Quinta-feira, 17 de Julho de 2014

AMOR MEDIEVAL

 

 

       José Augusto Carvalho

 

                                                                      

 

A cada quem seu destino...

 

            De mulher é pouco o falar muito, que todas são uma só, de diferentes rostros, mas a pran de igual felonia. E conto-vos per que faredes de mi gran juízo desto meu guisar de quedar-me solitário e pera mostrar que sandice maior non há que a de fazer-se creúdo da dereiteza de tôdalas mulheres.

             E foi do modo seguinte.

             Muito afazida com as coisas da casa e do lar diziam ser Dona Urraca, dama bem talhada, de muita fremosura e recato. Acaeceu, enton, que o marido, muito mal andante, enfermou de danoso mal que o achantou de vez em caixão de amesurado porte. Aguardei-me de declarar, sem aguça nem adiano, o meu amor de apaixonado sentir, per que non achava de aguisado proceder dizer-lhe que estava cobiçoso de ela, em per diante de tan recente enviudamento. Ao velório fui, muito acordado de morte tan desejada, mas enfingindo sofrença, e louvaminhando de passo calado a albergada dolorência que em mau ponto lhe tirara a ela o grado de viver.

            Non queria eu agravecê-la com o apoer mal prez ou contar que o marido era doneador, mui galanteador de outras damas, aquestas pouco adestradas, per serem desvergonhadas e se darem a tôdolos que lhes pagassem. A viúva semelhava muita desaventurança e careza de saúde, tantas eram as lágrimas doridas que trilhavam seu rostro de alvaiade. Muito desensinado seria de minha parte propor entendença nova de amores con viúva recém, que orava em perante o corpo do marido. Per esso de muito ser cavalheiro foi que só lhe disse, mentireiro, per delicado devotamento:

            — Senhora Dona, non sabedes vós desse marido con que vós agora non sodes mais, porende vos digo que duvidança non há que outro mais honesto en este mundo non acharedes, nem tam virtuoso de tôdalas virtudes de cavalheiro.

               E afirmei-lhe que tôdolos cabelos canos de minha cabeça eu cortaria per câmbio de vê-la viçosa a ela, sem mais doloroso pranto.

               E fui-me.

             Alguns meses quedei-me à sua porta per vê-la de negro vestida entrar da missa, muito desejoso de um olhar seu dela. Mas um dia albergou meu coração façanhuda coragem de achegar-me a ela e falar-lhe de meu sentir.

            — De mi non duvidedes, Senhora Dona, que muito vos amo de amor mais ancho que o mundo; que de tôdalas damas que conhoço, outra non há como vós, de aguisada dereiteza de dona bautizada e cristã. E acharedes en mi, pera correger vossa solitude e pobreza, em juntando casamento comigo, que sou um cavalheiro que non sabedes cujo é o passado, mas que acredita que tenhades en el um futuro aventurado.

              Desbulhei assi minha lazeira de amor, na querência de resposta esperançosa. E acalei-me, à espera do seu guisar, que non tardou, e que me fez trilhar de novo, mal treito, o chão da realidade treda: ela non havia queixume de mi, que me sabia homem de bom proceder, mas apenas aos domingos ela podia acordar-me dereitos de marido, per que em tôdolos outros dias da semana já outros cavalheiros a ocupavam com esses mesteres de cama, e que nem uma solitude sentia nem ouro lhe falecia, em desde que enterrara o esposo.

              Arar com lobos não é aguisado de uma dama que eu pensei de boa formação cristã e virtude numerosa. Muito sanhudo teria eu me quedado, mas faça quis cada quem seu mester pera o qual é nascido. E todo o meu amor per ela se foi, na tristura desso que escuitei de seus próprios lábios. E assi me quedo eu hoje, solitário e triste, per que outra dama nunca mais olhei, descreúdo de tôdalas outras. E nunca mais tornei a vê-la de novo, pera non acender a paixão que ainda teima em quedar-se nos perdudos da minha saudade.

 

 

 

 

 

 

 

 Cidade de Vitória, Estado de Espírito Santo - Brasil



publicado por Do-verbo às 16:55
Quarta-feira, 16 de Julho de 2014

A PASTORINHA

 

José Augusto Carvalho

 

 

 

Eu vos digo que sodes morta, ca sodes muito

  meninha. ( de A Demanda do Santo Graal)

 

 

             De muita alteza está da terra o céu pera contemplar-se Deus das miudices dos homens ou de aprazer-se de suas pequenezas bondadosas. Assi, pois, cresci eu desligado de toda religião, mas à meninha aquesta, mia filha, eu soube educar nas devidas ajuizanças e corduras de endurezada moralidade. Per ao menos era como eu achava. E nenhuma outra de sua idade me parecia haver que mais respeito tivera ao pai ou mais educada se mostrara ser, sem afetação nem aleivosia.

             Provei, venturoso, apesar de viúvo, tôdalas maravilhas que pude, assi per clerezia de amor como por al de mil prazeres e chus. Mas nunca alberguei maior doçura na vida e no coração que aquesse do amor que tinha eu pela mia pastorinha.

            Mas um dia veio um filho d’algo que eu desconhecia ser mazelado de muitos pecados, mas que muita ardura de amor assemelhou ter per mia pastorinha. Pera mister de conhecença se mostrou o forâneo, desentregado de tôdalas intenções maldadosas, e em per dentro do seu coração parecia albergar-se a catividade de sua paixão sincera. Como podia eu prever que era enfinta e mascaramento o que ele leixava parecer sinceridade de propósitos? E permiti que mia meninha e el se encontrassem de arrededor de mi, pera as palavranças de ternura, e uma vez que outra, por miúdos intervalos, eu os leixava um pouco insulados pera algum amoroso toque que lhes fizesse crescer a mútua benquerença, no desejo de se unir em diante do altar de Deus.

               De bom pastor é tosquiar e não esfolar. E então ficou el, frequentando mia casa, se humildando muito contra mi, pera merecer-me a simpatia de futuro sogro.

              Mas eu confiava na mia pastorinha, e mais do que mim sabia ela êsto de como portar-se com ardimento e cordice, nos momentos em que eu os desentregava a ambos os dois de mia presença, pera as abscondidas juras que os enamorados se fazem, na previsão de um futuro espartido a dois.

             Mesmo assi, às vezes, pera referimento de sua ajuizança, eu dizia à mia pastorinha: “Muito vos aconselho, mia meninha, pera que vós vos tenhades mui bem pagada e não sofrerdes o marteiro das desiludices, porque homem, por melhor que aparente ser como mim, pode causar lazeira de muita sofrença no coração de uma donzela.”

             Da razão é alheio quem do sábio despreza o conselho. E ela, boa filha e obediente, nunca achou fadeza de montanheiro nem destoantes protecionismos nos meus aconselhamentos de experiência madura.

             Mas é manhoso todo ardiloso. E um dia chegou então que o mancebo decidiu pedir a mão de mia pastorinha pera com ela liar-se no pera sempre diante de Deus, e eu febremente a outorguei, na tristura de perder a companhia dela e na certeza de não receber em troca o filho que o genro poderia ser pera mi. E comprei o que de melhor pude pera o legado do dote, e preparei com ligeirice o que de melhor pude pera a festa do casamento.

            Com moeda falsa é que se faz trapaça. Bom cavaleiro não há que lhe não venha um dia mal-andança, maiormente aquesse maltreito, como mi, mandadeiro de azarismos, que eu me julgo ter sido, contra a mia pastorinha, que migo até hoje houve solteira vida.

            Em palafrém foi ela, de garnacha e seda guarnida, com véu longo e branco que se arrastava da oussia da capela até a entrada da nave, de branco vestido de louçainhas e frol de laranjeiras a enfeitar-lhe a fronte querida.

            E a igreja aquecia de amontoada gente que o meu coração hospedava na  mia muita amizade, e que ali também esperava pelo noivo, mirando a mia pastorinha com olhos de maravilha per sua beleza e graça. E longadamente esperamos até que noite ficou, de tudo escurecer a igreja. E toda ledice se foi do meu peito, ao ouvir os soluços de dor e de vergonha da mia pastorinha, desprezada no altar, tendo o felão levado com sigo o dote que não merecia.

            Mas o que mais feramente magoou a mia pastorinha e que lhe falsou o coração que nunca mais guariu é que ela acreditou no casamento, e leixou que em seu coldre de tenra carne assestasse a arma do futuro esposo. Gosto primeiro, desgosto derradeiro.

              Ficou-me o neto que se fez meu filho e me chama pai, herdeiro apenas da mia solidão. E na mia pastorinha ficou a descrença nos homens e a tristura que não falecerá em tôdolos dias de sua pobre vida.

 

 

 

 

 

Cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo -Brasil



publicado por Do-verbo às 23:33
Terça-feira, 15 de Julho de 2014

 

 

 

 

 

Defines o teu perfil

com as pétalas da flor

duma alvorada de Abril,

vestida de amor e cor.

 

 

E falas da primavera

como do sagrado trilho

onde a liberdade gera

a verdade em cada filho.

 

 

E, faminto, o povo crê

na palavra armadilhada,

crendo ver o que antevê

na espera desesperada.

 

 

E, de logro em logro, vais

arengando que te cabe

o fazer melhor e mais

o que só o povo sabe...

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

11 de Março de 2007.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:53
Terça-feira, 15 de Julho de 2014

 

 

           

 

 

Bebendo os silêncios frios

das noites de solidão,

meus medos todos venci-os

 abrindo o meu coração.

 

 

Abri-o como se fosse

um cofre de pedrarias

e o seu refulgir me trouxe

de novo o sol dos meus dias.

 

 

Ah, meu amigo querido,

não há desterro paterno

que à vida altere o sentido 

do nosso amor que é eterno.

 

 

 

   

José-Augusto de Carvalho

28 de Outubro de 2006

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 17:19
Domingo, 13 de Julho de 2014

  

                                                                            

 

 

  (para Ena Beatriz)

 

 

Depois que Jeová criou este mundão                        

pegou de um barro à-toa e fez Adão.

Adão, como se sabe, era feliz,

porque vivia só, senhor do seu nariz.

Achando Deus, porém, que lhe devia

dar carinhosa e meiga companhia,

chamou-o, fê-lo dormir sono profundo

e, em menos de um segundo,

entre uma e outra roncadela,

passou-lhe o bisturi, tirou-lhe uma costela.

Depondo-a sobre a banca de oficina,

saiu e foi ao armazém da esquina

comprar tudo o que se requer

para fazer uma mulher:

verniz pra unha, pó de arroz, baton,

essências finas, rouge, algum creme Simon,

açúcar pra adoçar o coração,

dos olhos da serpente a força de atração,

e, para encher o crânio, à guisa de miolo,

comprou num confeiteiro um rico bolo.

Mas, nesse meio tempo, um cachorro vadio,

desses que trazem sempre o estômago vazio,

encontrando de carne a linda peça,

os alvos dentes crava-lhe depressa.

Inda estava lambendo os beiços, quando

Jeová, de regresso, foi chegando.

Pressentindo o que havia acontecido,

O Criador bradou, enfurecido:

-- Eu devia agora, arrancar-te o coração,

tareco sem vergonha, rafeiro ladrão!

Mas, afinal, prefiro a dar-te cabo

apenas amputar-te o rabo.

   E, juntando à palavra o gesto, com mestria,

tirou-lhe a cauda sem anestesia.

E dessa cauda de mil pêlos eriçados,

sem uma pulga esperdiçar sequer,

ah ! por mal de nossos pecados,

Nosso Senhor fez a mulher...

 

 

Demóstenes Christino

 

***

 

(CHRISTINO, Demostenes. Musa Bravia. Rio de Janeiro: Gráfica Nova Era, 1949, p. 95 até “tirou-lhe uma costela; p. 96, de “Depondo-a” até o final.) Na recitação, substituo “algum creme Simon”, que ninguém mais hoje conhece, por “algum creme da Avon”.

    O poeta  nasceu na Fazenda do Caju, distrito de Entrefolhas, município de Caratinga, no dia 4 de julho de 1893; faleceu em Ipameri, Goiás, no dia 18 de abril de 1962, com 69 anos de idade.

 Demóstenes Christino era tio-avô, por parte de mãe, do meu querido Amigo Professor Doutor José Augusto Carvalho, residente na cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo - Brasil.



publicado por Do-verbo às 23:22
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