Registo de mim através de textos em verso e prosa.
Terça-feira, 15 de Maio de 2012
08.20 - AS CRÓNICAS DE GABRIEL DE FOCHEM * As Finanças...

 

É ancestral o anseio de independência. O ouro do palácio do senhor em nada enriquece o servo. Por isso, este sonha ganhar a sua carta de alforria e erguer o seu casebre.

Assim agiram os povos submetidos, anelantes de liberdade. E de esforço em esforço, fizeram seus os montes e as planuras, os rios e outros caminhos. Foi a assumpção do ter para garantia do ser. Os que não lograram obter o seu objectivo, terão de rever o seu percurso e determinar as causas do insucesso relativo. Não há nostalgia da servidão, há sequelas. E quem perde ou aliena os montes e as planuras, os rios e outros caminhos, está regredindo ao palácio dourado do senhor e às algemas da servidão.

O grande poeta Fernando Pessoa recordou-nos que Jesus nada sabia de Finanças. Pois é, eu também nada saberei, mas será necessário saber de Finanças para perceber que quem perde aquilo que tem ficará sem nada? E ficar sem nada é perder o presente e hipotecar o futuro.

Recordo, aqui, uma lenda antiga, que resumo:

Um senhor, que passeava pelos campos, encontrou um velho camponês plantando uma árvore. Admirado, perguntou-lhe:

Pobre velho, na tua idade, para quê plantar uma árvore? Já não terás vida para comer os seus frutos.

E, sábio, o camponês respondeu:

Pois não, eu sei que estou velho, senhor; mas os meus filhos e os meus netos irão comê-los. E isso me basta.

Não há notícia de os filhos ou netos do velho camponês terem alienado a árvore tão amorosamente plantada para eles. E também não há notícia destes filhos e netos saberem de Finanças. Pois…

 

15 de Maio de 2012. 



publicado por Do-verbo às 17:21
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08.20 - AS CRÓNICAS DE GABRIEL DE FOCHEM * Reflexão de um cidadão versado em coisa nenhuma

 

Sou versado em coisa nenhuma. Cidadão comum das ruelas , aprendo com a vida, dia a dia, a furtar-me às arremetidas dos senhores da cidade. Na mesa modesta, que mais não consente o salário determinado pelos senhores da cidade, vou comendo o tal pão que o diabo amassou. Não invejo os senhores da cidade porque recuso ser um deles. Se os invejasse, talvez, por ínvios caminhos, viesse a ocupar um lugar na fortaleza e a ser pior do que eles. O importante para quem é versado em coisa nenhuma é arrasar a fortaleza e reduzir os senhores da cidade a cidadãos comuns das ruelas. E não será nivelar por baixo, mas anular aberrações.

    Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que por muito que mude de senhores, nunca mudarei de condição.  E o drama não está na minha condição, mas na minha permissão. Se os senhores da cidade são tão poucos e os cidadãos versados em coisa nenhuma são tantos, só uma permissividade aberrante consente que o oiro de um palácio seja a fome de um casebre. Esta grande verdade que coloquei em itálico é do poeta José Duro, falecido em 1899, em Lisboa. Ele, se vivesse ainda,  não se importaria de que me socorresse do seu verbo. Meu pobre José Duro que, quando já só ossos descarnados, foste parar à vala comum, triste destino dos ossos abandonados! Nem a subscrição pública surtiu. Para nossa vergonha.

    Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que sou aluno aplicado da universidade da vida. E que só concluirei os meus estudos quando o nada me bater à porta.

    Sou poeta quando canto: «Da terra sou devedor / a terra me está devendo / que a terra me pague em vida / que eu pago à terra em morrendo». E, depois, que faço eu? Pago à terra, mas, antes,  permito que a terra me fique devendo...

    Sou sábio quando afirmo: «Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo». Mas continuo parvo. E se tivesse um pouco de bom, seria bom para mim...

    Sou indigno de mim e dos outros quando digo: A minha política é o trabalho.  Quando eu souber, de uma vez por todas, que trabalho é uma actividade e que política é governar a cidade, saberei, finalmente, que não posso nem devo esperar que os demais façam o que só eu tenho o dever e o direito de fazer.

    Serei eu, digno de mim, quando assumir os meus deveres e os meus direitos de cidadão versado em coisa nenhuma.

    Só nessa hora saberei quanta verdade encerra a parábola dos vimes.

 

23 de Abril de 2006.

   

Nota: Recuperando este texto, neste tempo conturbado.



publicado por Do-verbo às 16:33
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
08.20 - AS CRÓNICAS DE GABRIEL DE FOCHEM * No dia que passa...

Aqui chegado em anos vividos, já pouco me surpreende e já muito me desgosta. Longe vai o tempo da esperança pela esperança ou da expectativa pela expectativa.

A vantagem dos anos vividos assenta no capital de desenganos e logros. Capital doloroso, evidentemente, mas indispensável como prevenção.

Um ou outro momento de ventura ou encantamento dulcificam a vida, suavizando o quotidiano, mas nada acrescentam à dignidade colectiva.

Não há pessimismo nem desalento, há, com a possível lucidez, a análise do dia a dia. Do meu dia a dia e do dia a dia dos demais.

Os determinismos da rotação e da translação são indiferentes e alheios ao objectivo humano de viver com dignidade e com a possível satisfação.

Com Bocage, aceito que «os homens não são maus por natureza». E reconheço ser o meio a condicionar o Homem. Há valores que se ganham e há valores que se perdem. É imperioso conhecer as causas destas perdas e não só enfrentar os seus efeitos.

Nos textos (ditos) sagrados e nos profanos, encontram-se relatos da condição humana. Dos seus fastos e das suas misérias. É de sempre o exemplo de quem vive uma vida inteira por uma causa nobre e de quem muda de causas com a conveniência de quem muda de farpela.

Aqui, curvo-me perante a nobreza de carácter.

Aqui, e não por flagelação, tento estar atento a todas as acrobacias e grito não a quem quer o pão e circo de triste memória.

Enquanto vivos, é-nos indispensável a força moral da resistência e a capacidade de perspectivar a dignidade humana como um objectivo a construir dia a dia, incessantemente.

 

 

13 de Maio de 2012.



publicado por Do-verbo às 16:22
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Terça-feira, 17 de Abril de 2012
08.05- AL ANOCHECER * Sí, Madre!...
Dolores Ibarruri  (La Pasionaria)

 

Sí, Madre, No pasarán!

 

Cargadas de plomo,
las nubes llegan del Sur!...
Y vuelan con alas rojas
de sangre y dolor...

 

Ay, mi brujo de Granada,
donde estás ahora?

 

Ay, mi brujo de Granada,
donde están tus versos
echos de alas en el aire?

 

Ay, mi Federico,
donde están tus niñas
mirando a la luna?

 

Por llanuras y montañas,
más arriba, hasta Madrid,
vuelan las nubes de sangre!

 

Sí, Madre, No pasarán!

 

La lluvia ahoga la tierra,
con olas de miedo y rabia!

 

Ahora, vive en el aire
solamente el grito,
no, No pasarán!

 

Sí, Madre, No pasarán!
No pasarán mas allá
de las orillas del río
del llanto de nuestros muertos!

 

Sí, Madre, No pasarán!
mas allá del verde
besado por el rocío
de nuestro amanecer
en cada dia que nace...

José-Augusto de Carvalho
29/9/2010.
Viana*´Évora*Portugal


publicado por Do-verbo às 10:23
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Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
08.23 - VERSOS SOLTOS * Irreverência

(Vilancete)

 

 

 















Mote

Apoiada no quadril,
traz a moça a cantarinha.
Vem da fonte e vem asinha.


Voltas

Diz-se de «Abril, águas mil»!
E tanta sede que eu tinha,
naquela manhã de Abril!
Mas a moça vinha asinha
e negou-me a cantarinha
que apoiava no quadril...


Fiquei-me quase febril
devido à sede que tinha!
E nem sei mais se de Abril
ou se da moça que vinha
apoiando a cantarinha
no bailado do quadril...




José-Augusto de Carvalho
30 de Março de 2012
Viana*Évora*Portugal



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Terça-feira, 20 de Março de 2012
08.03 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Sonho meu!

Sonho meu, que estás em mim,
que sempre bendito sejas!
Oxalá que me protejas
até que chegue o meu fim!
Que sempre a tua vontade
seja o pão de cada dia,
que me alenta na porfia
de chegar à claridade!
Perdoa as hesitações
e os passos tantos perdidos...
Que possam ser entendidos
como severas lições!
E nunca me deixes só
nem sequer quando eu for pó...

 

José-Augusto de Carvalho
13 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 



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Terça-feira, 13 de Março de 2012
08.01 - ESTA LIRA DE MIM!... * Perplexidade
Perscruto a massa das palavras várias.
Com elas tento o por haver do verso:
O ritmo belo ou o fulgor das árias;
um arco íris de esplendor disperso.

E nada encontro para além do rito
vulgar e baço deste dia a dia...
Poeta-génio, assombração do mito,
que vida em ti além da minha havia?

Que flores belas de perfume raro?
Que sonhos lindos de esperança viva?
Que antemanhãs descortinaste ledos?

Aqui, confesso-me um lapuz ignaro,
olhando a vida que se esvai esquiva,
deixando-me hirtos os infrenes dedos...


 

José-Augusto de Carvalho
12 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 



publicado por Do-verbo às 09:18
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Quarta-feira, 7 de Março de 2012
08.01 - ESTA LIRA DE MIM!... * Na dimensão azul...

 

Sobraço um ramo de papoulas rubras.
São sangue vivo dum adil sem nome.
Oh, noite em sombras, oxalá me encubras
de algum olhar que por ladrão me tome!

As minhas mãos ensaguentadas tenho.
Que importa? É sangue desta terra e meu!
É sangue mártir a lavar o lenho
donde a verdade ainda não desceu.

Amado chão na dimensão azul
dum céu sem nuvens prometendo tudo,
que tremulina de dourado tule
cerra os meus olhos em estreme ludo?

Ai, desafio que me tentas tanto,
eu já não posso nada além do canto!...


 

José-Augusto de Carvalho
4 de Março de 2012.
Viana*Évora*Portugal

 

 



publicado por Do-verbo às 07:55
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
08.23 - VERSOS SOLTOS * Revisitando a juvenília

Arrumando e rearrumando papeis antigos, na presunção de manter viva a lembrança de um tempo que irremediavelmente desapareceu na voragem do movimento planetário que gera e cavalga o tempo, encontrei estes versos da juvenília. São dois glosamentos em forma imitada de Bocage. Não importa, agora, a qualidade; apenas dou a conhecer o que eu escrevia e como escrevia, na adolescência. Revisitar o passado é, muito vezes, acariciar a memória do que fomos.


I

O PENEDO


Oh, alta serra das neves
donde o penedo caiu!...
Ninguém diga o que não sabe
nem afirme o que não viu!


(quadra popular)

1
Nas asas do pensamento,
que nunca as houve mais leves,
encontrei-me, num momento,
«oh, alta serra das neves»,
no teu cume de cristal,
onde o reino vegetal
jamais medrou ou floriu!
Lá vi, do alto duma fraga,
essa parte, agora vaga,
«donde o penedo caiu».


2
Pelos fraguedos rolando,

que a desgraça a todos cabe,
foi ao mundo aconselhando:
«ninguém diga o que não sabe!»
Do tumular desfiladeiro,
já no esforço derradeiro,
que a voz do eco repetiu
por vales e por montanhas,
ainda arrancou das entranhas:
«nem afirme o que não viu!»




II

LUTA INTERIOR


Comigo me desavim,
sou posto em todos o perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.


Francisco Sá de Miranda
(1481-1558)


1
Cansado de procurar

a Lei do Princípio e Fim,
sem a poder encontrar,
«comigo me desavim».
Que razão em vão procuro
do Passado e do Futuro?
Como louco me persigo!
Quero hoje, amanhã não quero!
E, com tanto desespero,
«sou posto em todo o perigo».

2
Este viver, mar de fel,

a todo o instante maldigo.
Não posso viver com ele,
«não posso viver comigo»!
Esta vida, este martírio,
este constante delírio,
só na morte terá fim...
Meu destino está traçado:
Não posso fugir do Fado
«nem posso fugir de mim»!


Nota:
Textos com uma única publicação, no jornal República (suplemento República das Letras e das Artes), em 27 de Agosto de 1965.
Cordiais saudações.



publicado por Do-verbo às 15:25
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
08.01 - ESTA LIRA DE MIM!... * Revisitação

 

Revisito a ternura a doer na lembrança.
Tremeluz neste anelo um soluço criança.

A memória percebe a mensagem cifrada:
o impossível regresso ao regaço perdido.
Não há chama que acenda um pavio consumido
nem há eco da voz para sempre calada.

Há apenas a dor a ferir a lembrança.
E uma lágrima sulca impiedosa o meu rosto.
Do que fui, só restou, na saudade, o desgosto
de não mais, nunca mais!, ser de novo criança.

E pergunto o porquê, que só lágrimas gera.
E ninguém me responde! E ninguém dá por mim!
E o meu grito se esvai em angústias de fim,
sufocado a sonhar-se outra vez primavera…


José-Augusto de Carvalho
31 de Janeiro de 2011.


publicado por Do-verbo às 05:25
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