Domingo, 24 de Agosto de 2014

TRISTEZA DE SER VELHO

(08-12-2012-Pensar)

 

José Augusto Carvalho

 

 

         Acho que foi em Terra dos Homens que Saint-Exupéry escreveu uma bela página a respeito da idade do homem. A idade representa segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas de permanente exercício de aprendizagem de vivências únicas, de alegria, de tristeza, de dor, de encantamento. A idade do homem (homem, aqui, no sentido de ser humano, que inclui também a mulher) é um mistifório de emoções, de pensamentos e de experiências acumulados ao longo dos anos.

         Mas chega um momento em que a idade pesa mais do que podem suportar os ombros ou uma cabeça de mente lúcida e aberta, a contradizer a frase de um pensador da Antiguidade, talvez Hipócrates, para quem a juventude é, não uma fase da existência, mas um estado de espírito, na ideia poética, talvez falsa, de que o que faz a juventude é o ideal.

         Na verdade, ainda que tenha ideais ou a ânsia de viver e de ser útil, o homem (homem aqui novamente em sentido genérico) enfrenta com a idade problemas que não se resolvem nem com vontade nem com bom senso: a carne é fraca, ainda que seja forte o espírito. E por fraqueza da carne entenda-se aquilo que o “acidente de Senectus” produz , no dizer de Augusto dos Anjos: “a miséria anatômica da ruga”. E não me refiro à ruga como a carquilha que estria o corpo e tortura a mente, mas como um símbolo de destruição e de aniquilamento, como uma sanguessuga que leva à degeneração dos tecidos, ao enfraquecimento dos órgãos, ao surgimento de dores, de artrites, de problemas geriátricos inevitáveis.

         Disse eu uma vez, comentando as queixas de Manoel Lobato a respeito da própria velhice, que o triste não é envelhecer, mas não saber envelhecer. Perdoe-me o leitor a palinódia: o triste é envelhecer mesmo. “Melhor idade” para designar a velhice é bobagem ou conversa para boi dormir. A melhor idade é a da juventude, entre os 15 e os 30 anos. E “terceira idade” é outra bobagem ou um contrassenso, porque acredito que só haja duas idades: a do jovem e a do velho. Rendo-me não aos argumentos de Manoel Lobato, porque ele não me contestou, mas aos argumentos da própria vida.

         O poeta maranhense Alfredo de Assis, num soneto chamado “Pranto e riso”, diz com acerto, embora com crueldade: “No pranto da criança não diviso / mágoa nenhuma: é todo luz e encanto. / Tem, nuns restos de sol e paraíso, / toda a ternura matinal de um canto. // Mas de um velho, num rápido sorriso, / mágoas profundas eu percebo entanto./ No pranto da criança há quase riso. / No sorriso do velho há quase pranto.// Um velho ri: é um pôr do sol que chora. / Chora a criança: é como se uma aurora / num chuveiro de pétala se abrisse.// E tem muito mais luz, mais esperança, / a lágrima, nos olhos da criança, / que um sorriso, nos lábios da velhice.”

         Fiquemos com a ironia lúcida de um aparente nonsense de Bernard Shaw: a juventude é uma coisa bonita demais para ser desperdiçada com os jovens.

         A velhice é triste. A velhice é muito triste. A velhice é tristíssima.

 

__

 

(Publicado inicialmente em 10-07-2002)

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:51
Domingo, 24 de Agosto de 2014

A VELHICE E A VIDA

(Pensar, 7-02-14)

 

 

 

José Augusto Carvalho

 

 

Eu gostaria de ter a minha idade, mas sou mais velho do que eu mesmo. Preocupa-me o avanço da velhice , e vivo como se tivesse alguns anos mais... Ninguém me avisou de que a velhice  dói.  Não me preparei para ela...

Acho que vem do francês as duas condicionais sem a desnecessária  conclusão:  “Se juventude soubesse... se velhice soubesse...”  Muitos velhos talvez quisessem voltar a ser jovens, pela nostalgia que sentem do vigor perdido. Mas talvez isso signifique abrir mão da experiência e do conhecimento acumulados. Querer voltar à juventude é  desejar cair nas mesmas armadilhas e trapaças da vida que calejam a alma e enriquecem a mente. Eu nunca desejaria passar por isso tudo de novo.

Uma frase atribuída a Hipócrates sugere que  a velhice é um estado de espírito, e que é o ideal que faz a pessoa sentir-se jovem. Há mentiras maiores do que essa. Não é o ideal que impede o avanço da fraqueza física nem os carunchos nos ossos.

Perdemos muito tempo dormindo. Se as pessoas dormem oito horas por noite, então dormem a terça parte de um dia, a terça parte de um ano, a terça parte da vida. Um homem de 75 anos passou no mínimo 25 anos dormindo. Um desperdício de tempo, que poderia ser aproveitado pelo menos durante a juventude para que pudéssemos curtir melhor a vida. Mas a natureza madrasta exige que a recuperação física pelo sono nos tome tanto tempo útil da vida...

No conto “O imortal”, do primeiro volume de Escritos avulsos, Machado de Assis, conta a história de Rui de Leão, um franciscano que recebeu do  seu sogro, o cacique Pirajuá , um elixir milagroso que lhe garantiria a imortalidade. Durante mais de duzentos  anos, nosso homem viveu sempre jovem, viajou por vários países, aprendeu inglês, latim, hebraico, francês, italiano, alemão, húngaro, conheceu muitas esposas, viu-as morrer a todas e aos filhos, netos, bisnetos, trinetos , tetranetos , pentanetos... Quando se cansou de viver, bebeu o resto do elixir que o cacique lhe dera  e morreu.  Não desejo a imortalidade, mas invejo o personagem machadiano por ter vivido sempre jovem e ter escolhido o momento de morrer.

Não sei se teria sentido a vida desse personagem. Mas isso não importa.  Talvez o sentido da vida consista em se procurar um sentido para ela. Vale dizer:  a vida não tem sentido nenhum.

De qualquer forma, esse personagem teria tido tempo de sobra para refletir sobre a vida e sobre si mesmo. Talvez ele tenha sentido na própria carne que a morte dói, quando foi condenado à guilhotina, durante a Revolução Francesa, mas a pena foi comutada porque a lâmina afiada lhe atravessava o pescoço sem conseguir matá-lo.

Não precisei ser guilhotinado para entender que a morte dói. Mas a velhice dói muito mais.

 

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:45
Domingo, 24 de Agosto de 2014

O LEITO SECO DE UM RIO

(08-01-14)

 

José Augusto Carvalho

 

 

Num de seus poemas – cito de memória – diz Hilário Soneghet, um dos maiores poetas capixabas que ombreia com Narciso Araújo ou Benjamin Silva em talento poético: “O velho é um traste que se põe de lado.”

Pôr de lado um traste é, de alguma forma, reparar nele. Mas o velho, às vezes, é um ser quase invisível que poucos notam e que muitos desprezam. Por exemplo: num ônibus cheio, os mais jovens, devidamente sentados, fingem dormir para não se sentirem na obrigação de ceder lugar a um idoso. Há sempre uma expectativa que as situações ensejam. Fingir dormir é uma forma de frustrar a expectativa de um comportamento socialmente desejável.

O desprezo pelo idoso é oficial: o salário do aposentado vai minguando a cada dia, embora as obrigações fiscais continuem as mesmas ou aumentem. E o pior é que é na aposentadoria que o idoso mais precisa de dinheiro para fazer face pelo menos aos problemas de saúde típicos da idade.  O governo petista, que protege bandidos como Cesare Battisti e defende os mensaleiros que minaram a reputação do Partido,  atacou os mais fracos, impondo a taxação dos aposentados, pretensamente para diminuir o déficit da Previdência. Mas esse déficit poderia acabar, sem  desrespeito ao direito adquirido dos velhinhos aposentados, evitando-se ou punindo-se a corrupção em casos flagrantes, como o denunciado pela Folha de São Paulo, edição de domingo, 20-10-2013:  “SUS paga 201 vezes, num único dia, o atendimento a um único cliente em uma clínica de Água Branca, no Piauí.”  Nossos congressistas são os mais caros do mundo. Por que não diminuir pelo menos os privilégios e as mordomias dos nossos parlamentares que podem aposentar-se com um único mandato de 4 anos, com direito a um plano de saúde integral o resto da vida? Sobraria dinheiro para os cofres da Previdência, e até se poderia suprimir a taxação dos aposentados, já que o julgamento do mensalão provou que muitas medidas do governo foram aprovadas graças à falta de caráter e de honestidade de parlamentares venais.

No dizer ainda de Hilário Soneghet, em outro poema que também cito de memória: “Ser velho é ter conselhos para dar. / É ter enfim o dom iluminado / de ensinar as vitórias do futuro / com as derrotas sofridas no passado.”

O problema é que, ainda que o velho tenha conselhos para dar, isso não significa que ele tenha a oportunidade de ser ouvido, nem que haja interesse nos mais jovens em aprender vitórias com as derrotas dele.

Dizia Rabindranath Tagore, poeta indiano, prêmio Nobel de literatura, em seu livro Pássaros Perdidos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, p. 18), em tradução de Abgar Renault:“Ninguém dá graças ao leito seco do rio pelo seu passado.”

O velho é um leito seco de um rio.

 

 

 

Cidade de Vitória * Estado do Espírito Santo * Brasil



publicado por Do-verbo às 22:34
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
mais sobre mim
blogs SAPO
Agosto 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

25
26
27
28
29
30

31


pesquisar neste blog
 
subscrever feeds