Terça-feira, 09 de Julho de 2013

 

 

 
 
Ah, vida, vida, insano desafio,
que tanto nos perturba e determina!...
Ah, fio de água incerto na campina,
espelho de abandonos e pousio!
 
Que tentações sofridas, que percalços
doendo a carne viva dos caminhos?
Tão acerados são estes espinhos!
E como sangram tantos pés descalços!...
 
Ah, tempo por erguer, bendito e belo!
Ah, vinho e pão de aurora e temperança 
no céu pairando em balsas imprecisas!
 
Que mais nos pedes tu por este anelo:
um templo de verdade onde as crianças
p'ra sempre sejam as sacerdotisas!
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Setembro de 1996.
Corrigido,Viana, 8/7/2013.


publicado por Do-verbo às 00:40
Domingo, 07 de Julho de 2013
(Para o Escultor)




 

Toda a obra que há-de ser

é a angústia dum apelo.

É a Arte a acontecer.

Da forma em metamorfose,

é quando o barro da pose

é o barro do modelo.

 

Um apelo em que me apelo,

gerando a metamorfose:

a vida barro da pose

que em barro vida modelo.

 

Sou do belo um instrumento,

quer no barro que modelo,

quer na pedra que cinzelo,

quer nos milagres que intento...

 

Minhas mãos , em mil agruras,

sofrem sempre a tentação

e o constante pesadelo

ou de encontrar as alturas

ou perder-se no modelo,

em amarga provação.

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 8 de Setembro de 1996.


publicado por Do-verbo às 19:02
Domingo, 16 de Junho de 2013

 

 




Dei tudo quanto tinha para dar...
Até a fantasia do meu canto!
Ai, que saudade tenho do luar
e da ternura argêntea do seu manto!

Saudade concebida de pureza,
na dádiva de um vago estremecer.
Enleio enamorado a prometer
antemanhãs sonhadas de beleza.

E neste fim já próximo da estrada,
desfio este rosário que sustenho
numa vigília trémula e cansada.

Sem ilusões nem sonhos, a desoras,
ainda, nesta espera que mantenho,
pergunto à Vida: Por que te demoras?



José-Augusto de Carvalho
16 de Junho de 2013.
Viana*Évora*Portugal



publicado por Do-verbo às 23:53
Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

Da Poesia Pura 

É quando a noite cai, doendo, nos meus braços,
e tremem, no silêncio, os medos ancestrais,
que irrompe a escuridão e, aquém dos meus umbrais,
me envolve, em seu torpor, em lânguidos abraços.


Se tardo adormecer, segredos me suspira,
segredos que eu esqueço ao despertar-me a aurora.
Mas não desiste nunca e torna, sem demora...
Rendido acontecer e ser de quem delira.


E a minha insónia teima em conceder-lhe espaço.
Meu corpo exausto e lasso entrega-se, rendido.
E a noite, sem pudor, despindo o seu vestido
de angústia e escuridão, reclama o meu abraço.


Abraço que não dou, mas sempre lho consinto
assim como se fosse um cálice de absinto...

 


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 10 de Abril de 2013.



publicado por Do-verbo às 13:20
Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

 

 
*
 

Inteiro, o pensamento na linguagem.

Palavra após palavra, a tessitura.

Palavras, partituras, frescos agem,

aqui e além, desertos de procura.

 *

Linguagem-pensamento, a construção

que tenta, tenta e logo se esboroa...

Regresso instante ao caos - desconstrução...

...e nova construção pensada ecoa.

 *

Vaivém de ser / não-ser, o movimento

perpétuo e sideral com pés no chão,

dilacerado a golpes de ígneo vento.

 *

Suspenso, o braço erguido, aberta a mão,

a busca, mais além, no céu cinzento,

determinado e só, num gesto vão...

 *

*

 

José-Augusto de Carvalho

13 de Fevereiro de 2013

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 12:06
Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Não sei quem és, mulher ou homem, que interessa?
De ti, me importa a paz que trazes... ou a guerra.
De ti, me importa o cheiro a vida, a sangue, a terra...
De ti, me importa o verbo alado da promessa.
*
Além do verbo, tu, efémera existência,
na dor e no prazer serás como os demais.
Não sei donde vieste ou para onde vais,
nem faço de sabê-lo insólita exigência.
*
Importa-me saber os êxtases das horas
que vives nesse caos de sonho e rebeldia,
nesse insondável caos que cantas e que choras...
*
E deixa-me voar no verbo que irradia,
que subo, além limite, até onde tu moras,
nas horas em que tu és deus e poesia
*
 
José-Augusto de Carvalho
5 de Janeiro de 2005.
Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 16:53
Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

 

 

 

Folheio devagar o livro dos meus dias.

Às vezes, volto atrás, relendo as folhas lidas.

E, nesta revisão, imagens já delidas

revivem-me o candor de antigas alegrias…

 

Menino, o tempo vem cantando a primavera

que fui a florescer futuros anelantes!

Um tempo que hoje dói nos álbuns, nas estantes… 

enquanto o coração de angústias se lacera.

 

Melhor fora banir de mim estas amarras.

Melhor fora matar memórias e saudades.

Melhor será morder agora as frias grades

e firme recusar plangências de guitarras.

 

Meu fado é desfraldar bandeiras e ir avante…

Que em lágrimas embora, eu só futuros cante!

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 1 de Setembro de 2012.



publicado por Do-verbo às 17:19
Quarta-feira, 05 de Setembro de 2012

 

 

 

 

Sobre as dunas do tempo,

a memória de mim.

 

O tempo convenção

que mede as rotações

que nos geram os dias…

O tempo convenção

que mede as translações

que nos gerem os anos.

 

E neste fatalismo planetário,

a memória de mim

cavalga os movimentos

sobre as dunas do tempo.

 

E quando não houver

já memória de mim,

as mesmas rotações,

as mesmas translações,

várias, perdurarão

na dimensão do cosmo,

além da convenção

das dunas do tempo

finitas que inventei…

 

 

José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 5 de Setembro de 2012.



publicado por Do-verbo às 18:08
Terça-feira, 13 de Março de 2012
 
Perscruto a massa das palavras várias.
Com elas tento o por haver do verso:
O ritmo belo ou o fulgor das árias;
um arco íris de esplendor disperso.
 
E nada encontro para além do rito
vulgar e baço deste dia a dia...
Poeta-génio, assombração do mito,
que vida em ti além da minha havia?
 
Que flores belas de perfume raro?
Que sonhos lindos de esperança viva?
Que antemanhãs descortinaste ledos?
 
Aqui, confesso-me um lapuz ignaro,
olhando a vida que se esvai esquiva,
deixando-me hirtos os infrenes dedos...


 

José-Augusto de Carvalho
12 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 09:18
Quarta-feira, 07 de Março de 2012

 

 
Sobraço um ramo de papoulas rubras.
São sangue vivo dum adil sem nome.
Oh, noite em sombras, oxalá me encubras
de algum olhar que por ladrão me tome!
 
As minhas mãos ensaguentadas tenho.
Que importa? É sangue desta terra e meu!
É sangue mártir a lavar o lenho
donde a verdade ainda não desceu.
 
Amado chão na dimensão azul
dum céu sem nuvens prometendo tudo,
que tremulina de dourado tule
cerra os meus olhos em estreme ludo?
 
Ai, desafio que me tentas tanto,
eu já não posso nada além do canto!...


 

José-Augusto de Carvalho
4 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 

 

 



publicado por Do-verbo às 07:55
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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