Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

 

 
(Última Ceia, de Leonardo da Vinci)
 
Que manto de silêncio assim te esconde,
perdida sob névoa e banimento?
Já nem o eco à minha voz responde!
Até te silencia a voz do vento!
 
A boa nova, espanto e maravilha,
aos outros que ficaram, tu levaste.
Eleita, confirmaste, na partilha,
a força da raiz na frágil haste.
 
O turbilhão dos tempos te tragou.
Das trevas sem registo e sem memória,
a lenda que o sem tempo deslumbrou
no todo o sempre escreve a tua história.

Na tela onde o pintor te quis dilecta,
eu vivo a minha angústia de poeta.
 
 
José-Augusto de Carvalho
26 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 10:47
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011





















 

 

 

 

NOTAS DE VIAGEM - 4


A mão esquerda de Camões é que me guia.
Poeta e vagamundo,
icei-me ao cesto da gávea.
Além de tanto mar, de tanto céu,
tentei enxergar morenas terras de Espanha
areias de Portugal.
Parti na busca ousada de mim.
Abri estradas molhadas de lágrimas
e vestidas de saudade e de escorbuto.
Entrevi, no manso marulhar, apenas a sedução
da sereia desnudada na brancura de noivar
de mantos de espuma e mito.
Perdido de mim na descoberta do mundo,
já não há morenas terras de Espanha
areias de Portugal.
Além de tanto mar, de tanto céu, só esta lenda de mim...


José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal


***


NOTAS DE VIAJE - 4


La mano izquierda de Camoens es mi guía.
Poeta y vagabundo,
me icé al cesto de la gavia.
Más allá de tanto mar, de tanto cielo,
intenté divisar morenas tierras de España
arenas de Portugal.
Partí en busca osada de mí.
Abrí rutas mojadas de lágrimas
y vestidas de nostalgia y de escorbuto.
Entreví, en el manso oleaje, apenas la seducción
de la sirena desnuda en la blancura del noviazgo
de mantos de espuma y mito.
Perdido de mí en el descubrimiento del mundo,
ya no hay morenas tierras de España
arenas de Portugal.
Más allá de tanto mar, de tanto cielo, sólo esta leyenda de mí...


(Traducción: Antonio Alfeca)
António Alfeca é um poeta andaluz , a quem devo a honra de me ter traduzido.



publicado por Do-verbo às 15:21
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
 
 

 

Mitigo na palavra a minha sede.
A sede de saber mais do que sei.
Até o que se escreve na parede,
quando, a desoras, dorme a iníqua lei.

 

A sede das manhãs que livres rompem
as névoas das censuras e do medo
e afronta as vergastadas que corrompem
a primavera e matam em segredo.

 

A sede do amanhã que se mitiga
nos versos insubmissos da cantiga
que rasgam os silêncios clandestinos.
 
A sede da semente a germinar,
que quer ganhar raízes e brotar
além do chão alturas e destinos.
 
 
José-Augusto de Carvalho
21 de Dezembro de 2011.
Viana * Évora * Portugal


 



publicado por Do-verbo às 14:23
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

 

Oásis de esperança na paisagem.

Percurso desnudado e peregrino.

Cansaços de passado que domino.

Cantados esplendores de miragem.

 

Esbatem-se no longe purpurino

auroras imprecisas --- a mensagem

vestida de Levante, na roupagem,

e nua na Verdade do destino.

 

Carrego no meu peito as oferendas,

num cofre de cetim e rendas raras,

espólio de aventuras e contendas.

 

Desperta, no clarão das almenaras,

a noite em sortilégio acorda as lendas,

reféns da treva em suas mãos avaras.

 

 

José-Augusto de Carvalho

2004

Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 16:11
Sábado, 03 de Dezembro de 2011

Miliciano - Guerra Civil de Espanha (1936/39)

 

 

España!

 

 

No hagas caso de lamentos

ni de falsas emociones;

las mejores devociones

son los grandes pensamientos.

Y, puesto que, por momentos,

el mal que te hirió se agrava,

resurge, indómita y brava,

y antes de hundirte cobarde

estalla en pedazos y arde,

primero muerta que esclava.


 

***

 

 

 

Espanha!


 

 

Não te importem os lamentos

nem as falsas emoções!

As melhores devoções

são os grandes pensamentos.

E se, mesmo por momentos,

o mal que te dói se agrava,

ressurge indómita e brava!

Em vez de um render cobarde,

estala em pedaços e arde,

que antes morta do que escrava.


 

*

 

Nota:

Poema atribuído a Federico García Lorca. Foi por mim traduzido em 1969 e publicado, na mesma altura, na República das Letras e das Artes, suplemento semanal do jornal diário República. Este suplemento era dirigido pelo Poeta Alfredo Guisado, que fora amigo de Fernando Pessoa e seu companheiro na aventura do Orpheu, em 1915.





publicado por Do-verbo às 09:22
Sábado, 03 de Dezembro de 2011

 

N' Os grandes cemitérios sob a Lua,

o grito do cigano de Granada

a noite da vergonha perpetua

na dor da minha Ibéria assassinada.

 

Ardia o mês de Agosto. Era verão.

E a terra ensanguentada ainda jaz,

memória de um sem tempo e sem razão

que fuzilou o sonho, o verbo e a paz.

 

Agora, nas palavras, o tardio

consolo do clamor que repudia

o gesto da barbárie consentida.

 

Mataron Federico! E no vazio

do tempo sem amor e sem Poesia,

persiste, em carne viva, esta ferida.

 

 

 

José-Augusto de Carvalho

26 de Março de 2007.

Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 05:33
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011
 
Contigo trazes vinho verde e broa,
o gosto de além-Douro num abraço.
Bem-vinda a CantOrfeu! E livre voa
nas asas da tontura deste espaço.
 
De Eurídice e de Orfeu queremos ser,
no templo da palavra, o sonho e a prece
que brotam num constante renascer
no dia sempre novo que amanhece.
 
Aqui, neste fascínio de magia,
queremos iguarias na beleza
vestida de verdade, na ambrosia
 
que, assim, nos embriague na certeza
de Eurídice e de Orfeu, de a Poesia
servida, em sacrifício, à nossa mesa.
 
 

Com carinho,
Grupo CantOrfeu

José-Augusto de Carvalho
29 de Dezembro de 2006
Viana * Évora * Portugal

O CantOrfeu pretende ser um espaço onde coexistam todas as manifestações de arte. Cada um dos seus membros será uma parte indissociável do todo, com iguais direitos e deveres quanto ao seu objectivo.



publicado por Do-verbo às 10:16
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