Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

 

 

 

 

 

Além do promontório, o mar aberto,

enigma da distância mais remota!

Baloiça a barca o seu destino incerto,

as velas sonham-se asas de gaivota...

 

Experto, o velho avisa, nos areais...

Viúvas de amanhã aflitas choram...

No céu, sucedem-se astros os sinais...

Os medos por haver já não demoram...

 

Trombetas anunciam a largada!

As tágides soluçam a saudade

nos versos que Camões à pátria deu...

 

Ao leme vai a mão determinada,

ousando ser além posteridade...

e, pouco a pouco, o mundo aconteceu.

 

 

José-Augusto de Carvalho

30 de Outubro de 2005.

Viana  * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 09:19
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005

 

José Soares Feitosa é um poeta contemporâneo, brasileiro de nascimento, poeta de toda a Língua Portuguesa. Falar de Soares Feitosa, quer como poeta, quer como divulgador de outros poetas ou candidatos a poetas, é falar da Poesia. Ainda que seja um lugar comum, aqui digo que a melhor maneira de falar de Soares Feitosa é ler a sua poesia, é amar a Poesia. O Brasil, a grande Pátria Irmã deste Portugal já vestido das neves da anciania, foi e será a terra prometida dos portugueses deserdados e vergados às intempéries de uma pátria exausta e sempre adiada no objectivo de se cumprir. O povo português foi à Índia, mas não provou as especiarias; foi ao Brasil, mas nunca comprou o pão com o ouro. Esta é a verdade. Já João de Barros, nas suas décadas, no século XVI, lastimava haver nas ruas de Goa portugueses estendendo a mão à caridade. Portugal foi sempre assim! Como disse o poeta José Duro, português-alentejano como eu, falecido na última década do século XIX, «o ouro de um palácio é a fome de um casebre». A história de um povo foi sempre a história da sua classe possidente. Até quando? Como sucede com a maioria dos portugueses, palpita em mim uma saudade de África, uma saudade do Brasil, uma saudade do mundo além... Dos meus antepassados próximos, há descendentes em Moçambique e no Brasil. Por lá tive tios e tenho primos que não conheço e de quem nem sei o rasto. Vim ao mundo na década de trinta. Morria-se em Espanha, na dita Guerra Civil, onde mataram os sonhos de Picasso, de Lorca, de Alberti, de Dolores Ibarruri, e onde vilipendiaram a vontade e a dignidade do povo espanhol. Na década seguinte, tive o privilégio de conhecer as primeiras obras da Literatura Brasileira. Na minha estante, conservo e releio, até hoje, um pouco do que se escreve no Brasil. Recentemente, já com a disponibilidade da Internet, tive e tenho também o privilégio de ler diariamente os tentames literários de tanta gente e de conviver virtualmente com alguma dessa mesma gente. E foi pela Internet que conheci o Poeta Soares Feitosa e o seu Jornal de Poesia. Em Janeiro último, exactamente no dia 24, Soares Feitosa presenteou-me com o seu trabalho "Mãos". É-me apresentado como um prefácio do livro "Recordel", de Virgílio Maia, autor que, infelizmente, não conheço, mas espero vir a conhecer, quando tiver o prazer de ler a sua obra. "Mãos" é um trabalho que não pode nem deve ficar subordinado ao outro que é "Recordel". E não pode, digo eu, porque tem vida própria, porque deve ter vida própria. E ao ousar afirmar isto, outrossim afirmo que quem adquirir "Recordel", necessariamente adquirirá duas obras em um só volume: "Mãos" e "Recordel". Ao ler e reler "Mãos", senti as veias do Brasil Nordestino, vivo e perene, afirmando uma presença, hoje, do que, ontem, eu lera em Guimarães Rosa, Lins do Rego, Amado, etc. Obrigado, Amigo Francisco José. Obrigado, Poeta Soares Feitosa. Desde Portugal, exactamente de Viana do Alentejo, o abraço afectuoso e agradecido do

 

José-Augusto de Carvalho

(24 de março de 2004.)



publicado por Do-verbo às 23:44
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

 

 

 

É noite. Batem horas, sonolentas,

na torre de menagem dos castelo.

Ah, noite, que de sombras te sustentas,

doendo neste sonho em que me velo!

 

Monótono é o som que se dilui

nas ruas sem viv'alma deste burgo.

Que frias estas cinzas do que fui!

Só dores escaparam ao esburgo!

 

Comigo trouxe o grito flamejante

do verbo rendilhado, verso a verso,

e nada, por desgraça, foi bastante

para deter o poderio adverso.

 

Perdido o sonho, vive, Al-andaluz,

na lenda que perdura e nos seduz!

 

 

 

7 de Outubro de 2005.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 23:37
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

 

 

 

 

Das rotas dos princípios disto tudo,

emerge o verbo --- essência de água e lodo.

Das tábuas que quiseram ser um todo,

não resta nem espada, nem escudo.

 

O verbo, sem sentido, anestesia

a dor que prolifera e que subjuga.

Já nem sequer a mão canhestra enxuga

a lágrima que dói e tomba, fria.

 

Casado o desespero com a ira,

irrompe da cratera a violência

na lava da vergonha e da mentira.

 

Suspenso do mistério da existência,

dedillho, em desespero, a minha lira,

vergado à perdição da minha essência.

 

 

José-Augusto de Carvalho

13 de Setembro de 2005.

Viana do Alentejo * Évora -Portugal



publicado por Do-verbo às 23:29
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

 

 

 

 

O músculo cardíaco bombeia,

num tique-taque, a morna melopeia...

 

Nas têmporas, palpita o sangue vivo,

correndo o corpo todo numa ronda.

Sustenta, aquece, alaga e atento sonda,

instante, num vaivém imperativo.

 

Não pára o seu labor e não reclama

por horas de descanso ou regalias.

Só quando eu ajo contra mim me chama,

vergando perigosas ousadias.

 

Num dia por haver, quando será?,

exausto do labor ou agredido,

meu tempo de existir silenciará

e nada, além de mim, fará sentido...

 

 

José-Augusto de Carvalho

23 de Outubro de 2005.

Viana * Évora * Portugal



publicado por Do-verbo às 23:24
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