Quinta-feira, 22 de Agosto de 2013

Um menino de sua mãe...

(Relendo Fernando Pessoa)

 

 

Foto Internet, com a devida vénia

 

 

Este fora também um menino de sua mãe. Não se chamava Fernando, mas nem por isso deixara de ser um menino e um menino de sua mãe.

 

Como todos os meninos, trazia o sonho no coração e as asas de um passarinho nos olhos perdidos nos longes.

 

Também correu atrás das borboletas, também jogou ao berlinde e ao pião, também riu divertido com os festões baloiçando nas noites de São João, também chorou os grandes desgostos da vida quando a dentuça do rafeiro lhe furou a bola.

 

E também foi à escola, aprender as letras pequenas e grandes; e a juntá-las, primeiro duas a duas, p mais a é pá. E por aí adiante.

 

E também brigou no recreio, aprendendo a levar e a dar pancada, como nos filmes que os adultos achavam muito realistas.

 

Depois aprendeu a brincar com os números. Primeiro a contar, depois a somar, a subtrair, a multiplicar, a dividir. E a tabuada era uma festa. Era ensinada a cantar, tardes inteiras cantando: dois mais dois, quatro...

 

Depois vieram as lições da história. Ena, tantos reis! E eles faziam tudo... Tudinho. O castelo fora mandado reconstruir pelo rei D. Dinis. Antes havia um, mas ficara em ruinas com tantas batalhas. Diziam que houvera um castro, depois uma fortaleza dos romanos, depois um castelo dos mouros e depois este que está cá ainda.

 

Do cimo das muralhas, a gente vê a planície toda onde a moirama fizera correrias sem fim. Agora é terra de cultivo e de olivedos.

 

Os sobreiros e azinheiras, a que a gente chama montado, ficam mais longe um bocadinho.

 

Como todo o menino de sua mãe que tem a sorte de resistir à mortalidade infantil, eu deixei de ser menino porque cresci. E aí as coisas foram-se complicando. Cada vez havia mais exigências e menos carinhos.

 

O meu crescimento foi responsável pela morte de muitas pessoas queridas. Eu ia crescendo e elas iam morrendo.

 

Tal qual sucedeu com o Fernando, o dia do meu aniversário, e também todos os outros dias, que não só aquele, estavam cheios de fantasmas.

 

Aos poucos, comecei entendendo que se nascia para ocupar o lugar dos que morriam.

 

Era uma fatalidade esta dita lei da vida. Mas outras coisas novas iam aparecendo. E a gente deu em olhar para as meninas. Coisa estranha! Começámos a gostar mais de estar com elas do que de brincar ou jogar. Era a puberdade chegando.

 

Depois começou a luta pela sobrevivência. Saber que as coisas tinham preço e que se pagavam com dinheiro. E que o dinheiro se ganhava trabalhando.

 

Aqui surgiu outra interrogação: qual o sentido que a vida tem? A gente nasce e é amada. Depois morre quem nos amou. Ficamos sem ninguém. Esta infelicidade é ultrapassada quando construímos a nossa própria família, porque a outra se extingue. E assim sucessivamente.

 

Estas coisas aprendem-se olhando os passarinhos. E os passarinhos parece-me que são felizes nesta rotina, mas eu não sou. Morrer será triste? Ou muito triste? Eu não sei, porque nunca morri. Mas sei que é muito triste sabermos que morreram os nossos entes queridos. Que nunca mais estarão ao nosso lado. Que foram para sempre. Como nós iremos também, um dia. Todos.

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

7/8 de abril de 2003.

Viana*Évora*Portugal



publicado por Do-verbo às 10:15
Domingo, 09 de Janeiro de 2011


 

 

 


Vocês vieram depois

das trevas da noite densa

e encaram com displicência

os medos da nossa insónia...

 

 

Vocês vieram depois

dos tempos das grandes fomes,

quando nos negaram ter

nosso tempo de meninos...

 

 

Vocês vieram depois

do tempo da delação,

das masmorras e torturas

de todos os tarrafais...

 

 

Vocês vieram depois

do tempo náusea e vergonha

em que tínhamos vergonha

do medo que sufocava...

 

 

Vocês vieram depois

e nem sequer lhes ocorre

que nós arriscámos tudo

para erguer este depois...

 

 

Vocês vieram depois

e não nos devem nada...

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 3 de Setembro de 1996.


publicado por Do-verbo às 14:18
Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

 

 

 

Naqueles tempos incertos,
vieram as grandes fomes,
agudizando a paixão
de séculos de calvário.
 
 
As notícias que chegavam,
traziam, de longe, o sangue
e os escombros amassados
de dor, metralha e desgraça.
 
 
Para cá dos Pirenéus,
a mordaça dos tiranos
impunha o silêncio e a paz
de grades e cemitérios.
 
 
A cobiça dos Senhores
alardeava as vitórias
de assassinos e verdugos
de um império de mil anos.
 
 
E o medo gerava o medo...
E os passos da delação
silenciavam as bocas
uivantes dos deserdados...
 
 
Daqueles tempos incertos
há ainda os estertores...
Quem não viveu esses tempos,
mantenha-se em guarda e evite
perversas ressurreições!...
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 2 de Setembro de 1996.


publicado por Do-verbo às 18:52
Sábado, 28 de Novembro de 2009

Nasci e vivi a meninice e a adolescência em Viana do Alentejo, uma vila de três mil habitantes, sede de munícipio, ao qual pertencem as vilas de Alcáçovas e Aguiar. Como dizia uma canção muito em voga nesse tempo, situando as populações das povoações rurais de Portugal, aqui todos são primos e primas. Pois é, naquele tempo, o mundo era pequeno!
O Poder Político da época afirmava: Portugal é um País Rural !
Quem conhecesse minimamente a geografia física do país, sabia que o Poder Político mentia. O país arrastava-se numa agricultura de subsistência, resignado. Recordo-me de que uns anos depois do final da II Grande Guerra, cerca de 1950, um quilograma de trigo colhido em Portugal era vendido ao público por três escudos e sessenta centavos e que se dizia que o Canadá colocaria trigo em Portugal por quarenta centavos cada quilograma.
Para situar os preços que indico, esclareço que um dólar equivalia a mais ou menos vinte e cinco escudos.
É fácil concluir que não havia interesse do Poder Político em libertar o País da miséria, do analfabetismo, da palavra de ordem do fascismo imperante: Tudo pela Nação/ Nada contra a Nação!
Um pouco mais tarde, no início da década de sessenta, quando os povos das ex-colónias se decidiram pela sua emancipação, recorrendo à luta armada, o Poder Político enfrentou o mundo hostil (leia-se também ONU) com estoutra palavra de ordem: Estamos orgulhosamente sós!
Nesta mesma época, um incidente ensombrou as relações diplomáticas com o Brasil. Era presidente Jânio Quadros. O transatlântico português Santa Maria foi tomado e o chefe da rebelião, o Capitão Henrique Galvão, alterou o nome do navio para Santa Liberdade e ordenou ao comandante que rumasse à costa americana. Após negociações, esta acção, destinada a alertar o mundo, terminou com o Santa Maria aportando ao Recife. Os insurrectos ficaram no Brasil; o Santa Maria regressou a Portugal, são e salvo, como é adequado dizer-se nestas circunstâncias.
Na esmagadora maioria das povoações, havia apenas o ensino primário elementar, correspondente a quatro anos de escolaridade. O patamar de ensino imediato eram as Escolas Comerciais e Industriais e o Liceu. Apenas as capitais de Distrito dispunham deste ensino. Havia ensino privado, mas quem poderia pagar? Havia três Universidades: Lisboa, Porto e Coimbra.
Enfim, e socorrendo-me de Luís Vaz de Camões, aqui fica uma pálida ideia do que era a ditosa pátria, minha amada!

 
 

José-Augusto de Carvalho
4 de Junho de 2006.
Viana do Alentejo*Évora*Portugal
Migrando para este novo espaço.


publicado por Do-verbo às 17:29
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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