Sábado, 17 de Novembro de 2012
16 de Novembro de 2012 - 16h17

Vanderley Caixe, poeta e advogado dos oprimidos

O poeta e advogado Vanderley Caixe (Ribeirão Preto, SP - 6 de outubro de 1944 / Ribeirão Preto, SP, 13 de novembro de 2012) foi um lutador contra a ditadura militar e paladino dos direitos humanos e dos direitos dos trabalhadores, sobretudo rurais.

Vanderley Caixe (1944-2012)


Membro da Juventude Comunista em 1960 (aos 16 anos de idade), fundou em 1966, em Ribeirão Preto (SP), com outros colegas estudantes e militantes, a FALN (Forças Armadas de Libertação Nacional), para lutar contra a ditadura militar e pelo socialismo. Preso em 1969, andou elos cárceres da ditadura até 1974. Nos cinco anos em que ficou preso, percorreu vários deles: Presídio Tiradentes, Presídio Wenceslau (onde, em 1972, liderou uma greve de fome dos presos políticos), Presídio Hipódromo, de onde foi solto em 1974.
Nesse ano foi solto e terminou o curso de direito. Trabalhou no escritório de advocacia do professor Sobral Pinto e atuou como redator nos jornais Tribuna da Imprensa e Opinião. Em 1976 mudou-se para a Paraíba onde, juntamente com o arcebispo D. José Maria Pires – Arcebispo da Paraíba – criou o primeiro Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Brasil (ainda na época da ditadura militar). Mais tarde foi secretário geral da Associação Nacional de Advogados de Trabalhadores Rurais, advogado de presos políticos em vários países na América Latina, atuou junto à Corte Interamericana e da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Em João Pessoa (PB), ajudou a fundar o PT e foi candidato a prefeito em 1986.
Voltou a Ribeirão Preto em 1994, onde instalou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, Assessoria e Educação Popular, mantendo a luta ao lado dos camponeses. Torna-se assessor jurídico do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), e participou da Rede Nacional dos Advogados Populares, foi advogado dos presos políticos da América Latina, e atuou junto à Corte Internacional de Direitos Humanos e da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Retomou também a publicação do jornal O Berro, que havia sido destruído pela ditadura militar (hoje transformou-se em uma revista eletrônica).
Foi na prisão que começou a tecer seus versos, publicados em inúmeras antologias e reunidos, em 1999, no livro 19 poemas da prisão e Um canto da terra. Seus temas são épicos, com lembranças da repressão militar, da prisão e das injustiças e dos crimes que presenciou, mas também líricos, tratados com maestria. 
O poeta, lutador e advogado dos oprimidos Vandrley Caixe despediu-se da vida na terça-feira, 13 de novembro de 2012.Deixou nela a marca vívida de seus versos e de sua luta.

Com informações de O Berro
Meu canto de poeta

Poema de Vanderley Caixe

poeta que canta,
me encanta,
me espanta.
Fala de flores,
dores, amores,
cores,
Descobre o sentimento,
revela lamento,
faz de tudo um tempo.
Faz presente,
faz passado,
embota o atrasado.

Mas o canto é mais que isso,
é o verso do universo,
das gentes alegres e sofridas,
dos trapos desta vida,
Das angústias e da cobiça,
dos bandidos adversos,
penetrando em nossos versos,
rasgando a carne humana,
com bombas de Hiroxima,
do trovão de Nagasaki.
Do urânio empobrecido,
sobre seres humanos,
em crianças, velhos, mulheres,
enfim, em gente como a gente,
gente diferente.

É o lucro perverso buscando pelo
universo.
E, eu de um gesto,
faço aqui,
paralisado em lirismo,
faço meus versos.
 
Fonte: Poetas do Brasil (http://poetasdobrasil.blogspot.com.br)

 

 

Profundamente consternado, aqui fica a minha derradeira homenagem a este querido amigo que deixou a Vida e a Humanidade que tanto amou.

Esta página de «tempos do verbo» ficará activa.

Até sempre, Vanderley!



publicado por Do-verbo às 18:05
Sexta-feira, 12 de Março de 2010

 


As vezes me sinto idiota ou maluco. Paranóico ou psicopata.
Abro os jornais, vejo na televisão, vejo corpos estirados, bombardeios de urânio empobrecidos, vejo cinzas de outroras gentes,crianças rotas como roupas esgarçadas,vejo mulheres novas e velhas chorando sobre defuntos filhos, maridos ou pais.
Todos os dias vejo as teorias que tentam justificar mortes, assassinatos em massa, genocídios , destruição de raças.
Meus olhos covardes embotam o meu espírito em lágrimas. Me chamam de covarde.
Vejo o governo norte americano, me recordo da leitura do pretenso terceiro Reich.
Judeus nazistas ocupando espaços nas listas, genocídios de palestinos.
Sonho a iraquiana que está em seu país chupando a bomba invasora norte-americana, sobre os escombros putrefatos ao seu nariz.
Participo com o supremo gesto da vida sacrificada no terror. Um último instante da bomba explodir, um resto de desespero contra a industria de armas.
Meu corpo vira arma, a arma do pobre, a arma do invadido, a arma dos que tem seus filhos destroçados.
Somente tenho meu corpo e uma alma de luta contra o império que veio à minha terra matar, nossas riquezas sugar.
Perdoe-me Deus, perdoe-me Alá.
Sou gente, não sou covarde, não importa que a imprensa deles diga.
Minha luta estará lá.
Vanderley Caixe
28 de Agosto de 2004.
Ribeirão Preto*SP-Brasil


publicado por Do-verbo às 03:30
Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Para mim, hoje é outro dia muito especial. Chegou a este espaço o meu querido Amigo Vanderley Caixe. Aqui deixo a sua apresentação por ele mesmo e um trabalho sobre ele, de rigorosa qualidade, subscrito pela nossa comum Amiga Sônia van Dijck.

Vanderley Caixe por ele mesmo:

1.---Nasci em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, Brasil. Sou advgado e jornalista e tenho pretensões a poeta. Fui preso político, por minha luta contra a ditadura militar. Foi no cárcere que ensaiei os meus primeiros poemas, publicados somente trinta anos depois («19 Poemas da Prisão e Um Canto da Terra»). Participei de várias antologias.
2.---Fui: jornalista na Tribuna da Imprensa, do Rio de JaneiroJ; coordenador jurídico da pastoral penal do Rio de Janeiro; assessor jurídico no escritório do Professor Sobral Pinto; criador, junto com D. José Maria Pires — Arcebispo da Paraíba — do primeiro Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Brasil (ainda na época da ditadura militar); coordenador por vinte anos o Centro de Defesa dos Direitos Humanos/AEP; secretário-geral da Associação Nacional de Advogados de Trabalhadores Rurais; “expert” para a América Latina do Instituto Interamericano dos Direitos; autor de centenas de artigos publicados na Imprensa brasileira e internacional.
3.---Sou: advogado de presos políticos da América Latina, com atuação junto à Corte Interamericana e da Comissão de Direitos Humanos da ONU; assessoro o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nas questões jurídicas.

Bem-vindo, Vanderley!
Grande abraço.
José-Augusto
***
Vanderley Caixe * MEMÓRIA DE LUTA


Sônia van Dijck
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tem oferecido várias publicações que falam da resistência à ditadura militar do século passado. Era um tempo em que se acreditava em liberdade e se defendia a democracia; as novas gerações devem saber que se viveu em busca de valores da nacionalidade e da cidadania. O tempo da utopia está encerrado, dele restando apenas o testemunho.
Infelizmente, não há eficiente divulgação e distribuição desses testemunhos da província, e, nem sempre, as edições são bem cuidadas, guardando mesmo falhas de revisão.
Entre os autores ribeirãopretanos, está Vanderley Caixe, com o seu 19 poemas da prisão e Um canto da terra (Ribeirão Preto: Villimpress; Rotary Clube de Ribeirão Preto; OAB-Rib. Preto; Associação dos Advogados de Rib. Preto; ACRIMESP, s. d.), relançado, em setembro de 2002, durante a 2ª Feira Nacional do Livro. Há depoimentos que devem ser repetidos, para que seja lembrada a coragem de enfrentar o arbítrio e a violência.
A primeira parte do livro traz 19 textos do tempo em que Vanderley esteve preso em Presidente Wenceslau (1972-1974). A segunda parte, “Um canto da terra. Dionila camponesa” tematiza a questão agrária no Brasil. As duas partes guardam profunda intimidade, apesar dos anos que separam a gênese de cada uma. A unidade está na coerência ideológica, no compromisso político, no exercício da militância, que perpassam poeticamente todos os textos, e se confirma em poema(s) e em canto.
Na poesia de Vanderley, revisitar as contingências do indivíduo, vítima da violência e do arbítrio, ou interiorizar a dor de uma coletividade são atos revolucionários. Admitir a dor, cantar a dor, é pronunciar “um sim, numa sala negativa” (para lembrar João Cabral…). Nada mais subversivo do que falar da dor, seja individual ou coletiva. Principalmente, com a contundência de Vanderley. O sem reservas de seu discurso poético traduz a dimensão da dor, que, em exercício de catarse e de proposta de comunhão, ganha a universalidade do canto, tornando radical a denúncia, não mais nos permitindo a doce comodidade do esquecimento ou da indiferença. Mantém viva a memória. Veementemente, o poeta recusa a barbárie.
Os textos traduzem dignidade, decisão de luta. A dor ganha significados novos, ao adotar a expressão literária, ao verbalizar a opção da militância. Combinando essas alternativas, faz-se depoimento, exemplo de opção de vida; torna-se poema(s) e canto da terra, canção de luta e de vida.
Vanderley faz nossas as dores da juventude utópica e da realista vida adulta e profissional.
Os poemas nos convocam à reflexão.
Nos 19 poemas, há privação da liberdade e sujeição à violência: “Encerrado nessas grades/ censurado vou fazendo”; “nas prisões, nós, os bandidos”. A noite, metáfora do cárcere, possível de ganhar tradução na solidão, é presença desde o primeiro poema: “Que sozinho nesta noite”. Mas, no paradigma da ansiedade ou do desejo de evasão, vê-se a construção isotópica da noite, enquanto tempo de engendramento do sonho e do espaço da liberdade: “E os guardas vigiam/ o sono fugitivo do preso./ A fuga no sono.”
Da realidade grosseira, a amada está distante. O eu poético cultiva sua sensibilidade e sua afetividade no resgate do encontro amoroso, mesmo acontecendo no palco da prisão: “… em dias como esse,/ eu a tive em meus braços, em meus beijos,”. Na dor, experimenta a ternura: impõe-se humano, revivendo seus sentimentos – vejam-se “Lembrança de você” e “Lembrança de você II”.
Em alguns momentos, o sujeito da enunciação prefere a posição de observador do absurdo, como em “Hoje, dia X” e em “Hora do almoço”. Fala do sofrimento do outro, como se guardasse uma posição de fora. Pudor, para se dizer vítima da mesma estupidez? Impossível não verificar que o sujeito da enunciação é o do enunciado: o eu encontra-se no padecimento do outro, cabendo-lhe a denúncia. Confirmando essa leitura, está o título “Hoje, dia X”: sem data precisa; qualquer dia; todos os dias. Ou seja: o tempo cronológico não importa. Fala-se de um tempo vivido como dor. Em sua intensidade, pode ser qualquer dia, o “dia X”, o dia da violência. E mais: a datação “X” sublinha a perda dos referentes, o processo de alienação a que estão submetidos tanto a vítima como o observador, isto é, o sujeito do enunciado e da enunciação: o eu.
O discurso de denúncia anula a aparente neutralidade da enunciação que se quer descritiva em “Na hora do almoço”. O eu articula o discurso do outro, para nos dar “A ânsia de reação./ A sensação de impotência. A angústia doída.”, enquanto o prato de arroz queda no cimento. Ou seja: os 19 poemas da prisão são palavra do eu poético, impregnado na comunhão com a alteridade. E isso só pode ser alcançado pela solidariedade revolucionária, pela identidade de vivências e de angústias – pela expressão poética, que dilui a alteridade.Os poemas são datados, mas o autor preferiu quebrar a ordem temporal ao organizá-los, pois o tempo do eu não pertence ao calendário. Este é um tempo interiorizado; tempo que se faz memória e testemunho de situações extremas.
Discurso de denúncia? Tais versos extrapolam a denúncia. Ninguém se desnuda tanto ao falar do sofrimento, só como atitude revolucionária. O sujeito precisa manter sua integridade, sob pena do risco da fragmentação ou do abismo da despersonalização. Melhor é ler a catarse: são poemas de reencontro, na necessidade de vomitar as angústias, que afloram traduzidas no discurso poético – única forma possível de exorcizá-las, para realizar a passagem. Sabendo-se que os poemas foram compostos no período de confinamento, é inequívoca a catarse, então, como forma de sobrevivência diante da brutalidade e do arbítrio: fuga da fragmentação.
Publicados e relançados tantos anos depois (a 1ª ed. é de 1999), conjugam catarse e denúncia, e confirmam a coerência do eu. Falar das dores do cárcere impõe-se como atitude revolucionária: dividir, poeticamente, para a comunhão com o leitor, a memória de um tempo. Se há participação na alteridade, quando o poeta configura o torturado, temos, agora, um convite a nossa participação, na medida que recebemos um discurso da exemplaridade, e, com o eu, continuamos a travessia em demanda da liberdade.
A segunda parte do livro, Um canto da terra, pinta, com cores fortes, a situação dos trabalhadores rurais no Brasil. O tom é inflamado pela revolta e pelo objetivo da denúncia.Centrado na camponesa Dionila, encontra, nessa mulher, a síntese do desespero e da desesperança de todas as vítimas da política fundiária. Como resultado, Dionila desindividualiza-se, adquirindo linhas emblemáticas, que remetem a uma proposta política.
Literariamente liberta das circunstâncias imediatas, Dionila aproxima-se da Virgem Maria, enquanto protetora dos que padecem “neste vale de lágrimas”, e, como figura central na liturgia da luta, é invocada pelo autor como “ nossa mãe camponesa”.
Do livro de Vanderley recebemos lições de certezas. Uma é amarga: refere-se à permanência do arbítrio, que, camaleonicamente, muda sua atuação, para atingir novas vítimas, em qualquer tempo, não importa o palco. A segunda é inquietante: livramo-nos do esquecimento e perdemos a indiferença. O discurso poético sugere que todos contribuam para o fim do arbítrio como rotina da História, que, renovada, um dia permitirá às Dionilas de todas as latitudes plantar e colher o feijão nosso de cada dia, sem o medo universal da violência devastadora: “Nenhum inferno abaixo de nós/ E acima apenas o espaço/(…) Nada para matar ou morrer/ E nenhuma religião”. (Lennon)

Texto revisto e atualizado em janeiro de 2008.
Publicação permitida para o blog de José-Augusto de Carvalho.
© Copyright by Sônia van Dijck, 2002
Imagens cedidas por VC, 2002
Publicado em Conceitos, João Pessoa, ADUFPB-SS, n. 8, jul.-dez. 2002, p. 100-101.
Versão com o título “Poemas de testemunho”, Expressão feedback, Ribeirão Preto, v. 62, 28 out. 2002, p. 24-25. Rascunho, Curitiba, ano 3, n. 31, nov. 2002, p. 14. Versão com o título “Um canto da terra”, Continente multicultural, Recife, n. 24, dez. 2002, p. 63-64.


publicado por Do-verbo às 09:29
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