Sábado, 18 de Junho de 2011
 
Sem anseios de evasão
nem espaços interditos,
este dia de verão
tem feitiços infinitos.
 
Arde o sol, é meio-dia!
As sopas de pão caseiro
boiam, mansas, na água fria...
Sou, no gaspacho, o primeiro!
 
Dorme a terra à soalheira.
Não há quem se não resguarde
enquanto viva, a fogueira,
se derrama pela tarde...
 
Da primavera florida,
muito pouco já mal resta...
Vai a tarde de vencida,
são horas de erguer da sesta!
 
Olha o sol já no poente,
na sua hora derradeira!
Rouba-lhe um tanganho ardente,
com ele acende a fogueira...
 
 
Porque é tempo de folgar,
qual irá ser a primeira
das moçoilas por casar
a saltar esta fogueira?
 
Vamos, salta, mocidade!
Não terás na vida inteira
mais outra oportunidade
para saltar à fogueira...
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
Viana, 18 de Junho de 2011.


publicado por Do-verbo às 14:43
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
 

 

A paz pedi, trouxeram-me o confito.
 
No meu jardim, secaram já os cravos.
 
Restaram-me, na vida, os desagravos
 
que irrompem do feitiço em que acredito.
 
 
 
Feitiço dos Jardins da Babilónia,
 
suspensos do esplendor que determina
 
que eu seja, para além, da minha insónia,
 
o grito que se encontra em cada rima.
 
 
 
E quando, à luz serena do luar,
 
a noite se derriça, enamorada,
 
eu sinto, em meu sonhar, um madrigal...
 
 
 
E os versos com que teço o meu cantar
 
são fios de brancura imaculada
 
de um lustre enluarado de cristal.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
7 de Junho de 2011.
Viana*Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 05:45
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Crónica de um dia sem história
 
 
O Largo
 

 

Hoje, desci ao Largo. Sim, também eu tenho um Largo. Não é, seguramente, o Largo de que o Manuel (da Fonseca) nos fala e que era o centro do mundo. Este meu, mais modesto, é, apenas, o centro do meu povoado.

Neste meu Largo, está sempre um homem olhando em frente. Alheado das árvores que o circundam, olha em frente. Fixamente. Tentará, porventura, desvendar as novas e os mandados que virão.

Fica indiferente às conversas que escuta, tal como à chuva que o molha, ao frio e ao calor que já não poderão incomodá-lo.

Um ou outro, mais velho, fala dele como de um passado morto. Interiormente, sorri. O passado não morreu. O passado é a raiz, as fases diversas sobre que assenta o presente. O presente à espera do futuro. O passado é ontem; o presente é hoje; o futuro é amanhã.

Do passado nos chega a sentença: quem boa cama fizer, nela se há-de deitar.

Como dizia, desci ao Largo. Hoje. Hoje deveria ser um dia especial, deveria ser mas não é. Mais exactamente, não vi que fosse.
 
Em derredor do homem sempre presente, havia diversas pessoas, cavaqueando. Também um carro de som, tentando animar o ambiente com banalidades adventiciamente desportivas.

Senti-me defraudado. De dia especial, nada vi. Regressei a casa. Olhei a estante onde arrumo alguns livros. Lá estavam Os Lusíadas. Melancolicamente, recordei: Esta é a ditosa pátria, minha amada!
 
Pois...
 

 Gabriel de Fochem

10 de Junho de 2011.


publicado por Do-verbo às 04:39
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
 
No princípio era o verbo... e Deus estava só!
 
Na graça da nudez, a terra seca, em pó...
 
 
 
Da fonte que mitiga a sede do infinito,
 
tirou um pouco de água e o pó dessedentou...
 
Da lama resultou o barro... e levedou!
 
Depois, foi só criar. Assim nasceu o mito.
 
 
 
Deste mistério santo, a carne é Deus e barro!
 
E o barro, que é de Deus, recusa os adjectivos.
 
É barro e nada mais. A graça que há num jarro
 
também lhe vem de Deus. Sem outros aditivos.
 
 
 
A débil mente humana é que perversa impõe
 
insólitas noções e o santo barro inquina...
 
Mas, ai, se a gente (im)põe, só Deus é que dispõe...
 
e uma graça de Deus só pode ser divina!
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
16 de Março de 2002
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 04:22
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
 

 

Não me peçam nem prece nem círio,
 
evocando o doer do martírio!
 

 
Eu apenas levanto um padrão
 
nesse tempo cumprido e prossigo.
 
Levo o pão repartido comigo
 
e a Verdade é a minha oração.
 
 
 
A verdade fraterna e concreta,
 
que balsâmica olora e floresce
 
quanto mais sobre o pântano desce
 
o livor que angustia e inquieta.
 
 
 
Neste parto de dor e porfia,
 
o milagre levanto do chão.
 
O milagre fraterno do pão,
 
do pão nosso de todos os dias...
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
13 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 04:16
Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Árvores de Vidas



Eu aprontava muito quando guri, e o pai
Vendo que só vara de marmelo não resolvia
Dava-me pitos cascudos e punha-me a plantar em casa
No quintal frondoso a lavoura de alfaces e milharais
Entre o castigo de ler dicionários, jornais e a Bíblia

Como eu gostava muito de macarrão, um dia
Plantei vários talos de macarrão espaguete
Que ficou verde; fui que fui contar pimposo pra mãe
Que o macarrão tinha pegado; tava brotando
Feito legume em terra chã - com estrume e regador

Todo mundo cerriu muito lá em casa esse dia
-Tá encardido, disse a minha irmã Sueli de tromba
Erzita outra irmã explicou que estava era apodrecendo
Porque macarrão não cresce em árvores como pitanga
Ou como gabirova, jabuticaba branca ou ariticum

E eu que já tinha sondado outros plantios e regas
Numa lavoura até de macarrão-gravatinha, ou, ainda
Pés de salsichas em lata, pés de Crush, tudo para mim
Que pensava dar em árvores – até arvore de passarinhos
Como galho de pencas de pardais no meu encantário...

Pelo jeito eu ainda criança já era poeta – e não sabia
A árvore da vida dá sofrências e alegranças também
Contei pro filho Thiago o pé de macarrão que um dia plantei
E ele todo ridente soube que seu pai um dia também foi criança
E errou, pintou e bordou. Mas também sonhou e venceu

Hoje meu filho Thiago Frederico é a minha árvore
Que já teve lágrimas mas florirá muitas esperanças na vida
E nos canteiros da terra semearemos além do nosso reencontro
Árvores de abraços, afetos, conquistas, pertencimentos
Porque, afinal, todos somos flores e frutos dessa vida


Silas Correa Leite



publicado por Do-verbo às 14:56
Sexta-feira, 03 de Junho de 2011
 
Dórdio Gomes (pintor alentejano)
 

 
Creio em mim, peregrino na Vida,
 
nesta espera de um céu, mas na terra,
 
e na força do grão que germina
 
concebendo o milagre do pão
 
que ceifei, debulhei e moí
e depois amassei com as lágrimas
 
em que afogo a revolta do servo.
 
Cada dia que nasce cá vou
 
eu descendo aos infernos
 
onde os servos extraem o pão
 
que empaturra os senhores.
 
Creio ainda no sol do amanhã,
 
na certeza de mim,
 
no homem livre,
 
na justiça dos homens,
 
no clamor da Verdade
 
sobre a Terra.
 
Assim seja!
 

 
José-Augusto de Carvalho
2 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal


publicado por Do-verbo às 03:37
Quarta-feira, 01 de Junho de 2011
 
 
De palavras não careço
nem há palavras precisas;
apenas o teu olhar
sempre me ilumina e guia.

 
Afronto as encruzilhadas
indefinindo os caminhos.
Despetalo rosas rubras
e o caminho cheira a sangue.

 
Em cada nuvem cinzenta
que presagia procela,
adivinho as tuas lágrimas
derramando-se na espera.

 
Com o meu bordão, amparo
o trôpego caminhar
dos meus passos que recusam
descansar ou desistir.
 
 
 
José-Augusto de Carvalho
1 de Junho de 2011.
Viana de Fochem


publicado por Do-verbo às 15:34
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