Domingo, 14 de Março de 2010

Viana do Alentejo, 19 de Setembro de 2009
Texto de apresentação de “O meu cancioneiro”, de José-Augusto de Carvalho


Ao lermos um livro, há sempre muito do autor – da pessoa que é – que para nós passa. Que captamos – assim o julgamos. Que me desculpe José-Augusto de Carvalho a ousadia, mas sobre ele quero dizer algumas palavras.
José-Augusto de Carvalho é, em minha opinião, um homem fora do tempo. De outra geração embora, como meu pai, é um homem de valores, convicções e…palavra. Daí o desfasamento com o tempo que vivemos encontrado na sua escrita porque por si vivenciado. A palavra dada vale tudo. O aperto de mão substitui notários. Os valores que o sustentam são tão válidos no tocante à sua pessoa e vida como à de qualquer outra pessoa. José-Augusto de Carvalho sabe, com um saber da alma, que somos o resultado de tudo e de todos que nos antecederam – daí a importância dada à nossa história e a estas antigas e belas expressões poéticas com que elaborou este Cancioneiro. Sabe, acima de tudo, o sentido e o valor da “alteridade”. Sabe que ele é o outro, da mesma forma que o outro é, ou pode ser, a qualquer momento, ele/cada um de nós. Por isso, os seus sonhos e projectos são-no no colectivo. Nunca por ambição pessoal. Para si não quer nada que não queira para todos nós.
Passemos ao Cancioneiro que hoje se apresenta:
Fernando Pessoa afirmou que a poesia é uma forma de prosa em que se cria um ritmo artificial, através de: 1) pausas especiais – diferentes das que a pontuação define - embora, por vezes, possam coincidir; 2) escrita do texto em linhas separadas, denominadas versos. Desta forma, o autor/poeta cria 2 tipos de sugestões características à escrita poética: Sugestão rítmica/métrica, de cada verso por si; Sugestão tónica incidindo na última – ou única palavra do verso (se for o caso).
Uma questão se levanta: porque sente o poeta a necessidade de criar um ritmo artificial? É bem simples a resposta – porque a emoção intensa não cabe numa simples palavra, daí a necessidade de criar uma musicalidade rítmica exterior à palavra – só por si – mas que desta forma é contida no verso, no poema, como se num cálice. Ou, dito de outra forma: a poesia é uma forma de música feita com ideias em vez de só com emoções. As emoções transmutam-se em ideias que se expressam – melodicamente/ritmicamente/musicalmente – através das palavras. Toda a ideia perfeitamente concebida é rítmica, por si e em si, e é isso que José-Augusto de Carvalho, mais uma vez, nos oferece com este Cancioneiro. O ritmo, a rima, a estrofe são instrumentos disciplinadores da emoção de forma a exprimi-la não na forma tumultuada que é própria das emoções, mas num grau superior de controlo imposto pela disciplina destes 3 elementos: ritmo, rima, estrofe! Em síntese, afirmo que um poema é a projecção de uma ideia por palavras, mediadas pela emoção.
Com este Cancioneiro, explorando a poesia trovadoresca nas suas 4 vertentes: Cantigas de amor, Cantigas de amigo, Cantigas de escárnio e mal dizer e rimances, o autor presta homenagem aos trovadores medievais e lembra-nos: a existência dos testemunhos poéticos por eles deixados, por aí abandonados e cobertos de pó por falta de leitura; a necessidade de a eles voltarmos; a necessidade de os ler e reler, para melhor nos compreendermos enquanto povo, enquanto nação com um quadro cultural e histórico próprio que aí encontra clara e ilustrativa síntese evolutiva.
[Deixem-me fazer um breve aparte a respeito do “cantar de amigo” que constitui uma variedade poética da produção lírica portuguesa originária da Idade Média.
Esta composição enquadra-se na original poesia trovadoresca Provençal, do sul de França, mas é uma construção poética peninsular que detém a particularidade de conferir o estatuto de enunciação à mulher, embora fossem sujeitos masculinos a compô-la. O cantar de amigo são cantigas de origem popular, com marcas evidentes da literatura oral utilizando recursos próprios dos textos para serem cantados - ainda hoje utilizados nas canções populares - e que propiciam facilidade na memorização.]
Neste Cancioneiro, José-Augusto de Carvalho pega, com mestria, nas quadras em redondilha, maior e menor, nas estrofes e nas sextilhas, usa sabiamente o ritmo e a métrica para, numa linguagem actual, entrosar passado, presente e futuro deste povo que somos. Os grandes momentos definidores da nossa identidade --- porque é disso que se trata nesta obra aqui ofertada a todos – de reconhecer, aceitar, acarinhar e manter a nossa identidade que de Castela nos separou --- são abordados: desde as batalhas, Álcacer-Quibir, Salado, Aljubarrota, às cruzadas – fora e dentro do espaço que hoje constitui o Portugal luso; “A dívida”, pg 38, em que enuncia as batalhas Aquém Tejo e Além do Tejo – dado que a Portugalidade se estende por muitos continentes aos nossos mitos e lendas; ao Bandarra e sua adivinhação; aos milagres estruturantes do simbólico na nossa cultura.
Dedica o poema “Quase uma oração", pg 40, a um tema tão português como “SAUDADE”. Desmonta o conceito em várias das suas vertentes, ou dimensões. “Saudade palavra linda…”, mas linda, porquê? Porque alimenta a esperança do retorno e do reencontro. Mas o mesmo sentimento, saudade, cria ansiedade, desesperança, angústia: “ …E a desventura detenha / p’ra que no peito eu mantenha / a bater, meu coração." (…)” Na última estrofe deste poema pede alento a Deus pois a dor é tão grande que se torna destruidora. O autor implora que este sentimento se transforme. Mostra-nos a saudade como algo potencialmente transformador: “ Ai, que esta dor que alimento / seja, na massa o fermento / do pão da vossa clemência.”
Nas Cantigas de Escárnio e Mal Dizer, em “Coisas do reino”, pg 45, se trocarmos: “…corredores do Paço” por corredores do poder, vemos e lemos um retrato actual do país. No seu olhar sobre o Natal (2 poemas nas pg 48 e 50), não deixa passar o modo tão português de dizer lamentando: “vamos indo, menos mal…”, nem deixa passar a hipocrisia que na época é recoberta pelo desejo /”momento anual/de nos sonharmos natal”. “É a visita anual/ a cumprir a tradição(…)/De Jesus nem um sinal(…)/o sonho, de rastros,/espezinhado mal brilha.”
E diz, pg 48, "que nos valha a gulodice(…) / Festejai, que é de bom tom! / Vinte e quatro horas de amor! / Abaixo o mau! Viva o bom!" Depois, novamente a dor, "A preto e branco e sem som”.
No poema À sombra do campanário, pg 51, o poeta faz a ronda pelas festas – Natal, Quaresma, Carnaval – mostrando-nos com o seu olhar acutilante e crítico como “…nesta monotonia, / à sombra do campanário, / se vive e pouco porfia, / ao sabor do calendário.” Como se as nossas vidas fossem um baile mandado à voz do mandador que estipula os nossos momentos e estados de espírito.
Em Engano Triste, pg 20, o poeta, do corpo faz o “convento” ou, figurativamente, o convento é o corpo; no poema “Enquanto a vida for vida!, pg 22, aborda um tema actual sobre o direito à vida, questionando-se, e a nós, sobre o que devemos ou não, considerar VIDA. A questão do direito a viver com dignidade, questão que tão escamoteada é na nossa sociedade.
Neste belo cancioneiro, do intimismo da alma, num registo mais pessoal, ressoa forte um grito humano e social a que não podemos ficar indiferentes se queremos que A VIDA SEJA VIDA e não seja um qualquer ZAGAL a comandar-nos.
Obrigada a todos por aqui estardes.
José-Augusto, obrigada por me convidares a falar sobre este belo e profundo Cancioneiro.


***
Conceição Paulino nasceu em Beja em 1945, na Freguesia de S. João Baptista. Reside em S. Mamede de Infesta há 36 anos.
Teve envolvimento político no distrito do Porto e no concelho de Matosinhos onde reside e deteve cargos autárquicos.
No plano cívico, fez parte dos corpos de algumas associações culturais e educativas.
Por ora atém-se ao envolvimento cívico. Licenciada. Exerceu durante os últimos sete (7) anos funções docentes no ensino superior.
NO PLANO LITERÁRIO:
Colaborou, durante 7 anos, com crónicas quinzenais no Jornal regional Matosinhos Hoje; fez recensão no extinto Jornal de Letras (Porto);
foi colaboradora ,com recensão e poesiam nas revistas Património XXI e Sol XXI e fez parte da direcção do núcleo do Porto da Associação Sol XXI.



publicado por Do-verbo às 12:18
Registo de mim através de textos em verso e prosa.
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