Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

 

Era ainda pequenina,

acabada de nascer,

ainda mal abria os olhos,

já chorava por te ver...

 

Agora que sou velhinha,

já tão prestes a morrer,

olha bem para os meus olhos:

ainda choram por te ver...

 

(Beira Baixa)


publicado por Do-verbo às 08:53
Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

 

Trabalhador rural do Alentejo
Óleo de Dórdio Gomes, pintor alentejano
 
 
 
Em nome do pai,
em nome da mãe,
em nome da terra que me viu nascer,
eu canto os matizes incertos dos dias.
 
Em nome do pai,
em nome da mãe,
em nome da terra que me viu nascer,
recuso o meu canto
ao nada parido nas noites da insónia.
 
Em nome do pai,
em nome da mãe,
em nome da terra que me viu nascer,
Sempre o que não sou
releva o que sou.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 20 de Julho de 2011.


publicado por Do-verbo às 03:49
Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
 

2005: PAZ NA INTERNET

Compreender, eis a questão!
Lizete Abrahão

    Não importam os meios, os recursos ou os fins; nem mesmo o objetivo mais importante tem algum valor quando o ser humano, nas suas buscas, seja pelo que for e como for, perde o controle sobre seus atos ou palavras.
Já vi e li, aqui na Internet (e em muitos outros lugares, por óbvio), pessoas falando e escrevendo sobre bondade, amizade, paz, amor e outros sentimentos puros, não raro, invocando o nome de deus e outras entidades místicas e, logo adiante, dizendo e escrevendo coisas chulas, numa verborragia virulenta, contagiando uns e outros que, por desaviso, pusilanimidade ou maldade, tomam o mesmo caminho, disseminando, em sua trajetória, a discórdia e o mal-estar. E o mal de todos os males é o fazerem, em nome de uma pretensa defesa de direitos de bens usurpados, tanto materiais quanto intelectuais, quando na verdade, no meu humilde entender, há apenas o aviltamento de valores maiores, a banalização de atos que deixam de ser nobres quando são cometidos.
O grande mal que grassa entre os humanos, na Internet e fora dela, gerando violência, geralmente gratuita, é a incompreensão. Porque será que é tão difícil compreender o outro? Sei que as intenções é que fazem a diferença, e dizem: "Respeitem as diferenças". Mas como é que alguém vai respeitar o que nem se deu ao trabalho de procurar saber? Quem vai respeitar ou mesmo aceitar aquilo que não conhece? E, então, eu pergunto: "Há, por acaso, interesse em as pessoas se conhecerem de fato?". Receio que eu não gostaria da resposta que até se prenuncia...
Se tantos dizem que buscam a Internet, para aprender, adquirir conhecimento, relacionar-se com outras pessoas, etc., por que há essa visão tão curta, entretanto, levando a discussões inócuas tão longas? Sinceramente, custa-me entender certos comportamentos. Aliás, está aí uma coisa que terei de aprender a compreender; nunca a aceitar, porque não aceito violência de espécie alguma.
Hoje em dia, jogam palavras, como punhais; ferem-se uns aos outros. Quando vejo, então, pretensos poetas, usando a palavra, em brigas quase insanas pelo que eles chamam "direitos autorais", chego à conclusão de que a poesia ainda está muito longe daquilo que ela verdadeiramente vale. De que adianta dizer-se poeta se a vaidade permite apenas que se alimentem os egos, que sirva de pasto para egoísmos, ciúme doentio, desavenças, desolando de tal forma o interior humano que nada mais resta, além de fugas alienantes. Onde a sensibilidade? A afetividade? O descobrimento de si e do outro? A conscientização?
Poeta resgata valores, através da poesia, e não a usa para jactar-se. Poeta leva, por ela, os mais nobres sentimentos e não a degradação das relações entre as pessoas. Ser poeta não é tarefa fácil, não é apenas sair fazendo versos; não é importar-se com o peso de outras personalidades e fazer comparações....É ser responsável por si e pelo mundo inteiro; é anunciar-se, a esse mesmo mundo, como mensageiro do BELO, através da linguagem afetiva, por mais feio que esse mundo possa parecer aos outros; é ter o direito de sofrer mais pela ausência de valores humanos do que por não o terem compreendido como poeta. Ser poeta é não fazer uso da palavra para destilar fel, purgar ódio e sentimentos nefastos a ela e aos outros que são "respingados" pelo seu amargor. Poeta destila, sim, mas não seu próprio fel, e, sim o do mundo, ele é o filtro do feio e do ruim e, guiado pelo sentido do BELO, asperge e estabelece, nesse mesmo mundo, a POESIA. Poeta é instrumento e não fim da poesia.
Compreender, sobretudo, que somos diferentes uns dos outros e, antes de tudo, compreender essas diferenças para, se não puder aceitá-las, pelo menos, respeitá-las. Para isso, basta ter a consciência de que há diferenças; saber que elas existem já é um grande avanço, um sinal de inteligência aguçada, mas não querer descobri-las, permanecer no próprio e obscuro "eu" , preferindo rechaçar e agredir o outro, é atitude de quem não tem capacidade nem mesmo de se descobrir...
Dizem-nos seres racionais, mas, anterior à racionalidade, somos seres lingüísticos. É esse fato que, estruturalmente, nos difere dos demais seres vivos, entretanto, o que nos classifica como humanos é a capacidade de sentir e transmitir emoções. Pois o bom ou mau uso de nossa competência lingüística e da falta ou degeneração das emoções dependem, somente então, do uso da razão, o verdadeiro comandante das ações conscientes.
Não há porque deixar de ter e expressar sentimentos fortes, de transbordar emoções, mas há que se fazer uso do consciente, para controlar exageros. Toda exacerbação, para mais ou para menos, coloca o ser humano em xeque. Creio, mesmo, que é a falta de visão poética da vida que conduz à essa petrificação de sentimentos.
Se a poesia não fosse tão aviltada e se os ditos Poetas, usando adequadamente sua competência lingüística, a parissem, não para diminuírem as diferenças, mas para fazerem os homem pensar, aproximar-se, provocando neles belas emoções, estou certa de que haveria bem menos violência, neste nosso mundinho.

Hoje, eu bem poderia ter escrito um poema...

Sê feliz!

Lizete Abrahão


publicado por Do-verbo às 14:17
Sábado, 16 de Julho de 2011



Perdoa-lhes, Senhor! Não sabem o que fazem...
 
E a súplica fixou a essência da mensagem!
 
E séculos depois, persiste esta viagem,
 
Enquanto a denegri-la os neros se comprazem.
 
 
 
O verbo floresceu por tempos, por espaços,
 
e pétalas de luz juncaram as estradas,
 
guiando, passo a passo, as árduas caminhadas,
 
suadas de esperança, anseios e cansaços.
 
 
 
No fértil chão da fé, medrou a boa nova.
 
A chama do perdão, sagrado no martírio,
 
A lucilar no altar da vida, como um círio,
 
Trazia da verdade a derradeira prova.
 
 
 
Nos pântanos do fel, ainda as aras de ira
 
Incensam o estertor da idólatra mentira...
 
 
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
 
Lisboa, 12 de Julho de 2011.


publicado por Do-verbo às 07:30
Domingo, 03 de Julho de 2011
 

 /

Nas tuas mãos, a pedra do feitiço
refulge, incandescente, em tons vermelhos.
Travessos, os teus olhos, num derriço,
divertem-se no jogo dos espelhos...
 /
De ti, desvio os olhos, contrafeito,
num ar de adolescente insegurança,
ainda que, a saltar dentro do peito,
meu coração ensaie ardente dança.
 /
E tento adivinhar, numa aflição,
se te divertes ou se me escarneces.
E o tempo pára, numa assombração!
 /
E, despeitado, eu sou quem não mereces,
um sonho de fascínio e tentação
que morre porque em mim te desvaneces...

4 de Setembro de 2007.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 16:28
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