Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
 
 
Do vento que enfunou as níveas velas
 
das velhas caravelas de quinhentos,
 
só resta o Fado, triste, nas vielas,
 
vestido de saudade e de lamentos.
 
 
 
Poetas loucos há, de Norte a Sul,
 
buscando, no sabor da maresia,
 
com Sá-Carneiro, um pouco mais de azul,
 
no céu da decadência amarga e fria.
 
 
 
Na minha voz ecoam outras vozes,
 
as vozes que eu herdei e que mantenho,
 
perenes de manhãs de apoteoses.
 
 
 
Memória do que foi o velho lenho,
 
nas asas haverá dos albatrozes
 
ou vivo no palor de algum desenho...
 
 

 
José-Augusto de Carvalho
13 de Janeiro de 2007
Viana do Alentejo * Évora / Portugal


publicado por Do-verbo às 14:10
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
 
Maio maduro - Foto Internet - autor desconhecido
 
 
Da colheita de Maio Maduro,
 
Quanto baste de alento e de alvura.
 
Mitigar minha sede procuro
 
Na cisterna de chuva água pura.
 
 
 
Na farinha e na chuva que amasso,
 
Minha fome modela o sustento.
 
É da Terra e do Céu este abraço
 
Onde crio o que sou no que faço.
 
 
 
Tudo em mim é a soma do todo,
 
Que é de pó e que é de água – este lodo,
 
Num pedaço de céu que me acena…
 
 
 
E assim vou, perseguindo este rastro
 
Que lucila a saudade de um astro,
 
Nesta cósmica angústia terrena…
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Dezembro de 2010.


publicado por Do-verbo às 04:42
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

 

Cada espiga suava o cansaço

ou, talvez, uma lágrima ardente.

Na fatia de pão ainda quente,

eu comia o calor dum abraço.

 

A pujança vital do teu braço,

p'la descrença algemado ardilmente.

Foste o ferro, ao sol incandescente,

à espera da têmpera do aço...

 

Não sabia, menino, que esta ânsia,

que eu colhia no vento, provinha

das papoilas vermelhas e bravas...

 

Não sabia, nos anos da infância,

que tu eras a fome que eu tinha,

saciada no pão que me davas...

 

 

José-Augusto de Carvalho

In arestas vivas, 1980.

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publicado por Do-verbo às 15:15
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011
 




Nem um palmo tinha
de terra que fosse minha.
 
A lonjura das herdades
ganhava ao longe da vista...
E o sangue do meu suor
a tudo deu de beber.
 
Não há homem que resista
quando tudo tem de dar
e nada que receber...
Quando até o pão que é seu
é obrigado a pagar...
 
Fui a gleba, fui a fome.
Não tinha terra nem nome...
 
 
José-Augusto de Carvalho
In arestas vivas, 1980.

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publicado por Do-verbo às 15:00
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