enunciado: o eu encontra-se no padecimento do outro, cabendo-lhe a denúncia. Confirmando essa leitura, está o título “Hoje, dia X”: sem data precisa; qualquer dia; todos os dias. Ou seja: o tempo cronológico não importa. Fala-se de um tempo vivido como dor. Em sua intensidade, pode ser qualquer dia, o “dia X”, o dia da violência. E mais: a datação “X” sublinha a perda dos referentes, o processo de alienação a que estão submetidos tanto a vítima como o observador, isto é, o sujeito do enunciado e da enunciação: o eu.
O discurso de denúncia anula a aparente neutralidade da enunciação que se quer descritiva em “Na hora do almoço”. O eu articula o discurso do outro, para nos dar “A ânsia de reação./ A sensação de impotência. A angústia doída.”, enquanto o prato de arroz queda no cimento. Ou seja: os 19 poemas da prisão são palavra do eu poético, impregnado na comunhão com a alteridade. E isso só pode ser alcançado pela solidariedade revolucionária, pela identidade de vivências e de angústias – pela expressão poética, que dilui a alteridade.Os poemas são datados, mas o autor preferiu quebrar a ordem temporal ao organizá-los, pois o tempo do eu não pertence ao calendário. Este é um tempo interiorizado; tempo que se faz memória e testemunho de situações extremas.
Discurso de denúncia? Tais versos extrapolam a denúncia. Ninguém se desnuda tanto ao falar do sofrimento, só como atitude revolucionária. O sujeito precisa manter sua integridade, sob pena do risco da fragmentação ou do abismo da despersonalização. Melhor é ler a catarse: são poemas de reencontro, na necessidade de vomitar as angústias, que afloram traduzidas no discurso poético – única forma possível de exorcizá-las, para realizar a passagem. Sabendo-se que os poemas foram compostos no período de confinamento, é inequívoca a catarse, então, como forma de sobrevivência diante da brutalidade e do arbítrio: fuga da fragmentação.
Publicados e relançados tantos anos depois (a 1ª ed. é de 1999), conjugam catarse e denúncia, e confirmam a coerência do eu. Falar das dores do cárcere impõe-se como atitude revolucionária: dividir, poeticamente, para a comunhão com o leitor, a memória de um tempo. Se há participação na alteridade, quando o poeta configura o torturado, temos, agora, um convite a nossa participação, na medida que recebemos um discurso da exemplaridade, e, com o eu, continuamos a travessia em demanda da liberdade.
A segunda parte do livro, Um canto da terra, pinta, com cores fortes, a situação dos trabalhadores rurais no Brasil. O tom é inflamado pela revolta e pelo objetivo da denúncia.Centrado na camponesa Dionila, encontra, nessa mulher, a síntese do desespero e da desesperança de todas as vítimas da política fundiária. Como resultado, Dionila desindividualiza-se, adquirindo linhas emblemáticas, que remetem a uma proposta política.
Literariamente liberta das circunstâncias imediatas, Dionila aproxima-se da Virgem Maria, enquanto protetora dos que padecem “neste vale de lágrimas”, e, como figura central na liturgia da luta, é invocada pelo autor como “ nossa mãe camponesa”.
Do livro de Vanderley recebemos lições de certezas. Uma é amarga: refere-se à permanência do arbítrio, que, camaleonicamente, muda sua atuação, para atingir novas vítimas, em qualquer tempo, não importa o palco. A segunda é inquietante: livramo-nos do esquecimento e perdemos a indiferença. O discurso poético sugere que todos contribuam para o fim do arbítrio como rotina da História, que, renovada, um dia permitirá às Dionilas de todas as latitudes plantar e colher o feijão nosso de cada dia, sem o medo universal da violência devastadora: “Nenhum inferno abaixo de nós/ E acima apenas o espaço/(…) Nada para matar ou morrer/ E nenhuma religião”. (Lennon)

Texto revisto e atualizado em janeiro de 2008.
Publicação permitida para o blog de José-Augusto de Carvalho.
© Copyright by Sônia van Dijck, 2002
Imagens cedidas por VC, 2002
Publicado em Conceitos, João Pessoa, ADUFPB-SS, n. 8, jul.-dez. 2002, p. 100-101.
Versão com o título “Poemas de testemunho”, Expressão feedback, Ribeirão Preto, v. 62, 28 out. 2002, p. 24-25. Rascunho, Curitiba, ano 3, n. 31, nov. 2002, p. 14. Versão com o título “Um canto da terra”, Continente multicultural, Recife, n. 24, dez. 2002, p. 63-64.


publicado por Do-verbo às 09:29
Respira el Universo.
Expande las olas del fuego Sagrado
mientras agota chispas primordiales
que retornan al principio del Silencio.
La Creación es el Himno Supremo
que exhalan las criaturas de Prometeo
con la conciencia de su misión,
conservando el equilibrio de lo eterno.
El mar palpita en las cuerdas,
los bosques agitan el bronce,
llama viva acrecentada brota en cada nota,
el aire juega enamorado
envolviendo a Natura con su danza.
Todo fluye, se extiende, se contrae.
El insoslayable compás del pizzicato
ajusta la permanencia de la Esencia
en soberbia factura.
Cántico conciente, grito agradecido.
Sólo el sucederse, el silencioso devenir,
la Belleza aflorando eterna
besando de continuo a la Conciencia,
mansamente, sellando a cada instante el pacto
por el cual cada eslabón es necesario y
a la vez irrepetible
en la colosal cadena de la Vida.
El Sol, con su apariencia de quietud solemne,
realeza y oro,
sonríe agradeciendo
su nuevo día en la creación sin límites.
Giro esencial,
voluta de energía,
espiral sin fin
en la oscuridad-luz de la galaxia,
vórtice primigenio,
corazón cósmico que no muere y se renueva,
mi ser, partícula de Luz
micronésima y precisa,
en su expresión exacta y rigurosa,
recibe el hálito del Amor Universal
y continúa.

© Alberto Peyrano
(Necochea, Argentina, enero 2008)
***
HINO SUPREMO
O Universo respira.
Expande as ondas do fogo sagrado,
enquanto exaure as centelhas primordiais
que regressam ao princípio do Silêncio.
A Criação é o hino supremo
que as criaturas de Prometeu exalam,
conscientes da sua missão
de conservarem o equilíbrio do eterno.
Na melodia transcendental,
o mar palpita nas cordas,
os bosques agitam o bronze,
de cada nota, em crescendo, uma chama viva brota,
o ar diverte-se, enamorado,
enlevando a Natureza na sua dança.
Tudo flui, tudo se expande, tudo se contrai.
O arrebatado compasso do pizzicato
determina a permanência da Essência
numa revelação sublime.
Cântico da consciência, agradecido clamor.
Constante e só, o silencioso acontecer
na Beleza que se descobre eterna,
beijando continuamente a Consciência
e selando mansamente, momento a momento, o pacto
onde cada elo é necessário
e sempre irrepetível
na admirável cadeia da Vida.
Solene, na sua aparente quietude,
o Sol — todo majestade e ouro —sorri agradecendo
o alvor de cada novo dia, numa criação sem limites.
Movimento essencial,
voluteia de energia
numa espiral infinita
no breu-luz da galáxia.
Vórtice primigénio,
coração cósmico que imorredouramente se renova,
meu ser, partícula de luz
microscópica e precisa
numa expressão exacta e rigorosa,
recebe o hálito do amor universal
e continua.
Versão em português de
José-Augusto de Carvalho
(Viana * Évora * Portugal, Janeiro de 2008)
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publicado por Do-verbo às 09:02
Desandar, como quien evoca
 
las horas incontables de la ausencia,

el yo, desesperado en la sordera

de parajes oscuros,

de ignotas caminatas

a la orilla de lagos que abrían en sus huecos

la promesa silenciosa de una luz mortecina,

al menos para saber que allí

la esperanza latía en agonía.

El viento, viejo amigo,

rugía en el ocaso anunciando

los apocalipsis de mis horas vanas

y el mar era besado

por un cielo gris

que bajaba sediento hasta sus aguas.

La niebla me envolvía.

Mi rosario de penas

desgastó mis dedos moribundos

junto al poema póstumo

de tu despedida.


© Alberto Peyrano© 2006Buenos Aires, Argentina
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publicado por Do-verbo às 08:41

Alberto Peyrano es un alquimista de la palabra que encontró su piedra roseta, escondida en un suspiro que la noche abandonaba. Nuestro poeta, comprometiendo las fibras últimas del lenguaje, nos lleva de la mano a un viaje mas allá de los límites de la simple palabra, nos sumerge en un mundo hasta ahora desconocido, donde reina la belleza y el amor es el único aire respirable.

Alberto Peyrano
Jaro Godoy, Profesor de Letras
(Universidad de Buenos Aires).


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publicado por Do-verbo às 08:33
A ORIGEM DOS NOMES DOS DIAS DA SEMANA
José Augusto Carvalho
Qual é a origem dos nomes dos dias da semana nas línguas ocidentais mais conhecidas?

Foi o meu sábio e grande mestre Isaac Nicolau Salum que, em sua tese de doutoramento A contribuição lingüística do Cristianismo na România antiga (São Paulo: USP, 1954), e na tese seguinte, A semana astrológica e a judeo-cristã: introdução à problemática da nomenclatura semanal românica (São Paulo: USP, 1967), me ensinou como se deram, a partir do número quatro, os nomes dos dias da semana nas línguas conhecidas. Baseio-me parcialmente aqui em seu estudo.
O quatro representava o mundo com suas coisas terrenas. Quatro são as divisões da Terra, quatro são os evangelistas, quatro são os ventos, quatro são as estações do ano, as pontas da cruz, as semanas do mês, as fases da lua, os pontos cardeais, as letras do nome de Deus (o tetragrama IHWH, de Iahweh) e do primeiro homem, na mitologia judaico-cristã (Adão). Quatro simboliza o sólido, o tangível. Quatro são os elementos (fogo, terra, ar e água). Quatro são as proposições aristotélicas (duas negativas, E, O, e duas afirmativas, A,I).
Os discípulos de Pitágoras faziam da tétrade (conjunto de quatro grãos (micrósporos) de pólen que se originam da célula-mãe mediante meiose) a chave de um simbolismo numérico que pôde dar um quadro à ordem do mundo. O quadrado era o símbolo da perfeição, por ser sempre igual de qualquer lado por que é visto. O número quatro é considerado um dos mais cabalísticos. Todo o sistema de pensamento jungiano, por exemplo, se fundamenta na importância fundamental do número quatro, já que a quaternidade representa para ele o fundamento arquetípico da psique humana.
Os planetas conhecidos, por ordem decrescente da distância da Terra, eram os seguintes, na época do império romano: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio. Se terminarmos a contagem pela Lua e pusermos o Sol no centro do sistema, teremos a seguinte ordem astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.
Com relação aos nomes dos dias da semana, o quatro exerce um papel fundamental: se contarmos até quatro, a partir de Saturno, inclusive, chegaremos ao Sol, e teremos o primeiro dia (Sunday); a partir do Sol, inclusive, contamos até quatro e chegamos à Lua (Monday, lunes, lundi, lunedi); a partir da Lua, inclusive, contamos quatro até Marte, portanto: mardi, martes, martedi. E assim por diante. Assim, o domingo é o dia do Sol; segunda-feira, o da Lua; terça-feira, o de Marte; quarta, o de Mercúrio; quinta, o de Júpiter (jeudi, jueves, giovedi); sexta, o de Vênus (vendredi, viernes, venerdi). Sábado é o dia de Saturno (Saturday).
Em inglês, Marte foi substituído por Tyw, o deus maneta da força e da guerra na mitologia nórdica (Tuesday). O dia de Mercúrio em inglês foi consagrado a Odin ou Wedin (na mitologia escandinava) ou Wotan, equivalente a Zeus, entre os germanos (Wednesday). O dia de Júpiter, quinta-feira, foi substituído por Thor, filho de Odin, na mitologia escandinava, ou o deus do trovão (que se traduz por Donner, donde Donnerstag, em alemão, para a quinta-feira). Assim Thursday significa “dia de Thor”, em inglês. A sexta-feira era destinada à deusa Freya, esposa de Odin, deusa da juventude, do amor e da morte, na mitologia nórdica (daí o Freitag alemão ou o Friday inglês). Tag, em alemão, é dia.
O nome sábado vem do hebraico Shabbath, que significa “repouso”. Para os hebreus, sábado é o sétimo dia da semana (que começa, portanto, no domingo). Para os cristãos, o último dia da semana é o domingo (de dies Dominica ou dia do Senhor). Senhor é traduzido por dominus (o senior latino, que deu senhor, significa “o mais velho”, donde “senado”, isto é, conselho de anciãos). De dominus temos dominar, dom, dona, donzela (de dominicella, senhorita, que deu origem ao “demoiselle” francês).
Os nomes em português têm outra origem. Vêm da feira que faziam os agricultores medievais que se reuniam no adro das igrejas a cada domingo (a primeira feira). É da expressão filius ecclesiae (filho da Igreja, da Assembléia) que se originou o nome “freguesia”, inicialmente de cunho apenas religioso (ainda em voga, quando se diz “freguesia de Santa Rita”, “baixar noutra freguesia”, etc.). O dia seguinte ao domingo era o da xepa, o da segunda-feira… E feira ficou sendo o nome dos outros dias.
Essa é a origem dos nomes dos dias da semana.


Cidade de Vitória * Estado de Espírito Santo * Brasil

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publicado por Do-verbo às 07:53
VERDADES SOBRE O NATAL
José Augusto Carvalho
Dionysius Exiguus, isto é, Dionísio, o Pequeno, foi um monge cita ou armênio que nasceu no final do séc. V e morreu por volta de 540 da nossa era. Estudioso da vida de Cristo, Dionísio, o Pequeno, propôs que o ano do nascimento de Jesus fosse o do início da era cristã. Mas verificou-se depois que, por um erro de cálculo, o ano I da nossa era, proposto pelo monge cita, não coincidia com o ano de nascimento de Jesus Cristo. Segundo o capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, Herodes Magno foi o responsável pelo massacre de inocentes e pela fuga da Sagrada Família para o Egito. Ora, Herodes Magno morreu no ano 4 antes de Cristo. Isso significa que Jesus Cristo deve ter nascido no mínimo quatro anos antes de Cristo… por mais absurdo que isso possa parecer.
O dia 25 de dezembro era o de uma festa pagã. Era um dia consagrado ao Sol, porque é nesse dia que começa o retorno do Sol ao seu zênite. Os egípcios celebravam o dia 25 de dezembro como a festa máxima de seu deus Osíris. Os persas festejavam nesse dia, nas comemorações da entrada do solstício de inverno, o nascimento de Mitra, um deus persa popular entre os romanos da época. Aliás, os magos, de que nos fala Mateus no citado capítulo 2 e que foram adorar o menino Jesus, eram na verdade sacerdotes persas e não reis. O sacerdote persa era chamado de “mago”. O deus Mitra, diga-se de passagem, era representado pela figura de um menino.
A Igreja aproveitou essas festas para incluir nelas também a do nascimento do seu Deus feito homem, embora haja evidências de que Jesus Cristo teria nascido no mês de março (signo de peixes). Como os cristãos da época já tivessem aceitado a data, o Papa Silvestre I oficializou-a, na reforma da liturgia católica. O reinado espiritual de Silvestre I ocorreu entre 314 e 335, sob o reinado temporal do Imperador Constantino I, o Grande, que instituiu o cristianismo como religião oficial do Império Romano.
Na Grécia católica, a partir do séc. III, o Natal era celebrado no dia 6 de janeiro. Graças à reforma de Silvestre I, unificou-se a celebração do Natal no dia 25 de dezembro, mas o dia 6 manteve suas festividades, na comemoração da visita dos magos à gruta de Belém. A construção dos presépios, celebrando o mistério da Natividade, foi introduzida nos festejos de Natal por São Francisco de Assis (circa 1182-circa 1226), possivelmente em 1220, quando voltou à Itália depois de sua estada no Marrocos (1213) e no Egito (1219).
Com relação a Papai Noel, sua vulgarização no Brasil é posterior a 1930. Sua origem está na lenda que cerca a vida de S. Nicolau, bispo de Mira, que viveu no séc. IV, patrono da Rússia e dos escolares. S. Nicolau teria fornecido bolsas de ouro a três moças pobres e ressuscitado três crianças. Os alemães é que teriam sido os grandes divulgadores tanto do Papai Noel quanto da árvore-de-natal (Tannenbaum). A figura do velhinho com roupa e capuz vermelhos e bota negra surgiu de uma descrição de um poema de 1822 do professor Clement Clarcke Moore institulado “The night before Christmas”. Com base na descrição desse poema, Thomas Nast (1840-1902), fez um desenho, mas em preto e branco, que publicou na revista Harper’s Weekly, de Nova Iorque, em 1863. A cor vermelha tornou-se oficial em 1931, quando Haddon Sundblom criou uma campanha publicitária para a Coca-Cola. A figura anterior do Papai Noel representava-se com um hábito talar, uma carapuça cônica e uma barba em ponta.
A tradição de se iluminar a árvore-de-natal se deve a Martim Lutero (1483-1546), por volta de 1525, após o seu casamento. A árvore-de-natal só chegou ao Brasil no início do séc. XX, por volta de 1909.
O relacionamento estreito entre a religião católica e o paganismo está presente até mesmo no nome da sede da Igreja Católica: Vaticano era o deus dos romanos que fazia profecias (o nome “Vaticano” se relaciona semanticamente com “vate” e “vaticínio”) e presidia os primeiros gritos dos meninos. Era representado sob a forma de uma criança gritando. O verbo latino uagio (cujo infinitivo é uagire ou vagire) é uma formação expressiva (“fazer uá”) para designar o grito das criancinhas, por isso, não raro, o nome Vaticano era confundido com “Vagicano”.
De qualquer forma, ainda que fruto de equívocos, o Natal não é uma data apenas restrita ao dia 25 de dezembro, mas uma época, um período de tempo que vai de meados de novembro até o dia 6 de janeiro, uma época em que as pessoas põem em prática seu espírito cristão de fraternidade e de paz e se iluminam na fé que as ajuda a viver e lhes dá alimento à alma…



Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil
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publicado por Do-verbo às 07:49
POR QUE DAR BAIXA E DAR ALTA?
José Augusto Carvalho
Por que se diz dar baixa, quando se sai do Exército, e ter alta, quando se sai do hospital?
Baixa e baixar sempre foram expressões designativas de exteriorização, de expedição, de movimento para fora ou para baixo, de diminuição. Por isso, baixar um decreto é expedi-lo; baixar os autos ao tribunal é retirá-los de onde estavam e devolvê-los ao juízo inferior, de origem. Dar baixa, portanto, é sair, como na expressão militar. Mas por que dar baixa em hospital tem o sentido oposto, de entrar?
Em alta, há a convergência de dois nomes de origem distinta: um é a forma latina alta-, do adjetivo de primeira classe altus, -a, -um; o outro é a interjeição alemã Halt!, do verbo halten, que significa parar.
A rigor, os dicionários deveriam dar três entradas para alto e duas para alta: há o alto!, comando militar que significa pare!, oriundo do alemão Halt!; há o alto, adjetivo, como em homem alto, de origem latina, e há alto, adjetivo ou substantivo, oriundo do italiano, de uso na música, para designar o som agudo da voz masculina ou o som grave da voz feminina. Alta, feminino substantivado de alto, seria a primeira entrada no dicionário, designando dança, parte do palco, no teatro, ou a alta sociedade; a segunda entrada deveria consignar todos os sentidos de origem militar do substantivo alta: ordem ou nota para sair do hospital; ato de voltar ao serviço militar depois de um período de licença ou de doença; parada de uma força que estava em marcha. Nesse sentido, o Grande e novíssimo dicionário de língua portuguesa, de Laudelino Freire, está corretíssimo. O Aurélio e o dicionário dos seus herdeiros, no entanto, registram duas vezes o verbete alta, ambas como adjetivo substantivado. Trata-se, portanto, da mesma palavra, o que não justifica as duas entradas no dicionário. Em contrapartida, o Aurélio e o dicionário dos seus herdeiros registram adequadamente alto em três verbetes, segundo as origens latina, italiana e alemã. O dicionário de Caldas Aulete registra alta em dois verbetes, mas inclui no primeiro significados de origem militar que são do segundo, e erra no étimo alemão, grafado alte (que significa “velha”) e não Halt (que significa “pare”). No verbete Alto! (o terceiro, sem numeração), o étimo alemão está corretamente grafado.
Assim, ter alta num hospital tem origem militar. Vem do alemão halten, que significa parar. O médico declara a cessação da doença. Portanto, permite que o paciente saia. Já dar baixa tem o sentido vernáculo, normal, de exteriorização.
A expressão dar baixa no hospital, com o sentido de entrar, opondo-se a dar baixa no Exército, com o sentido de sair, formou-se posteriormente na língua por analogia com alta (de halten), na ignorância do significado original, por confusão com a forma vernácula, de origem latina.
Em resumo: baixa, de origem latina, formou a expressão dar baixa, com o sentido de sair; baixa, de formação vernácula posterior, a partir da forma alta, de origem alemã, formou equivocadamente a expressão dar baixa, com o sentido de entrar (não registrado no Aurélio nem no dicionário dos seus herdeiros, mas presente nos dicionários de Laudelino Freire e Caldas Aulete.
São caprichos do falante, que acabam por refletir-se na língua, fazendo dela um samba do crioulo doido.
A moral dessa história toda é que nossos dicionários de língua estão a quilômetros de distância do rigor científico de um Littré, por exemplo. Falta-lhes a data de inclusão do item lexical na língua; falta-lhes a data da primeira atestação, pelo menos; falta-lhes, em síntese, uma orientação eficaz, adequada e científica para o consulente, no mínimo para que ele possa entender os pretensos paradoxos ou as pretensas incoerências da sua língua.
Assim, por exemplo, os dicionários deveriam ter outra entrada para baixa, além da que já neles existe, dando conta do neologismo baixa, formado a partir da palavra alta, de origem alemã, e em oposição a ela.
O melhor dicionário brasileiro feito criteriosamente, dentro dos princípios científicos da lexicografia, com data de inserção no léxico e atestação documentada é o Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, de Antônio Geraldo da Cunha (São Paulo: Melhoramentos, 1978). Infelizmente, seu universo, como o próprio título indica, é restrito.
Pena que A. G. Cunha tenha falecido, em 1999, antes de ter feito um dicionário da língua portuguesa. Seria, sem dúvida, o melhor de todos.


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publicado por Do-verbo às 07:43
VERDADES SOBRE O PAPAI NOEL
José Augusto Carvalho
São Nicolau (271-342), bispo de Mira, na Ásia Menor (hoje Turquia), teria realizado vários milagres em vida. Tornou-se venerado em vários países da Europa, sobretudo na Holanda, onde só entre os séculos XII e XIII se construíram 23 igrejas em sua devoção. A Igreja Católica instituiu o dia 6 de dezembro como o de sua morte, e até hoje, na Holanda, nesse dia, numa festa em sua homenagem, se presenteiam as crianças.
Os holandeses que fundaram Nova Iorque levaram para os Estados Unidos da América a veneração ao santo.
Seu nome, em várias línguas em que é cultuado, é: Saint Nicolas, Sankt Niklaus, Saint Niclaus, Sinter Klaas, Sinterklass, Santa Claus. No Brasil, é Papai Noel; em Portugal, Pai Natal; na França, Père Noël, que anda sempre acompanhado de outro velhinho, o Père Fouettard: enquanto aquele dá presentes aos meninos bonzinhos, este entrega um feixe de varinhas (“fouets”) aos meninos malcomportados, para lembrar-lhes que merecem ser punidos.
Em 1822, Clement C. Moore, no poema “The night before Christmas” (“Véspera de Natal”), descreve não só Santa Claus com roupas de pele e com um saco cheio de brinquedos nas costas, mas também o meio de transporte de Santa Claus: um trenó puxado por oito renas voadoras, cujos nomes são: Blitzen, Comet, Cupid, Dancer, Dasher, Donner, Prancer e Vixel. Em português, pela ordem, teríamos: Faiscar, Cometa, Cupido, Dançarino, Peralvilho, Trovão, Empinador e Raposa (?). Entre nomes em alemão e inglês, Vixel, acredito, talvez seja corruptela de Vixen, que, em inglês, designa a raposa.
Em 1881, Thomas Nast desenhou Santa Claus, baseado no poema de Moore, e publicou o desenho em preto e branco na capa de Natal da revista Harper’s Illustrated Weekly. A cor vermelha das roupas foi estabelecida e oficializada por Haddon Sundblom, em 1931, numa campanha publicitária da Coca-Cola.
A roupa original do Sinter Klaas holandês era uma espécie de sotaina comprida que ia do pescoço ao calcanhar. A carapuça era cônica; e a barba, em ponta.
O letrista de uma canção natalina cometeu um equívoco que passa despercebido à maioria dos que a cantam. A letra diz “Como é que o bom velhinho / não se esquece de ninguém? / Seja rico ou seja pobre, / o velhinho sempre vem”. A letra pretende dizer que não importa que a pessoa seja rica ou pobre: o velhinho sempre se lembra dela. No entanto o que a letra diz é que o velhinho, mesmo que seja rico ou pobre, sempre vem… Isto é: o “rico” ou “pobre” da letra se refere ao velhinho, não ao que é visitado por ele no dia de Natal…
No entanto, o que importa mesmo é que o bom velhinho representa o sonho das crianças, faz parte das mais queridas e gratas das nossas lembranças da infância e simboliza o espírito de fraternidade e de altruísmo que vigora no Natal…
Pena que só no Natal…


Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil
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publicado por Do-verbo às 07:39


É muito gratificante, para mim, a presença dos meus Amigos neste espaço-viagem que pretende ser o blog.
Apresento o meu primeiro Amigo, o Professor Doutor José Augusto Carvalho, cidadão brasileiro, nascido em Governador Valadares, Minas Gerais, mas radicado há mais de 60 anos na cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo.
A curiosidade de termos o mesmo nome e de nos identificarmos com as mesmas interrogações existenciais é condição determinante para considerar indispensável a sua presença neste espaço-viagem.
Os seus textos justificarão a justeza da sua divulgação neste blog. A bem da cultura e da inteligência, aqui se publicam, para nosso enriquecimento.
O meu abraço fraterno.


José-Augusto de Carvalho
17 de Dezembro de 2005.
Viana  * Évora * Portugal

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publicado por Do-verbo às 04:42
 
Valeriano Luiz da Silva

 

 
É quando as sombras descem sobre a luz
e a vida já não pode ser mais nada
que, em ânsia de infinito, tremeluz
a paz, por dor e lágrimas velada.
.
Aqui, por entre flores de saudade,
sublimo a perfumada nostalgia
do sonho que se quer eternidade,
em arrebois de amor e poesia.
.
De ti, ficou, em nós, perene, o canto,
a parte que te coube da beleza
p’lo Céu doada a todos os poetas.
.
Em ti, ficou, de nós, doído, o pranto
que levas, por alturas de incerteza,
nas tuas asas livres e inquietas.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
24 de Fevereiro de 2006.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
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publicado por Do-verbo às 04:19
 
 
 
Cuando los asesinos mataron al poeta,
el reloj señalaba la hora cero.

El poeta se muere siempre en la hora cero.

Cuando el tiempo queda yerto
y las palabras rechazan la melodía de la ternura
el poema es imposible.

Cuando el reloj señala la hora cero,
el poema es imposible.

Cuando el poema es imposible
ni paraíso ni infierno pueden existir.

Cuando el poema es impossible,
la sangre llora la nada.

La sangre del poeta asesinado lloró la nada
en mi corazón.
 

José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 24 enero 2006.
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publicado por Do-verbo às 04:05
João Vicente
da Costa Massapina de Carvalho
(5.12.1951 - 24.12.2005) 
 
 

Hoje, chove no meu coração.
Uma chuva de lágrimas frias.
Com seis tábuas se faz um caixão
e, com flores, as horas vazias.
 

Para além da partida, serás,
na saudade, a presença constante.
Que tu ficas, ainda que vás
para longe do adeus que te cante!
 

Não há luz, não há cor, não há trevas
no vazio sofrido que levas…
Só o frio gelado do fim.
 
 
E eu, aqui, a deixar-te sozinho,
neste término do teu caminho,
esquecido de tudo e de mim.
 
 

 

 

José-Augusto de Carvalho
7 de Janeiro de 2006
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
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publicado por Do-verbo às 03:56
 
 
 
Meu dia de natal, memória indefinida
de um tempo que passou, definitivamente.
Há tantos anos foi! E nem guardei na mente
aquele meu momento acontecendo vida…
 
 
De quem me acarinhou em sonho de promessa,
p’ra sempre a dor da perda, em mim, chorada vive.
Memória do que fui! Apenas sobrevive
o neutro Tempo, em sua inexorável pressa…
 
 
Meu dia de natal! O mês de Julho ardia!
Em tempo de nascer, morria-se em Espanha!
Granada está de luto. Em lágrimas se banha.
Mataron Federico-Embrujo y Poesía!
 
 
É meio-dia! A luz, esplêndida, encandeia!
Vestida de brancura e letargia, a vila,
à sombra do temor da delação, vacila
nos versos da canção-recusa que semeia…
 
 
O verbo clandestino assombra o povo triste.
Dali, de Badajoz, os ventos do martírio
apagam num altar pagão o livre círio…
e nada mais que dor na mártir terra existe!
 
 
É meio-dia! A vida aconteceu! Bem-vindo!
Em horas de aflição, eu vim para render
eu outro que morreu e prosseguir e ser
mais um dos que amanhã p’la vida irão caindo!
 
 
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
 
5 de Junho de 2006.
Viana*Évora*Portugal
 
***
Federico García Lorca nasceu em 5 de Junho de 1898, em Fuente Vaqueros, aldeia próxima de Granada. O poeta já fora procurado em sua casa pelas autoridades nacionalistas que impunham o terror em Granada. Foi preso pelos franquistas na tarde de 16 de Agosto de 1936 e fuzilado na madrugada de 18 seguinte, num campo dos arredores de Granada. O seu corpo nunca foi encontrado.
(Do prólogo de José Bento à Antologia Poética de Lorca publicada pela Relógio D’Água.)
Migrando para este novo espaço.


publicado por Do-verbo às 03:39
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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