Segunda-feira, 16 de Junho de 2014

O SONHO E OS MITOS

 

 

José Augusto Carvalho

 

O sonho, esse conjunto de sons e  imagens quase sempre surrealistas que nos vem durante o sono, mesmo contra a nossa vontade, batizou estranhamente o ideal por que lutamos e que constitui, às vezes, o objetivo principal da vida.  Como uma fantasia absurda que temos durante o sono pôde também designar, em sentido figurado,  o que nos humaniza e dá um simulacro de sentido à vida?

Dizem que o sonho, no sentido próprio,  é manifestação do subconsciente ou uma prova de que o cérebro está sempre funcionando. Não sei por quê, o sonho nos homens é em preto e branco, mas, nas mulheres – dizem os entendidos –,  o sonho é colorido. Por ser fantasioso e incoerente, o sonho não pode ser interpretado racionalmente.  A ciência já comprovou que não existe sonho premonitório, a não ser na ficção. A história de José do Egito que decifrou os sonhos do faraó e lhe conquistou as graças (Gen. 40 e 41) é apenas mais uma das divertidas invenções de Moisés, o autor dos primeiros livros da Bíblia e de outros  mitos bíblicos, como o dilúvio ou a história fantasiosa de uma serpente a tentar a segunda mulher de Adão (Gen. 3, 1-6.) A primeira foi Lilith; Eva foi sua sucessora.  Se alguém disser que houve um tempo em que os animais falavam, está aí esse capítulo do primeiro livro da Bíblia a mostrar que pelo menos as cobras falavam, embora se saiba que a serpente seja apenas um dos disfarces do mitológico deus do mal... O mais curioso desses mitos lembra a Medusa, que transformava em pedra as pessoas que a olhassem de frente:  o da mulher de Ló que virou estátua de sal ao olhar para trás para ver  a destruição de Sodoma e Gomorra (Gen. 19, 26.). Aliás, o Noé e sua família lembram a versão mitológica de Deucalião e Pirra, que repovoaram o mundo depois do dilúvio. Se bem me lembram as leituras adolescentes dos romances de José de Alencar, em O Guarani, no final do romance,  há uma  versão indígena do dilúvio em que Ceci e Peri representam o casal destinado à perpetuação da espécie. Os mitos se repetem em todas as religiões. Já por isso,  Lévi-Strauss, no estudo em que propõe as unidades constitutivas dos mitos, ou “mitemas”, dizia que os mitos, “aparentemente arbitrários, se reproduzem com os mesmos caracteres e segundo os mesmos detalhes, nas diversas regiões do mundo” (LÉVI-STRAUSS, Claude. A estrutura dos mitos. In: ---. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, p.  239).

Acho que foi Luís Fernando Veríssimo que se manifestou, numa crônica, sobre o sonho, amaldiçoando-o por ser algo que nos chega sem  ser  desejado, independente de nossa vontade. Acho, no entanto, que o sonho é uma forma de nos mantermos vivos quando perdemos parte de nossa vida a dormir. Um homem de 75 anos passou  25 anos dormindo. Sonhar é diminuir um pouco essa perda significativa do nosso tempo de vida, desde que nos esforcemos para que o sonho não seja esquecido quando acordamos. Afinal, dizem os entendidos, todos nós sonhamos sempre que estamos dormindo. Mas pensamos que não sonhamos porque nos esquecemos do sonho quando acordamos. E, por mais longo que o sonho possa parecer, é sempre curto e quase sempre precede os instantes finais do sono, quando estamos prestes a acordar.

Acho que é pelo que há de fantasioso e suprarreal que os sonhos são sempre maravilhosos, ainda que se manifestem como pesadelos. Quem sabe se acreditar numa vida depois da morte não seja também uma suprarrealidade que as religiões acalentam? Bendigamos os sonhos, no próprio e no figurado. São uma prova de que estamos vivos.

 

(Suplemento Pensar do jornal A Gazeta, cidade de Vitória, ES-Brasil,  14-06-14)



publicado por Do-verbo às 12:34
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