Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
POR UM NATAL CRISTÃO
José Augusto Carvalho
No início da década de 60, no século passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou um livreto de título sugestivo: O catolicismo ainda é cristão? Referia-se a uma Igreja latifundiária e rica, cuja ostentação era um acinte à pobreza da grande maioria dos seus fiéis.
Toda religião, em princípio, é santa, porque une os homens à divindade pelo caminho do bem e da paz de consciência. O problema é que todo líder religioso, além de transformar a fé num rol de proibições e toda alegria da vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo e a convencer os outros, por bem ou por mal, de que a sua religião é a melhor de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que “os homens jamais praticam o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”. O pior é que os religiosos, muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral e seus conceitos a quem não reza pela mesma cartilha. O divórcio, por exemplo, levou meio século para instituir-se no Brasil, graças à imposição de pregadores religiosos, que, absurdamente, toleravam o desquite, que era uma situação ainda pior que o divórcio, sob todos os pontos de vista, por permitir a mancebia e impedir novo enlace legal. O mal do século não é o estresse, não é o efeito estufa, não é o degelo polar. O grande mal do século ainda é a intolerância, o desrespeito às idéias alheias, à moral e à fé de quem pensa de maneira diferente.
No dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus, por uma especial concessão ao paganismo. Jesus teria nascido em março do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no ano de 525, para cristianizar as festas pagãs que se realizavam nessa época ao deus solar Mitra que, apesar de persa, era festejado em Roma, nas comemorações do solstício de inverno. Ainda por concessão ao paganismo se cultuam os “reis magos” que não eram reis, mas sacerdotes da religião persa, que tinham o nome de “magos” por serem sábios e considerados possuidores de dons divinos. Também por concessão ao paganismo a sede da Igreja Católica se chama Vaticano, nome do deus romano responsável pela fala dos homens, porque se acreditava que a primeira sílaba de seu nome era a primeira manifestação linguística oral de uma criança. Daí surgiu o verbo “vagir”, do latim “uagire”, que significa “fazer uá”.
Também concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade de imagens, a extensa polimorfia da figura da mãe de Jesus e do próprio Cristo e a gigantesca hagiolatria católica.
Apesar de tudo, ainda se considera que o catolicismo seja cristão...

O Natal deveria ser realmente não uma data, mas uma época de confraternização e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745): “Temos bastante religião para fazer-nos odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”

Por isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá que me dessem um presente útil a todos nós: que as religiões se respeitassem mutuamente, que nenhuma delas se considerasse a única verdadeira ou a melhor de todas e, finalmente, que o espírito do Natal prevalecesse todos os dias do ano, em todas as religiões.
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Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, Brasil.
Texto publicado no jornal A Gazeta, em 23 de Dezembro de 2007.


publicado por Do-verbo às 07:50
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