Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

 


 
Carrego a minha dívida de mim,
cumprindo a pena imposta até ao fim.

Da treva ou do mistério donde vim
à treva ou ao mistério que me espera,
espaço e tempo -- a sombra de Caim,
intemporal, persiste e dilacera...

E tudo é feio e gélido e ruim.
O inútil acontece e desespera.
Morreram os canteiros no jardim,
em maldição estéril e severa.

Que espírito ou desígnio de Eloim,
por sobre os ares paira e o sonho gera?
O sonho ensanguentado de Caim,
que nem remorso ou prece regenera...
 

José-Augusto de Carvalho
Moita (B.B.), 7 de Julho de 1995.


publicado por Do-verbo às 14:45
Terça-feira, 20 de Março de 2012

Sonho meu, que estás em mim,
que sempre bendito sejas!
Oxalá que me protejas
até que chegue o meu fim!
 
Que sempre a tua vontade
seja o pão de cada dia,
que me alenta na porfia
de chegar à claridade!
 
Perdoa as hesitações
e os passos tantos perdidos...
Que possam ser entendidos
como severas lições!
 
E nunca me deixes só
nem sequer quando eu for pó...

 
 
José-Augusto de Carvalho
13 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 17:29
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

 

 
(Última Ceia, de Leonardo da Vinci)
 
Que manto de silêncio assim te esconde,
perdida sob névoa e banimento?
Já nem o eco à minha voz responde!
Até te silencia a voz do vento!
 
A boa nova, espanto e maravilha,
aos outros que ficaram, tu levaste.
Eleita, confirmaste, na partilha,
a força da raiz na frágil haste.
 
O turbilhão dos tempos te tragou.
Das trevas sem registo e sem memória,
a lenda que o sem tempo deslumbrou
no todo o sempre escreve a tua história.

Na tela onde o pintor te quis dilecta,
eu vivo a minha angústia de poeta.
 
 
José-Augusto de Carvalho
26 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 10:47
Sábado, 16 de Julho de 2011



Perdoa-lhes, Senhor! Não sabem o que fazem...
 
E a súplica fixou a essência da mensagem!
 
E séculos depois, persiste esta viagem,
 
Enquanto a denegri-la os neros se comprazem.
 
 
 
O verbo floresceu por tempos, por espaços,
 
e pétalas de luz juncaram as estradas,
 
guiando, passo a passo, as árduas caminhadas,
 
suadas de esperança, anseios e cansaços.
 
 
 
No fértil chão da fé, medrou a boa nova.
 
A chama do perdão, sagrado no martírio,
 
A lucilar no altar da vida, como um círio,
 
Trazia da verdade a derradeira prova.
 
 
 
Nos pântanos do fel, ainda as aras de ira
 
Incensam o estertor da idólatra mentira...
 
 
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
 
Lisboa, 12 de Julho de 2011.


publicado por Do-verbo às 07:30
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
 
No princípio era o verbo... e Deus estava só!
 
Na graça da nudez, a terra seca, em pó...
 
 
 
Da fonte que mitiga a sede do infinito,
 
tirou um pouco de água e o pó dessedentou...
 
Da lama resultou o barro... e levedou!
 
Depois, foi só criar. Assim nasceu o mito.
 
 
 
Deste mistério santo, a carne é Deus e barro!
 
E o barro, que é de Deus, recusa os adjectivos.
 
É barro e nada mais. A graça que há num jarro
 
também lhe vem de Deus. Sem outros aditivos.
 
 
 
A débil mente humana é que perversa impõe
 
insólitas noções e o santo barro inquina...
 
Mas, ai, se a gente (im)põe, só Deus é que dispõe...
 
e uma graça de Deus só pode ser divina!
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
16 de Março de 2002
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 04:22
 

 

Não me peçam nem prece nem círio,
 
evocando o doer do martírio!
 

 
Eu apenas levanto um padrão
 
nesse tempo cumprido e prossigo.
 
Levo o pão repartido comigo
 
e a Verdade é a minha oração.
 
 
 
A verdade fraterna e concreta,
 
que balsâmica olora e floresce
 
quanto mais sobre o pântano desce
 
o livor que angustia e inquieta.
 
 
 
Neste parto de dor e porfia,
 
o milagre levanto do chão.
 
O milagre fraterno do pão,
 
do pão nosso de todos os dias...
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
13 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 04:16
Sexta-feira, 03 de Junho de 2011
 
Dórdio Gomes (pintor alentejano)
 

 
Creio em mim, peregrino na Vida,
 
nesta espera de um céu, mas na terra,
 
e na força do grão que germina
 
concebendo o milagre do pão
 
que ceifei, debulhei e moí
e depois amassei com as lágrimas
 
em que afogo a revolta do servo.
 
Cada dia que nasce cá vou
 
eu descendo aos infernos
 
onde os servos extraem o pão
 
que empaturra os senhores.
 
Creio ainda no sol do amanhã,
 
na certeza de mim,
 
no homem livre,
 
na justiça dos homens,
 
no clamor da Verdade
 
sobre a Terra.
 
Assim seja!
 

 
José-Augusto de Carvalho
2 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 03:37
Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

 

Foi cumprindo calendário

que chegaste à hora certa.

É o verbo milenário,

presente, nesta hora incerta.

 

É mais um aniversário

que na esperança desperta

este marasmo diário

da tua igreja deserta.

 

Igreja que é assembleia

e não o templo onde outrora

uivavam em alcateia

os doutores de outroragora.

 

Da treva ainda na cruz,

Agnus dei -- instante luz!

 

 

José-Augusto de Carvalho

Dezembro de 1998.

Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 14:38
Domingo, 09 de Janeiro de 2011

 

Carrego a minha dívida de mim,

cumprindo a pena imposta até ao fim.

 

Da treva ou do mistério donde vim

à treva ou ao mistério que me espera,

espaço e tempo -- a sombra de Caim,

intemporal, persiste e dilacera...

 

E tudo é feio e gélido e ruim.

O inútil acontece e desespera.

Morreram os canteiros no jardim,

em maldição estéril e severa.

 

Que espírito ou desígnio de Eloim,

por sobre os ares paira e o sonho gera?

O sonho ensanguentado de Caim,

que nem remorso ou prece regenera...

 

 

José-Augusto de Carvalho

Moita (B.B.), 7 de Julho de 1995.


publicado por Do-verbo às 14:44

 

As vítimas do tempo e o temos dos algozes.

Incómodo é, no tempo, o tempo em desafio.

Em cada pôr de sol, cinzento, insone e frio,

deslumbram-se, a sangrar, brutais apoteoses.

 

O tempo que se quer, no verbo o seu agir.

Eu sou, tu és, ele é, nós somos o sujeito.

O medo arranca, a frio, o coração do peito

e o corpo inerme cai, doendo, a sucumbir.

 

O tempo convenção, exacto e por medida.

O tudo e o nada, o perto e o longe, aquém e além.

O amor e a dor, a paz e a guerra, o mal e o bem.

No cativeiro jaz a terra prometida.

 

O tempo já cumprido e o tempo por cumprir.

Sem Judas nem Cains, o sonho a resistir.

 

 

José-Augusto de Carvalho

4 de Junho de 1997.

Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 07:36
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